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Albert Hoffman's Bicycle Day - Sidronio Teichmann

Cidades cheias, de carros, de estresse, de monóxido de carbono, de “acidentes” e mortes no trânsito. E a solução por aqui sempre é a construção de mais vias, menos calçadas, mais estacionamentos. Não, basta! Será que não evoluímos ainda ao ponto de buscar alternativas? As cidades precisam ter sua mobilidade projetada para as pessoas, e quando se coloca tal prioridade, a exclusividade que os carros têm atualmente vai por água abaixo. Temos então o clamor, mais do que nunca, por transporte público de qualidade. Não só isso, a diversificação de modais torna-se elementar, daí um meio de transporte ganha força, crescente em uso e com inúmeros pontos fortes, a bicicleta.

bike power

Bike Power - Valdinei Calvento

Bikes, magrelas, camelos, enfim, bicicletas. Seja qual for sua chamada, elas não são apenas brinquedos. A ida à padaria, à escola, ao clube, ao banco, ao trabalho; são deslocamentos, quando de curta distância, que podem muito bem serem percorridos pedalando. Diferente do carro, que em sua maioria ocupa alguns metros quadrados para carregar apenas uma pessoa, que custa caro, que poluí; a bike é leve, limpa, barata, além de atividade física. A bike aproxima as pessoas e as coloca em contato direto com seu meio. O ciclista sente o vento no rosto, constata de perto os problemas e qualidades da sua cidade. Ele não tem barreiras entre si e seu ambiente, sente de perto o calor, o cheiro e o barulho de uma rua central, mas também sente o frescor e o silêncio de uma rua à margem de um vale. Não é exagero dizer que quem pedala se torna mais politizado.

Aspectos carro X bike

Quando analisamos os aspectos ambientais das bicicletas, no seu uso não há combustível, a não ser nossas próprias energias, ou seja, xô sedentarismo. Também são ausentes os gases poluentes, além do  ‘vruuumm vruuuuumm’, tão disseminado pelos escapamentos endiabrados. Já na produção das bicicletas, o uso dos recursos naturais é bem inferior ao da produção de um automóvel. Outro fator importante é o custo, que é acessível a grande parte da população.

Sabemos que nem tudo são mil maravilhas, o ciclista na maioria das vezes é visto como um fracassado,  alijado do poder de estar ao volante de um carro. Tantas outras vezes é um fardo para o motorista que acha que é dono da rua. É claro que as condições para se pedalar nas cidades ainda precisam melhorar muito, mas o crescente uso desse modal está fazendo naturalmente com que aos poucos a cidadania exista no trânsito. Aliás, ao ciclista cabe o cumprimento dos seus deveres, além de ter conhecimento do bem que faz ao trânsito, fazendo assim como um portador de direitos, pois é cidadão, contribuinte e também consumidor.

benefícios das bikes

Benefícios das bikes - autor desconhecido

Claro que todas as qualidades expostas aqui não são para revolucionar a mobilidade urbana, levando todos ao uso da bicicleta. O que se almeja é o compartilhamento dos modais, cada um na sua especificidade. Estamos em ano de eleições municipais e a mobilidade urbana deverá pautar a campanha dos candidatos, vamos lembrar que a questão não é a mera construção de vias e sim o bem-estar dos cidadãos, afinal, as cidades são das pessoas.

Gustavo Góes

meditação e bike

Aceito e agradeço - Valdinei Calvento

O Vermelho Encantamento das Matas

Foto: Sergio de Castro - tiê-sangue (Ramphocelus bresilius)

Com ou sem a pretensão de chamar a atenção nas verdejantes florestas da Mata Atlântica, o tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) não passa despercebido nem mesmo para um mero observador disperso, e sim, atua como protagonista no teatro das cores que realiza apresentação perene no palco da vida. Exalta o seu rubor e encantamento digno de contemplação nas matas da Paraíba a Santa Catarina, é uma espécie endêmica da Mata Atlântica e possui alimentação frugívora, entre a variedade de frutas que ele se alimenta, há algumas que contém um pigmento denominado astaxantina, que ajuda a manter a sua coloração vermelho-escarlate.

