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Archive for fevereiro \08\UTC 2010


Cândido Portinari - Meninos Brincando (1958)

Vivemos num mundo onde mais de um bilhão de pessoas sofrem de fome crônica, e longe desses famintos, no país mais poderoso deste mesmo planeta, recentemente se distribuiu em dinheiro público uma ajuda de 700 bilhões de dólares. Cabe ressaltar, no entanto, que esse dinheiro não foi para saciar a fome de ninguém, nem tampouco para atender os trabalhadores estadunidenses que foram avassalados pela crise imobiliária daquele país; essa ajuda foi destinada a instituições financeiras, as responsáveis por uma das maiores crises econômico-financeiras da história. Convém, nesse momento, questionarmos como é possível haver tais extremos? Como pode uma espécie que se desenvolveu e se humanizou por meio da socialização vinda do cuidado criar tantas barreiras e egoísmo entre seus irmãos?

Nós humanos temos uma peculiaridade como espécie, somos permeados pelo cuidado desde a concepção, antes mesmo de nascer cria-se o vínculo mãe-filho devido às 38 semanas de gestação. Mesmo com todo esse tempo o bebê nasce debilitado e requer atenção por um longo tempo. Esse tempo de convívio entre mãe e filho é que fez surgirem as famílias, e como consequência desse acompanhamento surgiu a vida social. Como se há de verificar, o que conhecemos hoje como sociedades só foi possível devido a essas características específicas humanas. É nessa linha de análise que alguns filósofos destacam o cuidado como a essência do ser humano, antes mesmo da vontade e da inteligência. Leonardo Boff, teólogo e filósofo, nos aponta que o cuidado é a base da sociedade, ou seja, as relações, a política e a ética estão imbuídas desse cuidado essencial.

Mas então porque será que vivemos com tantas desigualdades em nosso mundo? Por que o governo dos EUA preteriu os trabalhadores e dispensou quantias vultuosas à um bando de engravatados de Wall Street? Estaríamos perdendo o cuidado? A resposta é não! Sem dúvida nossa civilização o está usando muito pouco e em formas novas, como a ajuda aos bancos, mas não perdemos o cuidado. O que podemos questionar é a forma com que estamos usando essa virtude. Nos dias atuais se privilegia a competição em vez da cooperação, aquela que toma o tempo das pessoas e beneficia a poucos. A competição enxerga o outro como concorrente, ela está arraigada em toda a cultura ocidental e nos está tirando o senso de fraternidade e o respeito para com a terra, dádivas que nos fizeram desenvolvermos como espécie. Talvez esse espírito de competitividade esteja fazendo com que a maioria de nós dispense cuidados apenas a animais de estimação e bens materiais.

Como podemos depreender, a competição propicia a individualidade. Nos dias de hoje temos carência de pessoas se esforçando juntas para os bens comuns, enquanto as praças e as assembleias comunitárias estão vazias as salas de TV reúnem cada vez mais adeptos, espaços esses em que não há relacionamento. Nessa esteira podemos observar atualmente a carência de expressões cuidadosas, porém, num outro enfoque, surgem o que podemos apresentar como pseudo-cuidados, isto é, atitudes mascaradas de cuidado que exploram a essência cuidadosa do ser humano e sua individualidade crescente.  Como ótimo exemplo disso destacamos um jogo que faz grande sucesso na comunidade sociovirtual Orkut, o Colheita Feliz, no qual o jogador pode cuidar de uma fazenda (virtual) com seus cultivos e criação de animais. O Jogo explora a capacidade de cuidado do indivíduo e ao mesmo tempo aliena-o, pois requer grande atenção do mesmo para com possíveis “intrusos” (outros jogadores do Orkut) que possam se infiltrar em sua fazenda para tomar os frutos da mesma.

Como se observa, o cuidado é mesmo essencial e sempre estará presente nas ações humanas. Entretanto a forma descrita acima é uma péssima expressão de cuidado de modo que toma o tempo de jovens que cada vez mais se distanciam da natureza e se enclausuram em ambientes fechados de frente a uma tela de computador. Talvez esse jogo tenha tanto sucesso, sobretudo com os jovens, devido ao fato dos alimentos chegarem a suas casas empacotados e sem referência da sua produção, criando barreiras entre a fertilidade da terra e a coisificação* da vida urbana.

Não duvido que à exemplo do jogo, que virtualiza o cultivo, daqui a alguns anos os modernos supermercados também “coisifiquem” a venda de seus hortifrutis, quando de modo a exemplificar a colheita poderão incluir o “cuidado” em suas gôndolas, nas quais haverão “pés” de mandioca junto ao produto embalado, podendo assim o cliente se sentir tranquilo ao conhecer e tocar a planta viva. Possivelmente esse estabelecimento viraria case de revista e sua fama se espalharia pelas redondezas, enquanto o produtor da mandioca continua sua frequente sina de atolar sua camionete nas desprezadas estradas rurais do município.

