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Archive for the ‘sociedade’ Category

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Foto: Roberto Custódio/Arquivo Jornal de Londrina

 

Até agora, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) não explicou para a comunidade científica do Paraná e à população de Londrina o motivo pelo qual diminuiu quase 30% da zona de amortecimento que protege o Parque Estadual da Mata dos Godoy (PEMG). O PEMG é a maior floresta nativa de Mata Atlântica existente por aqui e a mais biodiversa do Norte do Paraná. Por abrigar de onças a antas, de perobas a palmitos, é área federal prioritária para a conservação.

A zona de amortecimento (ZA) é um buffer – previsto em lei federal – que serve para diminuir impactos perto de Unidades de Conservação (UC). A existência da ZA serve para prevenir, por exemplo, que uma indústria poluente se instale ao lado de uma mata, o que significaria a morte do ecossistema, ainda se a floresta restasse em pé. Em três meses, sem consultar a comunidade científica paranaense dedicada à Mata dos Godoy (e que trabalha no assunto desde antes mesmo de tornar-se parque), o IAP revisou a zona de amortecimento – para menos. Na surdina, o IAP decidiu que era melhor que o buffer da Mata dos Godoy ficasse quase um terço menor.

Sem ouvir nem mesmo o Conselho do Parque, o órgão produziu e aprovou um documento de 13 páginas com um suposto embasamento técnico. Nele, o IAP afirma claramente que a medida foi motivada por pressões imobiliárias e ruralistas de Londrina. Frágil, o relatório do IAP comete impropriedades e exclui da ZA até mesmo um conjunto de nascentes do Ribeirão Apertados, que corta a Mata dos Godoy. Ninguém entendeu. O documento não explica.

A zona de amortecimento de um parque é sempre rural. Fazendas, pasto, restaurantes rurais, chácaras de lazer, hortas, pesque-pague – tudo que “combina” com a existência da floresta é permitido nela. Medida de inteligência que serve como escudo para fragmentos de Mata Atlântica como o PEMG. Além da própria Mata dos Godoy, a ZA, reduzida, envolve 62 pequenas e médias florestas conectadas em um ecossistema entre Londrina, Arapongas e Apucarana. É nosso maior ativo ambiental, inexistente em outras cidades brasileiras que optaram pelo concreto total.

Resta tão pouco de Mata Atlântica no Norte do Paraná – só 8% da original – que a única medida viável para alterar a zona de amortecimento, neste contexto, seria aumentar cuidados ambientais com a região da nossa floresta. Não é possível instalar parte da cidade em uma ZA; muito menos destiná-la a indústrias de alto risco, como deseja a prefeitura de Londrina, agora com a concordância do governo do Paraná.

Por princípio do Direito Ambiental, é incabível retroceder proteções. Antes de rediscutirmos qualquer proteção, há uma lição de casa pendente para a industrialização de Londrina. Por zelo pelo espaço urbano, Londrina ainda precisa reformular e encher as áreas industriais onde já existe infraestrutura precária, lotes abandonados e poucas ou nenhuma empresa, denúncia já feita pela própria Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil).

Proteger menos é não apenas ilegal como surpreendente. Uma ação de Estado curiosa, desencadeada pelo próprio órgão ambiental, como se tomado por amnésia da sua única razão de existir.

Estamos a postos com o que temos: a ciência, seriedade técnica, as leis ambientais do nosso país. Os responsáveis pela redução da proteção à mata – gestores do IAP em Londrina e Curitiba e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente – ainda devem explicações. Sempre é tempo de recuar de um erro. Quem comanda e trabalha no órgão precisa erguer-se do que é mais rasteiro e olhar-nos como sociedade, ao nível dos nossos olhos, para discutirmos a real importância da Mata dos Godoy para Londrina e o Norte do Paraná.

Inaceitável reduzir um ecossistema de tal importância a uma decisão movida pelo imediatismo, pela pressão econômica banal e falta de legitimidade. Não coloquem a história do IAP no mais pantanoso descrédito.

Gustavo Góes é gestor ambiental da ONG MAE. Alba Cavalheiro é bióloga na UEL. Marcelo Frazão é jornalista da ONG MAE.
*Artigo publicado originalmente na coluna opinião do jornal Gazeta do Povo em 22/10/2016.