Passear em devaneio pelas matas do país já nos remonta ao nosso sentido ontológico, re-desperta uma sensação de contato com o divino que pode-se resumir como inefável. Entretanto, uma incursão floresta adentro e o encontro com uma como ave como o tiê-sangue é mais do que cósmico, e sim chama atenção para o nossa dimensão cuidado, conservador e demasiadamente zeloso. A beleza e a importância que as aves têm para a manutenção dos ciclos ecológicos transpõem muitas vezes as barreiras do compreensível racionalmente por nós, e, até mesmo por elas – aves.  Se para as aves a árvore fornece alimento na forma de larvas de insetos e ovos, a ave pode estar extraindo pragas e cooperando na vitalidade da árvore, assim a dependência entre um e outro é extremamente fundamental. Essa compreensão de dependência não é racionalizada pela ave, e em alguns casos, nem mesmo por nós, que derrubamos as árvores e interrompemos esse apoio mutuo. Sua cor pode ser de puro encantamento e significado para nós, como observadores, e evidentemente de pura fragilidade e susceptibilidade perante nós e outras espécies como predadores. Nas matas douradas e portentosas da Mata Atlântica, sua plumagem vermelho-sangue contrasta com o verde das árvores sobressalentes e reflete como um raio de luz nas águas harmoniosas, fazendo com que seja visto e capturado com facilidade pelos seus predadores naturais e também pelos denominados predadores “sapientes”.

A ocorrência dessa e de outras espécies fica restrita a áreas onde ainda resta alguma porção de floresta, quer fragmentos florestais, quer grandes coberturas resguardadas, ficando assim evidente a importância de conservar nossas florestas e conseqüentemente espécies exuberantes e essenciais para o equilíbrio ecológico. Atualmente, o hábitat dessa e de uma gama surpreendente de outras espécies animais e vegetais, haja vista que a Mata Atlântica possua um percentual em torno de 33% das espécies vegetais existentes no Brasil, esteja ameaçado pela supressão florestal, oriunda de vários fatores, como a expansão imobiliária, avanço da agricultura, dentre outros.

A simbologia de sua cor, o vermelho, pode ser traduzida por nós como a ação, a conquista, características que para as aves já está arraigada desde o seu nascimento, sendo que no decorrer de suas vidas elas alcançam o zênite a todo instante, migram quilômetros atrás de abrigo e alimento, lutam instintivamente para defender seu território e família, e, acima de tudo, gozam de sua arte somente para manifestar a vida. Chegará um tempo em que as Florestas não estarão mais pintadas de vermelho pelo sangue expelido das espécies dizimadas, e sim pela vivaz e cintilante beleza do tiê-sangue.

Gustavo G. Sanches

O Olhar da Favela

Foto: JR - Morro da Providência - RJ

 

Episódios como os que ocorreram no Rio de Janeiro recentemente levam uma grande parcela da população a reflexão, ora pela gravidade dos fatos que desdenharam uma grande quantidade de inocentes da comunidade, ora pela dimensão da raiz que assombra os problemas sociais na capital Fluminense. O processo de favelização na capital não é digno de escolha para aqueles que lá habitam, é, sobretudo um fator social de desigualdade no qual faz com que migrantes venham de outros municípios e/ou estados atrás de uma significativa melhora de vida na capital, não encontrando assim condições de se estabelecer em uma zona melhor, acabam se aglomerando  em aclives e declives de esperança. Já, em relação ao tráfico de drogas, todos estão cansados de saber a epistemologia dos fatores que envolvem as divergentes classes sociais, públicas e privadas.

Não quero aqui banalizar o assunto, tampouco fazer uma abordagem positivista sobre a realidade que decorre em todo o globo, mas sim levar os leitores para uma breve inflexão sobre a paz que moldamos através desse sistema ganha-perde.

O levante feito pela polícia militar do RJ em conjunto com as forças armadas demonstra a cristalização de uma máxima potência estatal, onde o sistema pode sim pender para o bem da comunidade que vive sob as diretrizes do tráfico, mas deve-se dizer que o cerne do problema se encontra justamente aí, como assegurar uma governança num estado politicamente dividido?

