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Archive for the ‘autonomia’ Category

Armand Guillaumin

Dada a formação ética e cética que os seres humanos atingiram, poder-se-ia analisar esses dois lados através de uma conjuntura pragmática, sendo notória a diferenciação entre um e outro. Cumpre observar por um lado, de forma bem sintética, que o ser ético aprofunda sua compreensão mundana, sendo um ser que analisa a crise ecológica-social que vivenciamos como global e sistêmica, por outro lado o ser cético analisar-se-ia a descrita crise como produto de desastres naturais, se tornando gradativamente sofista dos “acidentes ecológicos”.

Depreende-se que o ser ético vai muito mais além do que um mero observador dos fatos, o ser homem e mulher, corresponde a um ser condicionado, ciente de sua intervenção como sujeito histórico-social, não somente constatando as barbáries humanitárias e observando-as longinquamente, mas sim tecendo uma realidade ética a cada instante. A falta de eticidade nos dias atuais nos leva a uma abordagem ampla e complexa, entretanto o presente texto será desenvolvido partindo do principio social-ecológico, deixando assim uma abertura para uma futura abordagem.

Diante da auto-percepção, nós seres humanos, somos seres inacabados (como espécie e ser social), construindo assim a cada dia uma nova realidade, ou seja, nós temos a percepção de que somos seres inacabados e modificamos a nossa realidade. Partindo desta premissa, cabe ressaltar a consciência do sujeito critico e formador que o leva a uma curiosidade epistemológica dos fatos, buscando um aprofundamento etiológico histórico-social e dessa maneira intervindo em nossa realidade de maneira singular, cada ser construindo sua autoconsciência e concomitantemente nas decisões comunitárias, sendo que cada um dentro de uma comunidade possui uma singularidade, entretanto a mudança começara a surgir de forma espontânea. O embasamento deste surgimento espontâneo será através da mudança e não da adaptação, cabe a nós modificar nosso dia desde os pormenores até o momento mais critico, cabe a nós a decisão de manifestar nossa raiva diante de varias barbáries desumanizantes que ocorrem a cada dia e que no dizer cético a vida é assim mesmo, e não se tem nada a fazer. Não conseguem analisar que de maneira sistêmica o nosso agir e pensar interfere em diversas destas “vidas”, não somente humanas mais também animal e vegetal. É muito fácil dizer que alguns povos são condenados por natureza, e que nós, sujeitos ativos, não podemos fazer nada, tamponando os ouvidos de maneira banal para aqueles que gritam desesperados. A mudança ocorre desde o momento que você levanta da cama, desde o momento que você diz bom dia para o seu vizinho, fala bom dia para um estranho na rua sem causar constrangimento, o momento que você abre os abraços e sente a brisa matinal, são momentos simples como esses que fazem a diferença.

Pode-se dizer que a falta de eticidade esta pautada, sobre tudo, na educação. No dizer do majestoso Paulo Freire, deve-se através da educação promover e instaurar a “ética universal do ser humano” pondera-se que através de uma educabilidade honesta, sincera, de amor do educador com o educando e do educando com o educador pode-se haver esta restauração da ética que esta tão perdida em nosso dia-a-dia. Devemos lutar também para resguardar uma heterogenia ética cultural, valorizando nossa diversidade local histórica, manter tradições e de alguma maneira não permitir de modo pejorativo que a mundialização devaste nossa cultura ética local. Esta “mudança” de percepção se dará no momento em que re-inserirmos uma cultura endógena, cuja valorização será de âmbito local e abandonarmos essa visão farisaica de que tudo que é provindo de fora seja melhor.

O tempo de mudança é agora, não daqui a cem anos como alguns céticos chauvinistas indagam, porem a mudança deve ocorrer de forma natural, espontânea, uma busca interior pela dimensão ontológica, e dessa maneira, quiçá, tecer um mundo melhor, com mais ética, para as gerações vindouras.