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Mata Atlântica (2010) -  Márcia Valle

Mata Atlântica (2010) – Márcia Valle

O Dia da Árvore (21 de setembro) marca todos os anos a chegada da primavera no Brasil e é uma bela homenagem às representantes da nossa natureza. Mas as árvores não devem ser vistas como organismos estáticos, festejadas apenas pela beleza estética. Mais que isso, são a sustentação do ambiente de Mata Atlântica, onde vivemos.

Uma das florestas tropicais mais ameaçadas do planeta, a Mata Atlântica está presente em 17 estados brasileiros. No campo e nas cidades, a Mata Atlântica é moradia de mais de 60% da população brasileira. Ela não abrange apenas nossos litorais: no Paraná, por exemplo, está presente em 98% da área do estado, inclusive na região de Londrina.

As árvores da Mata Atlântica, somadas às outras espécies vegetais, passam de 20 mil espécies. Junto de nós, humanos, habitam por aqui 270 outras espécies de mamíferos, além de 992 espécies de aves, 197 de répteis, 372 tipos de anfíbios e 350 variedades de peixes. Convém ponderar que toda essa biodiversidade é refletida em inúmeros benefícios como controle do clima, fornecimento de água, alimentos e plantas medicinais. Gera renda, lazer, ecoturismo e qualidade de vida.

Pero Vaz de Caminha, ao se deparar com imensa e rica floresta em 1500, retratou em carta ao Rei D. Manoel que era “a terra em si de mui bons ares”. No entanto, o que se sucedeu após a chegada do homem branco foram os ciclos econômicos do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do café e do ouro, que avassalaram a Mata Atlântica. Em nossa região, a sobre-exploração de árvores como a peroba-rosa e a araucária as colocaram em risco de extinção.

Se por um lado o uso e ocupação do solo na Mata Atlântica proporcionaram crescimento econômico do Brasil, por outro resultaram na devastação desse ambiente – hoje, restam apenas 8,5% do que havia originalmente em remanescentes florestais, se considerados os com mais de 100 hectares.

O isolamento dos poucos fragmentos de florestas existentes é uma das principais causas para extinção de espécies e a perda de qualidade ambiental. Dados do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção apontam que 383 espécies de animais ameaçados se encontram na Mata Atlântica – um sinal vermelho já aceso.

De forma vazia, discute-se se o ser humano deve ou não ser considerado como a espécie mais importante da natureza. Talvez a defesa dessa presunção antropocêntrica leve em consideração a capacidade de reconhecermos as belezas naturais e até de colocarmos um dia especial para as árvores no calendário. O ideal, no entanto, seria admitir que a importância humana deve-se ao fato de termos conseguido destruir grande parte da Mata Atlântica, antes íntegra. E que aceitar tal realidade nos daria a responsabilidade de conservar tudo aquilo que resta com afinco e tentar restaurar o que já perdemos.

Gustavo Góes

Artigo publicado originalmente na coluna Ponto de Vista do Jornal de Londrina de 22 de setembro de 2013.

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Artigo publicado originalmente na coluna Espaço Aberto do jornal Folha de Londrina em 22/03/2013.

Em todo o mundo se comemora hoje o Dia da Água. No Brasil, sempre citado como o detentor de um dos maiores estoques de água doce do planeta, o que se vê é a poluição e o desperdício como regra. Quais são, então, as questões para se tratar nesta data?

O cenário não é pacífico. Dados das Nações Unidas indicam que 80% dos habitantes do planeta habitam regiões com altos níveis de ameaça à segurança da água. Para piorar, saneamento básico é artigo de luxo para cerca de 2,5 bilhões de pessoas. Outros 783 milhões não tem acesso à água potável. O resultado é a morte de 1,5 milhão de crianças ano a ano afetadas por doenças diarreicas, com um assustador saldo de 5 mil mortes por dia.

Infelizmente, o Brasil não fica distante. O IBGE aponta que perto de 40% dos domicílios brasileiros não estão providos da rede coletora de esgotamento sanitário. E por mais bizarro que se possa parecer, grande parte do esgoto coletado não recebe tratamento adequado: diariamente, 15 bilhões de litros de esgoto são lançados direto da latrina aos corpos hídricos país afora.

Se por um lado, o país do futebol injeta bilhões para a Copa do Mundo da Fifa, por outro, amarga 2,5 mil crianças mortas anualmente por doenças de veiculação hídrica.

Vale ressaltar que investimentos em saneamento salvariam muitas vidas ou mesmo esvaziariam os leitos de hospitais, já que nos países em desenvolvimento – inclua-se o Brasil – 80% das doenças são causadas por problemas relacionados à água.

