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Archive for julho \29\UTC 2010

rio xingu

Vista do rio Xingu, que será afetado pela construção da hidrelétrica de Belo Monte (Altamiro Vilhena)

Por Juarez Brito Pezzuti*

Senhor presidente,

Também sou trabalhador como o senhor. Só que trabalho para mim e para minha família pescando nos rios da Amazônia. Tiro o peixe pra comer com farinha em casa e para vender. Pago gente pra me ajudar na roça, pra fazer minha casa de madeira boa, que dura quando a enchente é forte e alaga tudo, como o senhor já viu. Sou um autônomo, pode-se dizer, associado da Colônia, e recebo seguro-desemprego no período de defeso.

Mas o meu patrão é o rio. Estou à mercê dos caprichos dele, do seu temperamento e imprevisibilidade. E ainda, infelizmente, nós pescadores competimos entre nós, porque o recurso é finito e as bocas aumentam. As bocas das famílias dos pescadores e dos outros brasileiros.

O desmatamento do fazendeiro, a maior parte dele vindo de fora da minha região para destruir a floresta até a beira do rio para encher o bolso de dinheiro e não trazer benefício nenhum para a minha região. E tudo com subsídio do seu governo e dos governos anteriores. O senhor acha que ninguém está vendo? O Senhor mesmo disse que não precisa derrubar uma árvore, mas então por que qualquer um vem aqui com dinheiro do governo para colocar tudo no chão, as frutas dos animais e dos peixes, a mata que fixa o tal carbono?

Não sou um fóssil econômico nem entrave para o desenvolvimento. A maior parte do pescado consumido na Amazônia, e no Brasil, é produzida por pessoas como eu. Por nós, pescadores artesanais. Quase todo o pescado que abastece as cidades daqui sou eu que pesco. Por que agora me torno um empecilho?

O agrotóxico mata o peixe dos meus rios, já está comprovado, cheio de estudo aí, e por que o fazendeiro pega dinheiro do governo pra contaminar os todos rios com essa química toda? Não vai botar na balança o prejuízo para a minha família e todos os meus colegas trabalhadores do beiradão? Chame de externalidade, do que quiser, mais isso tem que ser considerado. Rios com peixes geram emprego, garantem o sustento das famílias ribeirinhas e abastecem pequenas, medias e até grandes cidades.

A barragem, seu presidente, é que é o pior mal de todos para o Rio, e isto está comprovado já tem décadas. A pesca no lago artificial não compensa os impactos negativos a montante e principalmente a jusante. Veja, Senhor Presidente, o que aconteceu com as comunidades do Baixo Tocantins.

Os estudos mais recentes comprovam isso, e que nós estamos sentindo na pele há décadas, e mostram também que escadas de peixe e outras geringonças de nada adiantam. Como pode o seu governo dizer que não vai afetar a pesca, com o que tem acontecido em todos os outros rios? O que o senhor acha que é o bagre? Um peixe meio feioso, de espinho, que a gente come na falta de peixe melhor? Tem idéia do tamanho da população ribeirinha que vive da pesca do bagre? Só no canal  principal do Amazonas somos mais de 50 mil pessoas, afora os afluentes maiores como Madeira, Purus, Japurá, Juruá e dezenas de outros menores onde a pesca do bagre é das principais fontes de renda. Agora, e quantas bocas se alimentam dos rios, acha que não dá pra contar? Dá sim, é fácil e está sendo feito por um monte de gente que tem seriedade. Tem a sociedade civil representada e o estado, com o ministério público nas diferentes esferas, as universidades e outras instituições de pesquisa. Chamando atenção, brigando mas, principalmente, contabilizando o massacre do modo de vida ribeirinho, da nossa vida, do nosso sustento e do nosso emprego.

Tem jeito não, Senhor Presidente, para todo o mal que as barragens causam a nós, tentando viver do pouco peixe que sobrou ou indo para as cidades tentar a sorte e, na maioria das vezes, levar uma vida miserável.

Vossa excelência também não assumiu compromissos com emissão de gases? Como, se praticamente todo o investimento em energia é com fábricas de metano, que é isso que as hidrelétricas são? Seu governo vai seguir ignorando o que os cientistas do mundo inteiro estão dizendo? Vai seguir apostando na falta de memória do povo brasileiro?

Presidente, o senhor ainda vai passar uma vergonha muito grande, porque em poucos anos esse mal que o seu governo está fazendo pra gente vai estar tão evidente e tão claro, que Vossa Excelência não vai ter nem sossego quando for dormir, se é que ainda se preocupa com a sorte dos seus companheiros que alimentam suas famílias com o peixe do rio, longe dos supermercados, e  que trabalham de canoa, linha e anzol, rede e arpão.

*Juarez Brito Pezzuti é biólogo, doutor em ecologia e professor da Universidade Federal do Pará.

Fonte: Envolverde.

** texto publicado neste blog por expressar de forma sucinta a forma com que o governo brasileiro vem tratando as questões socioambientais.

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