As ações voltadas para o planejamento de uma grande cidade gira, em linhas gerais, entre os interesses individuais de uma parcela privada e os interesses individuais de uma classe de políticos corruptos. Enquanto há cem podando os galhos do mal, há um tentando arrancá-lo pela raiz. A paz “estabelecida” para os moradores dessas comunidades, de certa forma é uma grande revolução para a polícia, mas cabe perguntar até quando essa paz irá reinar, até onde os olhos de uma criança que vivencia esta realidade irá acreditar em paz. Este sistema onde um sempre há de perder age como imperativo há muito tempo, a falta de benquerença dos governantes para as classes desfavorecidas faz com que hecatombes como essas ocorram, e a título de exemplo, sob o olhar do país todo que assiste as manchetes dos jornais e se deleitam como se estivessem assistindo um filme.

A transição para um sistema ganha-ganha requer muito esforço conjunto, mas um esforço benevolente, um esforço de atores que não estejam totalmente vendidos para o mercado capital. Dizer aqui qual seria o processo para essa transição seria muita preponderância e demagogia, mas

vale dizer que a direção foi moldada, as ações de transversalidade social estão já presentes nas comunidades através de ONG’s que lutam pela pacificação através da educação, da arte, da cultura, da música, dentre outros. A paz está gritando para estar presente em nossos dias, saibamos escutá-la e senti-la.

Gustavo G. Sanches

Despertar de Ícaro - Lucílio de Albuquerque (1877–1939).

Há poucos dias de mais uma Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas COP-16, realizada pela ONU e que se inicia na próxima segunda-feira 29, onde 193 nações irão discutir e quiçá decidir os instrumentos de mitigação para com as mudanças climáticas, novamente se vê em torno do tema o teatro midiático que pulveriza informações um tanto quanto dantescas sobre a temática mudanças climáticas. Já foi mais que comprovado e alertado sobre os perigos que as espécies estão correndo, milhares de desastres inéditos coloca em cheque os denominados céticos do clima. Uma vez que a crise atual não é apenas uma crise de indivíduos, governos ou instituições sociais, mas sim uma transição que contempla dimensões planetárias, onde o futuro da humanidade está em jogo.

Justapondo essa realidade, cumpre dizer que a estabilidade humana está gradativamente ameaçada pela força do capitalismo, pela força do jogo do mercado e também pela força da insensatez humana. Notícias sobre fome, guerras, corrupção estão mais do que familiarizadas pelas classes “virtuosas” da sociedade, e mesmo assim vivencia-se o momento do fatalismo cínico, onde a mudança deve partir de um Deus maior. Uma salvação que não virá de cima.

O futuro está tão próximo quanto o presente, tão próximo quanto a Terra da Lua, e ainda assim a postergação das benquerenças é algo arraigado na sociedade contemporânea. A humanidade está em estado hipnagógico, prestes a entrar de vez nas dimensões oníricas e assim sonhar com um futuro melhor, no entanto o que tarda este sonho é a morosidade dos famigerados em abandonar suas velhas práticas.

Deve-se colocar como imperativo um despertar para uma nova era, uma transição de instabilidade para a estabilidade, observar a Terra como esse imenso processo evolutivo, onde nós seres humanos dividimos a mesma casa comum com as demais espécies. Corrobora o fato de que todos terão o destino comum, porque não alimentarmos um novo começo. A biodiversidade está depauperada, a perda de sintonia com a totalidade está culminando não somente na segunda maior extinção de espécies animais e vegetais da história do planeta Terra, mas também na falta de conexão entre os sujeitos, na falta de ações de solidariedade entre nós homo sapiens.

Um hino de indignação cresce a cada dia nas extensões endossomáticos dos seres humanos, elevando-se assim um senso crítico perante as causas ambientais e sociais, esperar-se-ia que os representantes das 193 nações, não dignas de decidir o futuro da humanidade, acordem para esse hino, despertem para a realidade e veja que a estabilidade do planeta está ameaçada.

 

Gustavo G. Sanches

 

Degradação em RO

Degradação da Floresta Amazônica em Rondônia

Reza a Carta Magna1 que todos têm o dever de assegurar o direito das presentes e futuras gerações ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. No entanto, o ano que foi instituído como Internacional da Biodiversidade, está sendo em nosso país o período em que se tenta arrebatar com uma lei tida com uma das mais protetivas do ambiente, mundialmente falando.