A água também pune. A estupidez humana da tentativa de subjugar a natureza, devastando sistemas ecológicos ou mesmo a ocupação de áreas de preservação permanentes, aliada aos efeitos das mudanças climáticas, tendem a tornar comuns os fenômenos climáticos extremos, como enchentes e secas, com desastres aterrorizantes, a exemplo dos já vistos por aqui.

Com toda essa conjuntura, e após a Assembleia Geral da ONU reconhecer a água e o saneamento como direitos humanos, 2013 foi declarado o ano internacional pela cooperação da água.

Os desafios são grandes para manter a “castidade da água”, conforme apontou Francisco de Assis, ou para manter a sustentabilidade dela, de acordo com o conceito pós-moderno. O certo é que tal recurso natural, elementar para a manutenção da vida, também deve sustentar o desenvolvimento socioeconômico.

A despeito do panorama exposto, e muito além das ações de empresas de saneamento, ações de conservação da água estão se tornando práticas comuns no cotidiano.

Nas áreas urbanas, o cidadão já começa a associar que o desperdício na torneira pode afetar a vazão dos rios captados. Está ciente de que lavar calçada é um disparate, e de que o lixo da sarjeta, se não entupir o bueiro e alagar a rua na próxima chuva, vai poluir o lago tempos atrás abundante em peixes.

O homem do campo sabe que a riqueza e a abundância da água só continuam se mantida a cobertura florestal, a proteção das nascentes, das beiras de rios e áreas de recargas de aquíferos. A recuperação dessas áreas já é fato nas pequenas propriedades, inclusive aqui, com o projeto Londrina Verde.

Apoiado pelo poder público e terceiro setor, ou mesmo de forma voluntária, o agricultor tem se esforçado para corrigir erros de toda a sociedade, restabelecendo os serviços ambientais.

O setor industrial começa a implementar técnicas para otimização da água virtual – aquela não vista mas utilizada na geração de bens e serviços. O sempre crescente consumo pressiona os estoques de água, que diferentemente do aumento da população mundial, continua o mesmo.

Crescer em consciência no uso e no cuidado da água, recurso que ainda é abundante no Brasil, é o preceito que deve nortear a presente geração.

GUSTAVO GÓES é gestor ambiental da ONG Meio Ambiente Equilibrado (MAE) em Londrina

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Entrada para floresta

Entrada para Floresta (1942) – Cândido Portinari

 

ESPAÇO ABERTO – Folha de Londrina (10/08/2012)*

A proposta de construção de um complexo logístico sobre uma região de grande importância ambiental nem saiu do papel e já gera polêmicas na sociedade norte-paranaense. Seria mesmo aceitável, nos dias de hoje, a definição do local para um empreendimento sem antes mesmo estudar sua viabilidade? Como ficaria a comunidade local, a biodiversidade e todo o ambiente se esse projeto fosse viabilizado na área proposta?

Geralmente, empreendedores desavisados não se preocupam com todas essas questões. Por outro lado, após tantos desastres ambientais passados, a sociedade criou mecanismos para manter um maior equilíbrio entre as forças econômicas e as questões socioambientais. Atualmente, existem legislações pertinentes que orientam as atividades humanas a não repetir erros do passado. Nessa esteira, surgiu um novo campo de estudo: a Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), que agrega profissionais de várias áreas com o objetivo da viabilidade de projetos ambientalmente menos agressivos.

Com o vislumbre de um licenciamento ambiental para o projeto Arco Norte, cumpre examinarmos a Resolução Conama 1/86 que, no artigo 5º, destaca que um Estudo de Impacto Ambiental (instrumento necessário para empreendimentos de tal porte) deve ”contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização de projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do projeto”. Como se observa, a ideia do Arco Norte nasce errada. E para não ficarmos na dicotomia do ”faz ou não faz” a obra, antes de tudo deve-se conceber alternativas locacionais. Afinal, se o objetivo é o desenvolvimento regional, não devem faltar em todo o Norte do Paraná áreas sem parques e mananciais de abastecimento por perto, características da Zona Sul de Londrina.

A área apontada para o Arco Norte é rica em serviços ambientais para nossa região. Além de celeiro de alimentos, lá existem não só bacias hidrográficas responsáveis por abastecimento público de água regional como também fragmentos de floresta bem conservados que abrigam várias espécies em extinção. Toda essa rede de serviços ambientais tem como núcleo o Parque Estadual Mata dos Godoy, uma das unidades de conservação mais estudadas em todo o Paraná – e também um dos últimos remanescentes que preserva a rica floresta encontrada pelos pioneiros.

