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Anta no Rio (2014) - Houto

Anta no Rio (2014) – Houto

Espaço Aberto – Folha de Londrina (09/10/2014)* Aposto que cada um de nós conhece uma anta, não é mesmo? Bastante esperta e sempre muito importante na sua comunidade, ela é cuidadosa com os filhos e mora em lugares com gigantes quintais. Pois é, estamos falando do maior mamífero terrestre de toda a América do Sul. Cientificamente chamada de “Tapirus terrestris”, a anta não habita áreas urbanas e é um animal dócil e nada abundante. Herbívora, a anta ingere uma infinidade de frutos diferentes e os dispersa por meio das suas fezes. Como tem o hábito de se deslocar por grandes distâncias, renova os ambientes por onde passa, “plantando” centenas de novas árvores e arbustos todos os dias. Por tais atributos, a anta é apontada por pesquisadores como uma engenheira de ecossistemas – ou, então, a jardineira da floresta. Estudos recentes indicam que a anta não tem absolutamente nada de tola ou obtusa. Pelo contrário, os resultados mostram que o bicho tem uma grande quantidade de neurônios e muito bem usados. Portanto, quando alguém gentilmente chama outra pessoa de anta deveria estar fazendo é um belo de um elogio! Buscando melhorar a imagem das antas diante dos brasileiros, a Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil (SZB) e o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE) se uniram na campanha “Minha Amiga é uma Anta”. O objetivo é desmistificar o conceito enganoso de que a anta seria um animal não muito inteligente, além, é claro, de disseminar informações sobre a importância da conservação da espécie. A campanha visa inicialmente alcançar o público infanto-juvenil por meio de cartilhas educativas, disponíveis na internet e em diversos zoológicos e aquários brasileiros. A anta é ameaçada de extinção em todo o Brasil e, principalmente, na Mata Atlântica, bioma com maior degradação de todo o País. A região de Londrina se destaca como um dos raros locais da Mata Atlântica onde as antas ainda sobrevivem, mesmo sob muitas ameaças. Correndo perigo de se extinguir nas próximas décadas, uma pequena população de antas permanece na paisagem agropecuária da região e é extremamente dependente dos parques, várzeas e reservas particulares ainda existentes. A fim de conhecer a fundo as condições ecológicas e traçar estratégias para a sobrevivência da anta no Norte do Paraná, a ONG Meio Ambiente Equilibrado (MAE) executa atualmente o projeto Caminho das Antas. Tal iniciativa tem respaldo científico da Universidade Estadual de Londrina, por meio do Laboratório de Biodiversidade e Restauração de Ecossistemas (Labre), além de parceria da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná (Sema-PR), Promotoria do Meio Ambiente e financiamento da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Pesquisadores do projeto percorrem uma área equivalente a mais de 100 mil campos de futebol para levantar dados importantes para a conservação da anta pelas nossas bandas. Se por um lado a caça, a poluição dos rios e a fragmentação das florestas oriunda do desmatamento de décadas sejam as causas do processo de extinção desses animais, por outro, a manutenção de florestas em sítios e fazendas, a prisão de caçadores e o alerta de motoristas para o risco dos atropelamentos podem contribuir muito para a sobrevivência das antas. Para ser amigo da anta podemos até ir ao zoológico e tirar foto perto dela, mas mais que isso, a anta precisa de floresta em pé e de rios limpos, de caçador nem pensar! O verdadeiro amigo da anta também só fala bem dela, afinal, anta é elogio! GUSTAVO GÓES é gestor ambiental em Londrina e participa do projeto Caminho das Antas *Artigo publicado originalmente na coluna Espaço Aberto da Folha de Londrina –
http://va.mu/AdYbZ

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Artigo publicado originalmente na coluna Espaço Aberto do jornal Folha de Londrina em 22/03/2013.

Em todo o mundo se comemora hoje o Dia da Água. No Brasil, sempre citado como o detentor de um dos maiores estoques de água doce do planeta, o que se vê é a poluição e o desperdício como regra. Quais são, então, as questões para se tratar nesta data?