A lei em questão é a Lei Federal 4.771/65, conhecida como Código Florestal (CF) e está sendo alvo de um Substitutivo, que visa à revogação do mesmo, através do Projeto de Lei (PL) 1.876/99 que corre na Câmara dos Deputados e tem como relator o Deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP).

São de se destacar dois instrumentos que seriam modificados caso o texto de Rebelo tenha êxito: as APP’s2 e a RL3. É importante deixar claro que tais instrumentos têm funções distintas e complementares, já que o primeiro visa primordialmente à proteção de solos mais frágeis e o equilíbrio do regime hidrológico, além da biodiversidade; e o segundo visa à manutenção de uma reserva de biodiversidade no local.

O relator defende com unhas e dentes que o intuito do substitutivo é proteger os pequenos agricultores que, com o código vigente, têm pequenas áreas para produção. No entanto esse argumento é falho, pois, o PL apresentado, ao mesmo tempo em que ‘visa’ beneficiar os pequenos, anistia os grandes, haja vista que o projeto isenta grandes desmatadores. A propósito, segundo o Deputado Sarney Filho (PV/MA) “O (atual) CF não prejudica a pequena propriedade, porque estabelece diversas medidas de exceção para essa parcela do setor rural (…).”4 As medidas que Sarney Filho se refere são quanto à utilização sustentável de áreas instituídas pelo CF dentro de pequenas propriedades, e que por desconhecimento e falta de apoio não são realizadas. Aldo Rebelo também argumenta que o CF é antigo e está barrando a produção agropecuária. Novamente o Deputado se engana, pois, de acordo com a ESALQ-USP o Brasil conta com 100 milhões de hectares de área apta a atividades agrícolas5.

Ao contrário do que o Senhor Rebelo prega, os pequenos agricultores, mesmo com seus pequenos lotes, sabem a importância de se manter as APP’s. Vê-se aqui na região de Londrina-PR a recuperação dessas áreas sem a pressão legal, por iniciativa própria dos agricultores ou em cooperação com a sociedade civil organizada. Aquele pedaço à beira-rio que a patota do Rebelo quer ceifar não representa apenas um cílio estético para uma sombra ao fim de semana. A mata-ciliar conservada significa uma intrincada relação ecológica que vai não só regular o fluxo hídrico da bacia hidrográfica, como também favorecer a vida. Esta que ali é representada, de forma breve, pelos insetos que polinizam a plantação do agricultor; ou então predadores das pragas das lavouras; até mesmo as plantas que frutificam, servindo de alimento para os lindos pássaros que gorjeiam a cada manhã.

Em tempos de discussão das mudanças climática e da conservação da biodiversidade, é motivo de vergonha o posicionamento anacrônico de um representante dos interesses da nação. Como Estado democrático, deve-se sim discutir mudanças na legislação, mas alternativas inovadoras e de vanguarda devem estar em pauta.

A manutenção da vegetação nativa é estratégica para todo tipo de sistema produtivo, portanto, em vez de vê-la como obstáculo, vejamo-la como aliada. Portanto, a discussão que cabe é como deixar a floresta em pé e não regredir leis para ser permissivo com o desmate.

 

Gustavo Góes

 

 

1 Constituição Federal Brasileira de 1988

2 Áreas de Preservação Permanente (florestas e demais formas de vegetação natural situadas: a) ao longo dos rios e cursos d’água ou que envolvam nascentes e olhos d’água; b) nos topos de morros, montanhas e serras; c) nas encostas com declividade superior a 45º; d) nas restingas; e) nas bordas de tabuleiros ou chapadas e h) nas altitudes superiores a 1.800 metros)

3 Reserva Legal “é a área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural, excetuada e de preservação permanente, necessária ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção da fauna e flora nativas”. Os percentuais que devem ser protegidos em cada propriedade ou imóvel rural variam, de acordo com as regiões do país. Este percentual é de 80% nas áreas de florestas da Amazônia, 35% para o Cerrado da Amazônia Legal e 20% para as demais regiões do país.