Vale dizer que aumentar a área do parque, como aventam os proponentes do Arco Norte, é uma ação importante. Entretanto, trata-se de uma realização que já deveria estar em curso pela própria importância do local, independente do Arco Norte, haja vista que o entorno do parque em 2007 já foi declarado, pelo Ministério do Meio Ambiente, como uma área de ”muito alta” prioridade para conservação.

Concordo com a preocupação da Associação Comercial e Industrial de Londrina, da Sociedade Rural do Paraná e do governo do Paraná com Londrina e o desejado desenvolvimento da região do Arco Norte. Há anos nosso pedaço de Paraná aqui no Norte carece de desenvolvimento substancial e, de fato, merece todo o investimento possível. Mas no lugar de aeroporto e complexo logístico, que se dê aporte a atividades de baixo impacto ambiental na região rural Sul de Londrina. Que se invista em outras atividades, como turismo rural e ecoturismo, bem como produção sustentável de alimentos e água. Não há radicalismo nenhum em planejar tal vocação para o local – e é justamente o amplo conhecimento técnico já disponível e produzido sobre a área que permite, sem medo, essas afirmações. Arco Norte sim e sempre! Mas ali, não!

GUSTAVO GÓES é gestor ambiental em Londrina

 

Artigo publicado originalmente na Coluna Espaço Aberto do Jornal Folha de Londrina.
(trata do discutido projeto de desenvolvimento para a cidade de Londrina, e o seu local precipitadamente apontado)

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exploração de recursos

A Fábrica (2009) – Will Ferreira

Após sediar a Rio+20, o Brasil não tem muito a comemorar no que tange a questão ambiental. Questões muito polêmicas junto à sociedade, como a alteração do Código Florestal e a construção de Belo Monte, permearam e antecederam por aqui o debate da conferência da ONU. Mas não é só isso, a pressão de grandes obras públicas pressiona órgãos ambientais para aprovação de licenças, havendo até diminuição de áreas protegidas. Fatos estes que apontam para a fragilidade que a temática ambiental vem sofrendo em nível nacional.

Nessa linha de análise, em recentemente levantamento1 foi apurado que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem 27% do seu orçamento alocado no que é conhecido como reserva de contingência,  uma estratagema da União para se obter superávit primário2, ou seja, estão ali para fazer volume.  Dos R$4,1 bi previstos para 2012, R$1,1 bi está contingenciado, e tal restrição já acontece no MMA desde 2006. As restrição orçamentária, pode ter atingido três programas importantes do MMA, que estão quase paralisados. São os programas Mudanças Climáticas, Biodiversidade, além do Programa de Conservação e Gestão de Recursos Hídricos.

Enquanto a arrecadação federal bateu recorde no ano passado3, tendo aumento de 10%, a receita do MMA cresceu apenas de R$4 para R$4,1 bi. E quando verificado a representatividade do orçamento da pasta, teve-se em 2011 que 0,15% do Orçamento Geral da União foi destinado ao MMA.

De igual forma, as áreas protegidas também são alvo do modelo de desenvolvimento adotado. A despeito da criação, em 2007, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Natureza (ICMBio) e seus avanços na gestão dessas áreas, foi aprovada em maio na Câmara, e segue ao Senado, a Medida Provisória que altera os limites de sete Unidades de Conservação (UC) federais4. Milhares de hectares serão excluídos a fim de facilitar a construção de várias usinas hidrelétricas (UHE), todas no bioma amazônico.

Como se observa, toda controvérsia gerada por Belo Monte, projeto antiquado da época da ditadura, não incomoda os tomadores de decisão lá de cima. Mais e mais, o que parece importar é gerar energia5 a base dos rios amazônicos que antes eram “imaculados”. É importante destacar a pífia valoração do patrimônio socioambiental quando se trata de obras de interesse público, constata-se que os danos aos povos tradicionais e aos bens naturais são subjugados para a viabilização de grandes obras.

Paradoxalmente ao discurso na Rio+20, as ações do governo federal para com o Meio Ambiente são dignas de atenção da sociedade brasileira. Paralelo à conferência da ONU, a sociedade civil apresentou avanços em iniciativas locais, fato que motiva a possibilidade de melhorias surgindo de baixo para cima. Por outro lado, é imprescindível a responsabilidade do setor público na execução de sua política ambiental.