Podemos refletir, em virtude dessas considerações, que o cuidado não apenas está em nós, mas que somos o próprio cuidado.  Como os filósofos destacam, o cuidado é intrínseco ao comportamento humano. Tenha-se presente, no entanto, que nossa civilização atual o está utilizando de forma egoísta, deixando de lado expressões cuidadosas coletivas e fraternas e dando lugar ao individualismo. Para enfrentarmos as tribulações vindouras nos cabe resgatar o cuidado presente em cada um, e expressá-lo por meio da cooperação e não da competição.

Gustavo Góes

*redução do ser humano, suas características e relações, a seres que se comportam como coisas e objetos.

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Armand Guillaumin

Dada a formação ética e cética que os seres humanos atingiram, poder-se-ia analisar esses dois lados através de uma conjuntura pragmática, sendo notória a diferenciação entre um e outro. Cumpre observar por um lado, de forma bem sintética, que o ser ético aprofunda sua compreensão mundana, sendo um ser que analisa a crise ecológica-social que vivenciamos como global e sistêmica, por outro lado o ser cético analisar-se-ia a descrita crise como produto de desastres naturais, se tornando gradativamente sofista dos “acidentes ecológicos”.

Depreende-se que o ser ético vai muito mais além do que um mero observador dos fatos, o ser homem e mulher, corresponde a um ser condicionado, ciente de sua intervenção como sujeito histórico-social, não somente constatando as barbáries humanitárias e observando-as longinquamente, mas sim tecendo uma realidade ética a cada instante. A falta de eticidade nos dias atuais nos leva a uma abordagem ampla e complexa, entretanto o presente texto será desenvolvido partindo do principio social-ecológico, deixando assim uma abertura para uma futura abordagem.

Diante da auto-percepção, nós seres humanos, somos seres inacabados (como espécie e ser social), construindo assim a cada dia uma nova realidade, ou seja, nós temos a percepção de que somos seres inacabados e modificamos a nossa realidade. Partindo desta premissa, cabe ressaltar a consciência do sujeito critico e formador que o leva a uma curiosidade epistemológica dos fatos, buscando um aprofundamento etiológico histórico-social e dessa maneira intervindo em nossa realidade de maneira singular, cada ser construindo sua autoconsciência e concomitantemente nas decisões comunitárias, sendo que cada um dentro de uma comunidade possui uma singularidade, entretanto a mudança começara a surgir de forma espontânea. O embasamento deste surgimento espontâneo será através da mudança e não da adaptação, cabe a nós modificar nosso dia desde os pormenores até o momento mais critico, cabe a nós a decisão de manifestar nossa raiva diante de varias barbáries desumanizantes que ocorrem a cada dia e que no dizer cético a vida é assim mesmo, e não se tem nada a fazer. Não conseguem analisar que de maneira sistêmica o nosso agir e pensar interfere em diversas destas “vidas”, não somente humanas mais também animal e vegetal. É muito fácil dizer que alguns povos são condenados por natureza, e que nós, sujeitos ativos, não podemos fazer nada, tamponando os ouvidos de maneira banal para aqueles que gritam desesperados. A mudança ocorre desde o momento que você levanta da cama, desde o momento que você diz bom dia para o seu vizinho, fala bom dia para um estranho na rua sem causar constrangimento, o momento que você abre os abraços e sente a brisa matinal, são momentos simples como esses que fazem a diferença.

Pode-se dizer que a falta de eticidade esta pautada, sobre tudo, na educação. No dizer do majestoso Paulo Freire, deve-se através da educação promover e instaurar a “ética universal do ser humano” pondera-se que através de uma educabilidade honesta, sincera, de amor do educador com o educando e do educando com o educador pode-se haver esta restauração da ética que esta tão perdida em nosso dia-a-dia. Devemos lutar também para resguardar uma heterogenia ética cultural, valorizando nossa diversidade local histórica, manter tradições e de alguma maneira não permitir de modo pejorativo que a mundialização devaste nossa cultura ética local. Esta “mudança” de percepção se dará no momento em que re-inserirmos uma cultura endógena, cuja valorização será de âmbito local e abandonarmos essa visão farisaica de que tudo que é provindo de fora seja melhor.

O tempo de mudança é agora, não daqui a cem anos como alguns céticos chauvinistas indagam, porem a mudança deve ocorrer de forma natural, espontânea, uma busca interior pela dimensão ontológica, e dessa maneira, quiçá, tecer um mundo melhor, com mais ética, para as gerações vindouras.

Gustavo G. Sanches

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