4 Revista Consulex (Novembro de 2010)

5 O Estado de São Paulo (5 de maio de 2010)


									
rio xingu

Vista do rio Xingu, que será afetado pela construção da hidrelétrica de Belo Monte (Altamiro Vilhena)

Por Juarez Brito Pezzuti*

Senhor presidente,

Também sou trabalhador como o senhor. Só que trabalho para mim e para minha família pescando nos rios da Amazônia. Tiro o peixe pra comer com farinha em casa e para vender. Pago gente pra me ajudar na roça, pra fazer minha casa de madeira boa, que dura quando a enchente é forte e alaga tudo, como o senhor já viu. Sou um autônomo, pode-se dizer, associado da Colônia, e recebo seguro-desemprego no período de defeso.

Mas o meu patrão é o rio. Estou à mercê dos caprichos dele, do seu temperamento e imprevisibilidade. E ainda, infelizmente, nós pescadores competimos entre nós, porque o recurso é finito e as bocas aumentam. As bocas das famílias dos pescadores e dos outros brasileiros.

O desmatamento do fazendeiro, a maior parte dele vindo de fora da minha região para destruir a floresta até a beira do rio para encher o bolso de dinheiro e não trazer benefício nenhum para a minha região. E tudo com subsídio do seu governo e dos governos anteriores. O senhor acha que ninguém está vendo? O Senhor mesmo disse que não precisa derrubar uma árvore, mas então por que qualquer um vem aqui com dinheiro do governo para colocar tudo no chão, as frutas dos animais e dos peixes, a mata que fixa o tal carbono?

Não sou um fóssil econômico nem entrave para o desenvolvimento. A maior parte do pescado consumido na Amazônia, e no Brasil, é produzida por pessoas como eu. Por nós, pescadores artesanais. Quase todo o pescado que abastece as cidades daqui sou eu que pesco. Por que agora me torno um empecilho?

O agrotóxico mata o peixe dos meus rios, já está comprovado, cheio de estudo aí, e por que o fazendeiro pega dinheiro do governo pra contaminar os todos rios com essa química toda? Não vai botar na balança o prejuízo para a minha família e todos os meus colegas trabalhadores do beiradão? Chame de externalidade, do que quiser, mais isso tem que ser considerado. Rios com peixes geram emprego, garantem o sustento das famílias ribeirinhas e abastecem pequenas, medias e até grandes cidades.

A barragem, seu presidente, é que é o pior mal de todos para o Rio, e isto está comprovado já tem décadas. A pesca no lago artificial não compensa os impactos negativos a montante e principalmente a jusante. Veja, Senhor Presidente, o que aconteceu com as comunidades do Baixo Tocantins.

Os estudos mais recentes comprovam isso, e que nós estamos sentindo na pele há décadas, e mostram também que escadas de peixe e outras geringonças de nada adiantam. Como pode o seu governo dizer que não vai afetar a pesca, com o que tem acontecido em todos os outros rios? O que o senhor acha que é o bagre? Um peixe meio feioso, de espinho, que a gente come na falta de peixe melhor? Tem idéia do tamanho da população ribeirinha que vive da pesca do bagre? Só no canal  principal do Amazonas somos mais de 50 mil pessoas, afora os afluentes maiores como Madeira, Purus, Japurá, Juruá e dezenas de outros menores onde a pesca do bagre é das principais fontes de renda. Agora, e quantas bocas se alimentam dos rios, acha que não dá pra contar? Dá sim, é fácil e está sendo feito por um monte de gente que tem seriedade. Tem a sociedade civil representada e o estado, com o ministério público nas diferentes esferas, as universidades e outras instituições de pesquisa. Chamando atenção, brigando mas, principalmente, contabilizando o massacre do modo de vida ribeirinho, da nossa vida, do nosso sustento e do nosso emprego.

Tem jeito não, Senhor Presidente, para todo o mal que as barragens causam a nós, tentando viver do pouco peixe que sobrou ou indo para as cidades tentar a sorte e, na maioria das vezes, levar uma vida miserável.

Vossa excelência também não assumiu compromissos com emissão de gases? Como, se praticamente todo o investimento em energia é com fábricas de metano, que é isso que as hidrelétricas são? Seu governo vai seguir ignorando o que os cientistas do mundo inteiro estão dizendo? Vai seguir apostando na falta de memória do povo brasileiro?