Gustavo Góes

1 http://www.contasabertas.com.br/WebSite/Noticias/DetalheNoticias.aspx?Id=933

2 Saldo positivo, quando, ao final de um período, verifica-se que os gastos do governo foram menores do que a receita.

3 http://www.brasileconomico.ig.com.br/noticias/arrecadacao-federal-deve-continuar-alta-em-2012_112380.html

4 http://www.ecodesenvolvimento.org.br/posts/2012/maio/aprovada-na-camara-a-reducao-de-sete-unidades-de

5 Vale lembrar que nesse blog já foi falado sobre o mito da energia limpa gerada em UHE de ambientes tropicais, confira: https://penseverde.wordpress.com/2009/06/11/energia-eletrica-em-expansao/

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Albert Hoffman's Bicycle Day - Sidronio Teichmann

Cidades cheias, de carros, de estresse, de monóxido de carbono, de “acidentes” e mortes no trânsito. E a solução por aqui sempre é a construção de mais vias, menos calçadas, mais estacionamentos. Não, basta! Será que não evoluímos ainda ao ponto de buscar alternativas? As cidades precisam ter sua mobilidade projetada para as pessoas, e quando se coloca tal prioridade, a exclusividade que os carros têm atualmente vai por água abaixo. Temos então o clamor, mais do que nunca, por transporte público de qualidade. Não só isso, a diversificação de modais torna-se elementar, daí um meio de transporte ganha força, crescente em uso e com inúmeros pontos fortes, a bicicleta.

bike power

Bike Power - Valdinei Calvento

Bikes, magrelas, camelos, enfim, bicicletas. Seja qual for sua chamada, elas não são apenas brinquedos. A ida à padaria, à escola, ao clube, ao banco, ao trabalho; são deslocamentos, quando de curta distância, que podem muito bem serem percorridos pedalando. Diferente do carro, que em sua maioria ocupa alguns metros quadrados para carregar apenas uma pessoa, que custa caro, que poluí; a bike é leve, limpa, barata, além de atividade física. A bike aproxima as pessoas e as coloca em contato direto com seu meio. O ciclista sente o vento no rosto, constata de perto os problemas e qualidades da sua cidade. Ele não tem barreiras entre si e seu ambiente, sente de perto o calor, o cheiro e o barulho de uma rua central, mas também sente o frescor e o silêncio de uma rua à margem de um vale. Não é exagero dizer que quem pedala se torna mais politizado.

Aspectos carro X bike

Quando analisamos os aspectos ambientais das bicicletas, no seu uso não há combustível, a não ser nossas próprias energias, ou seja, xô sedentarismo. Também são ausentes os gases poluentes, além do  ‘vruuumm vruuuuumm’, tão disseminado pelos escapamentos endiabrados. Já na produção das bicicletas, o uso dos recursos naturais é bem inferior ao da produção de um automóvel. Outro fator importante é o custo, que é acessível a grande parte da população.

Sabemos que nem tudo são mil maravilhas, o ciclista na maioria das vezes é visto como um fracassado,  alijado do poder de estar ao volante de um carro. Tantas outras vezes é um fardo para o motorista que acha que é dono da rua. É claro que as condições para se pedalar nas cidades ainda precisam melhorar muito, mas o crescente uso desse modal está fazendo naturalmente com que aos poucos a cidadania exista no trânsito. Aliás, ao ciclista cabe o cumprimento dos seus deveres, além de ter conhecimento do bem que faz ao trânsito, fazendo assim como um portador de direitos, pois é cidadão, contribuinte e também consumidor.

benefícios das bikes

Benefícios das bikes - autor desconhecido

Claro que todas as qualidades expostas aqui não são para revolucionar a mobilidade urbana, levando todos ao uso da bicicleta. O que se almeja é o compartilhamento dos modais, cada um na sua especificidade. Estamos em ano de eleições municipais e a mobilidade urbana deverá pautar a campanha dos candidatos, vamos lembrar que a questão não é a mera construção de vias e sim o bem-estar dos cidadãos, afinal, as cidades são das pessoas.

Gustavo Góes

meditação e bike

Aceito e agradeço - Valdinei Calvento

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rio xingu

Vista do rio Xingu, que será afetado pela construção da hidrelétrica de Belo Monte (Altamiro Vilhena)

Por Juarez Brito Pezzuti*

Senhor presidente,

Também sou trabalhador como o senhor. Só que trabalho para mim e para minha família pescando nos rios da Amazônia. Tiro o peixe pra comer com farinha em casa e para vender. Pago gente pra me ajudar na roça, pra fazer minha casa de madeira boa, que dura quando a enchente é forte e alaga tudo, como o senhor já viu. Sou um autônomo, pode-se dizer, associado da Colônia, e recebo seguro-desemprego no período de defeso.