Gustavo G. Sanches

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Tarsila do Amaral - Antropofagia (1929)

Nós seres humanos, bem como todas as outras espécies existentes, somos organismos dependentes de energia externa, e essa energia só se disponibiliza devido a intrincadas relações existentes entre outras espécies. Para ter isso claro, até mesmo a síntese da energia solar pelas plantas só é possível devido à interferência das bactérias há bilhões de anos atrás, quando somente elas existiam, que foram responsáveis pela alteração da composição química da atmosfera, fato que regulou a temperatura do planeta e possibilitou a emergência de novas formas de vida. Como se depreende, somos todos seres interdependentes. Mas esse fato não é algo pejorativo, do contrário, isso é a cooperação que assegura a vida. Por outro lado, tem-se que nossa espécie está a cada dia se tornando dependente de coisas criadas por nós mesmos; sistemas econômicos, TV, automóveis, medicina e até mesmo escolas são algumas dessas coisas que tiram a autonomia do ser humano.

A autonomia é a capacidade de tomar suas próprias decisões, uma peculiaridade que nós humanos temos por possuirmos a razão. Seria também uma variante de uma condição que se vê muito requisitada por povos ou nações colonizados, a liberdade, mas a autonomia é muito mais do que se libertar das amarras de um colono. Importante se faz realçar nessa linha de análise nosso caminho percorrido, a saga de cidadão “livre” começa cedo, como crianças ainda temos a ânsia e a grande energia de desvendar o mundo; nessa época somos levados a uma instituição que nos dará disciplina e regras, que nos guardará dentro de um espaço fechado que irá contrariar toda nossa espontaneidade. A escola dá a criança o quadro negro enquanto ela quer e precisa pisar na terra, subir na árvore e atravessar montanhas.

Como se percebe, a autonomia do indivíduo já é afetada desde pequeno. Tenha-se presente que alguns pensadores já lutaram e se posicionaram contra os métodos de ensino. Francisco Ferrer instituiu conceitos de pedagogia libertária, contrariando concepções de sua época criou sua Escola Moderna, mas foi executado pelo governo espanhol em 1909. Tivemos no Brasil um grande intelectual atuante em educação, Paulo Freire embora não fosse contrário as escolas, criticava, como ele mesmo dizia, a pedagogia bancária, sendo aquela que evidencia a diferença entre educador e educando, este sendo um mero depositário dos conhecimento do educador, sem poder haver discussão. Mas sem dúvida o grande crítico de instituições que atacam a autonomia humana foi Ivan Illich, este austríaco de currículo admirável teve na década de 1970 a publicação de obras pertinentes no que confere a temas da modernidade. Destaca-se: Sociedade sem Escolas (1971), Energia e Equidade (1974) e Nêmesis da Medicina (1975). Nestas três obras ele reuniu críticas às principais formas de expropriação da autonomia do ser humano. Ao abordar a educação, atacava a instituição escola, e defendia a educação informal como instrumento para o indivíduo exercer sua autonomia. Apontava o excessivo uso de energia como avassalador da liberdade do indivíduo, e nessa esteira elaborou o conceito de contra-produtividade, que é visível a nós diante dos transportes cada vez mais rápidos que em vez de soluções trazem mais problemas, percebemos isso nos engarrafamentos e acidentes. No caso da medicina ele aponta principalmente para a perda de conhecimentos tradicionais dos povos, que agora são extremamente dependentes de profissionais que se dizem conhecedores da saúde, além de que os sistemas médicos são extremamente dependentes de soluções criadas por grandes corporações farmacêuticas.

Após essas breves assertivas sobre a autonomia não é difícil imaginar como nossas decisões estão ficando cada vez mais distantes de nós. Convém assinalar que nossa espécie está se contentando apenas em decidir entre uma marca e outra dentro de um supermercado, ou então ter o controle dos canais de TV a assistir. Vale dizer também que os hábitos de lazer estão sendo direcionados aos centros de compra, situação acarretada pelo fato de nos sentirmos inseguros ou desmotivados em visitar um local natural ou alguma amenidade oferecida pelo poder público. É de ressaltar também que as ações do poder público estão menos voltadas ao cidadão do que ao setor privado, vê-se empenho na assistência à shoppings e não a praças e parques, corte de IPI e poucos investimentos em transporte público. Cumpre observar que estamos nos esbaldando da pseudo-autotomia, gerada através de um falso processo desenvolvimento econômico que além de gerar exclusão, cria uma ilusão de liberdade àqueles que estão inseridos no sistema produtivo.