Presidente, o senhor ainda vai passar uma vergonha muito grande, porque em poucos anos esse mal que o seu governo está fazendo pra gente vai estar tão evidente e tão claro, que Vossa Excelência não vai ter nem sossego quando for dormir, se é que ainda se preocupa com a sorte dos seus companheiros que alimentam suas famílias com o peixe do rio, longe dos supermercados, e  que trabalham de canoa, linha e anzol, rede e arpão.

*Juarez Brito Pezzuti é biólogo, doutor em ecologia e professor da Universidade Federal do Pará.

Fonte: Envolverde.

** texto publicado neste blog por expressar de forma sucinta a forma com que o governo brasileiro vem tratando as questões socioambientais.

Eneias, Anquise e Ascânio - Gian Lorenzo Bernini 1619

Todos estamos passando por uma fase de transição, é só lermos os jornais e revistas que veremos a democratização dos termos consciência ecológica, desenvolvimento sustentável, direitos humanos, dentre outros. Pode-se notar também o aumento do número de pessoas engajadas nas causas sociais, no voluntariado como exercício ético, na luta por um mundo melhor. Penso eu com meus botões, por que todos esses ótimos exemplos não atingem uma magnitude global, por que não globalizar o acesso universal a água, ao alimento, a moradia, a uma Mãe Terra feliz e orgulhosa de seus filhos? Pois bem, nesse contexto pode-se dizer que Gaia encontra-se entristecida e virulenta, e a razão disso é nossa ganância e individualismo, nosso modelo globalizacional insustentável e excludente que permeia as mais íntimas entranhas de nosso planeta.

A globalização econômica em sua forma mais inexpugnável culminou não somente na depredação da natureza, extinção de espécies e gestos de solidariedade e afetividade humana, mas também numa mercantilização de cultura, cujo cerne se encontra no âmbito estadunidense, no qual grande parte dos países ao redor do globo almejam um desenvolvimento econômico-cultural como o das estrelas de Hollywood, deixando de lado todo o processo histórico-geográfico que cada região desenvolveu empiricamente. Pesquisas revelam que se todos os países consumissem como os Estados Unidos consomem, necessitaríamos de cinco ou mais planetas para suportar o ultraje cometido com nossa “Mãe Terra”. De todo modo a cultura norte americana encontra-se em crise, os americanos estão consumindo cada vez mais para poderem maquiar a falta de conexão uns com os outros, e isso se prolifera gradativamente com as síndromes de metrópoles, moldando paisagens urbanas com prédios e fábricas, buzinas e pistões automotivos, encobrindo o canto dos pássaros e nos distanciando do diálogo com a natureza, criando dependência da mecanização para com as tarefas manuais, engendrando conforto e requinte que somente uma pequena casta gozará.

Contanto surge-se paulatinamente uma parcela de indivíduos dispostos a construção de coletivos éticos, condicionados a uma mudança de paradigma civilizatório, que se baseia no utopismo dialético, ou seja, uma forma de utopismo espaço-temporal em que as capacidades geográficas e potencialidades humanas sejam incorporadas como forma de intervenção nos dogmas predeterminados. Quem são esses indivíduos que estão implantando o utopismo em seus espaços geográficos? São todos aqueles que estão atônitos com o desumanizante processo atual, que estão agindo como efeito multiplicador por um desenvolvimento ecológico e social inerente a produção do capital, esta que na maioria dos casos utiliza de seus recursos por meio do  pensamento arcaico de progresso a todo custo, causando danos para o ambiente e seus trabalhadores, aqueles que persistem na produção do conhecimento, de proporcionar os  direitos naturais de alimentação, de água, de liberdade de escolha e cooperação.

Como é ano eleitoral em nosso país veremos muitas demagogias e ilusões de nossos excelentíssimos candidatos, porém, cabe a nós cidadãos eleitores, sujeitos ativos e condicionados no saber democrático, decidir qual o melhor caminho para se seguir, um futuro democrático e justo em todas as esferas, ou um futuro cataclísmico que nos levará ao precipício. Sendo assim, continuamos sonhando com um país cujo mapa geográfico inclua a utopia, como no dizer do laureado escritor Irlandês Oscar Wilde: “Um mapa do mundo que não inclua utopia não merece nem mesmo uma espiada”.

Gustavo G. Sanches