Mas o meu patrão é o rio. Estou à mercê dos caprichos dele, do seu temperamento e imprevisibilidade. E ainda, infelizmente, nós pescadores competimos entre nós, porque o recurso é finito e as bocas aumentam. As bocas das famílias dos pescadores e dos outros brasileiros.

O desmatamento do fazendeiro, a maior parte dele vindo de fora da minha região para destruir a floresta até a beira do rio para encher o bolso de dinheiro e não trazer benefício nenhum para a minha região. E tudo com subsídio do seu governo e dos governos anteriores. O senhor acha que ninguém está vendo? O Senhor mesmo disse que não precisa derrubar uma árvore, mas então por que qualquer um vem aqui com dinheiro do governo para colocar tudo no chão, as frutas dos animais e dos peixes, a mata que fixa o tal carbono?

Não sou um fóssil econômico nem entrave para o desenvolvimento. A maior parte do pescado consumido na Amazônia, e no Brasil, é produzida por pessoas como eu. Por nós, pescadores artesanais. Quase todo o pescado que abastece as cidades daqui sou eu que pesco. Por que agora me torno um empecilho?

O agrotóxico mata o peixe dos meus rios, já está comprovado, cheio de estudo aí, e por que o fazendeiro pega dinheiro do governo pra contaminar os todos rios com essa química toda? Não vai botar na balança o prejuízo para a minha família e todos os meus colegas trabalhadores do beiradão? Chame de externalidade, do que quiser, mais isso tem que ser considerado. Rios com peixes geram emprego, garantem o sustento das famílias ribeirinhas e abastecem pequenas, medias e até grandes cidades.

A barragem, seu presidente, é que é o pior mal de todos para o Rio, e isto está comprovado já tem décadas. A pesca no lago artificial não compensa os impactos negativos a montante e principalmente a jusante. Veja, Senhor Presidente, o que aconteceu com as comunidades do Baixo Tocantins.

Os estudos mais recentes comprovam isso, e que nós estamos sentindo na pele há décadas, e mostram também que escadas de peixe e outras geringonças de nada adiantam. Como pode o seu governo dizer que não vai afetar a pesca, com o que tem acontecido em todos os outros rios? O que o senhor acha que é o bagre? Um peixe meio feioso, de espinho, que a gente come na falta de peixe melhor? Tem idéia do tamanho da população ribeirinha que vive da pesca do bagre? Só no canal  principal do Amazonas somos mais de 50 mil pessoas, afora os afluentes maiores como Madeira, Purus, Japurá, Juruá e dezenas de outros menores onde a pesca do bagre é das principais fontes de renda. Agora, e quantas bocas se alimentam dos rios, acha que não dá pra contar? Dá sim, é fácil e está sendo feito por um monte de gente que tem seriedade. Tem a sociedade civil representada e o estado, com o ministério público nas diferentes esferas, as universidades e outras instituições de pesquisa. Chamando atenção, brigando mas, principalmente, contabilizando o massacre do modo de vida ribeirinho, da nossa vida, do nosso sustento e do nosso emprego.

Tem jeito não, Senhor Presidente, para todo o mal que as barragens causam a nós, tentando viver do pouco peixe que sobrou ou indo para as cidades tentar a sorte e, na maioria das vezes, levar uma vida miserável.

Vossa excelência também não assumiu compromissos com emissão de gases? Como, se praticamente todo o investimento em energia é com fábricas de metano, que é isso que as hidrelétricas são? Seu governo vai seguir ignorando o que os cientistas do mundo inteiro estão dizendo? Vai seguir apostando na falta de memória do povo brasileiro?

Presidente, o senhor ainda vai passar uma vergonha muito grande, porque em poucos anos esse mal que o seu governo está fazendo pra gente vai estar tão evidente e tão claro, que Vossa Excelência não vai ter nem sossego quando for dormir, se é que ainda se preocupa com a sorte dos seus companheiros que alimentam suas famílias com o peixe do rio, longe dos supermercados, e  que trabalham de canoa, linha e anzol, rede e arpão.

*Juarez Brito Pezzuti é biólogo, doutor em ecologia e professor da Universidade Federal do Pará.

Fonte: Envolverde.

** texto publicado neste blog por expressar de forma sucinta a forma com que o governo brasileiro vem tratando as questões socioambientais.

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