Quiçá um dia possamos realmente nos desenvolver, não apenas na razão-técnica como temos hoje, mas sim de modo sistêmico, fluindo harmoniosamente o racional, emocional e espiritual. Assim então poderíamos escapar das paredes e valorizar a grande obra do Inefável, que nas coisas simples, as quais hoje desviamos o olhar, apresenta relações portentosas. Porém, vale dizer que para descobrir essas grandezas é preciso a liberdade para dialogar com a natureza. Essa habilidade que sempre foi cultivada sabiamente pelos autóctones, os povos nativos, que após noite de céu estrelado acordam com o sibilo dos pássaros e acompanham o despertar dos matizes reluzentes do nosso irmão sol. Infelizmente, nós, enquanto urbanos pós-modernos passamos a noite sob iluminação dissipativa e ineficiente que ofusca nossa visão para os corpos celestes, e nos faz enclausurarmos para na manha seguinte acordarmos com o eco dos pistões automotivos ou o atrito pneumático com o asfalto.

Gustavo Góes

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Salvador Dali - Árvore Livro

Muito se fala da era em que vivemos como a da sociedade da informação, momento que acompanhamos com grande alarde o lançamento de novos aparelhos tecnológicos com o slogan implícito de que irão “melhorar” nossas vidas. Contribuiu para se chegar nesse ponto o surgimento da TV, que comumente é chamada de meio de comunicação, mas não o é, pois não estabelece a troca de informações, mas apenas a emissão e transmissão da informação. Por outro enfoque, esse meio de informação avassala a capacidade crítica de quem o utiliza, pois o telespectador se torna apenas um sorvedor de mensagens, perdendo sua autonomia e se permitindo a passividade.

Tendo como exemplo o Brasil, suas políticas de concessão para os meios de informação permitiram à apenas poucos grupos privados a transmissão pela TV. Estes grupos se estabeleceram através da cooperação com o mercado e são hoje responsáveis pela tirania particular, termo que, conforme o célebre linguista Noam Chomsky, explica o domínio e influência da informação na posse de grupos elitizados, leiam-se grandes emissoras e grandes empresas.

É importante assinalar que os telespectadores dos canais abertos são os mais prejudicados, devido à baixa qualidade da programação, no entanto, não nos enganemos de que um pacote de TV paga vai nos libertar. A diferença é que em vez de se achar um participante na vida política ao ver o sisudo apresentador do telejornal divagar sobre acontecimentos políticos; se estará achando naturista ao ver o National Geografic ou um esportista ao ver a ESPN. Em todos os casos se será um mero espectador passivo, sujeito aos fantoches dentro daquela caixa preta que lhe fornece realidades distantes e não-dialogáveis.

Em virtude dessas considerações, retomo a diferença entre comunicação e informação. Esta última pode nos ser útil de muitas formas, mas saibamos filtrá-las para que não nos tornemos míopes em relação ao que realmente nos importa. O mundo que vivemos é criado através da linguagem, à medida que tecemos uma teia lingüística, nós coordenamos nossos comportamentos e juntos criamos nosso mundo, sendo este, um mundo de cooperação em suas formas mais simples (diálogo entre os familiares) até as mais complexas (participação democrática; trocas de energias e de recursos num ecossistema). Com a sublime emancipação da TV, estamos nos tornando seres individualistas, criando mundos individuais, se afastando cada vez mais de nossa essência como ser humano, que é a cooperação linguística, a interação entre os indivíduos; e também na relação com a natureza, que se esforça ao diálogo que na maioria das vezes não estamos dispostos.

A distância da TV* nos dará oportunidade para pensar, assim encontraremos a humanidade presente em cada um de nós, e que acionará as virtudes para a construção do bem-viver.

Gustavo Góes

*A música Teatro dos Vampiros (TV) da Legião Urbana teve sua letra escrita por Renato Russo possivelmente em alusão a TV, relacionando-a aos problemas da época.

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