O cenário não é pacífico. Dados das Nações Unidas indicam que 80% dos habitantes do planeta habitam regiões com altos níveis de ameaça à segurança da água. Para piorar, saneamento básico é artigo de luxo para cerca de 2,5 bilhões de pessoas. Outros 783 milhões não tem acesso à água potável. O resultado é a morte de 1,5 milhão de crianças ano a ano afetadas por doenças diarreicas, com um assustador saldo de 5 mil mortes por dia.

Infelizmente, o Brasil não fica distante. O IBGE aponta que perto de 40% dos domicílios brasileiros não estão providos da rede coletora de esgotamento sanitário. E por mais bizarro que se possa parecer, grande parte do esgoto coletado não recebe tratamento adequado: diariamente, 15 bilhões de litros de esgoto são lançados direto da latrina aos corpos hídricos país afora.

Se por um lado, o país do futebol injeta bilhões para a Copa do Mundo da Fifa, por outro, amarga 2,5 mil crianças mortas anualmente por doenças de veiculação hídrica.

Vale ressaltar que investimentos em saneamento salvariam muitas vidas ou mesmo esvaziariam os leitos de hospitais, já que nos países em desenvolvimento – inclua-se o Brasil – 80% das doenças são causadas por problemas relacionados à água.

A água também pune. A estupidez humana da tentativa de subjugar a natureza, devastando sistemas ecológicos ou mesmo a ocupação de áreas de preservação permanentes, aliada aos efeitos das mudanças climáticas, tendem a tornar comuns os fenômenos climáticos extremos, como enchentes e secas, com desastres aterrorizantes, a exemplo dos já vistos por aqui.

Com toda essa conjuntura, e após a Assembleia Geral da ONU reconhecer a água e o saneamento como direitos humanos, 2013 foi declarado o ano internacional pela cooperação da água.

Os desafios são grandes para manter a “castidade da água”, conforme apontou Francisco de Assis, ou para manter a sustentabilidade dela, de acordo com o conceito pós-moderno. O certo é que tal recurso natural, elementar para a manutenção da vida, também deve sustentar o desenvolvimento socioeconômico.

A despeito do panorama exposto, e muito além das ações de empresas de saneamento, ações de conservação da água estão se tornando práticas comuns no cotidiano.

Nas áreas urbanas, o cidadão já começa a associar que o desperdício na torneira pode afetar a vazão dos rios captados. Está ciente de que lavar calçada é um disparate, e de que o lixo da sarjeta, se não entupir o bueiro e alagar a rua na próxima chuva, vai poluir o lago tempos atrás abundante em peixes.

O homem do campo sabe que a riqueza e a abundância da água só continuam se mantida a cobertura florestal, a proteção das nascentes, das beiras de rios e áreas de recargas de aquíferos. A recuperação dessas áreas já é fato nas pequenas propriedades, inclusive aqui, com o projeto Londrina Verde.

Apoiado pelo poder público e terceiro setor, ou mesmo de forma voluntária, o agricultor tem se esforçado para corrigir erros de toda a sociedade, restabelecendo os serviços ambientais.

O setor industrial começa a implementar técnicas para otimização da água virtual – aquela não vista mas utilizada na geração de bens e serviços. O sempre crescente consumo pressiona os estoques de água, que diferentemente do aumento da população mundial, continua o mesmo.

Crescer em consciência no uso e no cuidado da água, recurso que ainda é abundante no Brasil, é o preceito que deve nortear a presente geração.

GUSTAVO GÓES é gestor ambiental da ONG Meio Ambiente Equilibrado (MAE) em Londrina

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Entrada para floresta

Entrada para Floresta (1942) – Cândido Portinari

 

ESPAÇO ABERTO – Folha de Londrina (10/08/2012)*

A proposta de construção de um complexo logístico sobre uma região de grande importância ambiental nem saiu do papel e já gera polêmicas na sociedade norte-paranaense. Seria mesmo aceitável, nos dias de hoje, a definição do local para um empreendimento sem antes mesmo estudar sua viabilidade? Como ficaria a comunidade local, a biodiversidade e todo o ambiente se esse projeto fosse viabilizado na área proposta?

Geralmente, empreendedores desavisados não se preocupam com todas essas questões. Por outro lado, após tantos desastres ambientais passados, a sociedade criou mecanismos para manter um maior equilíbrio entre as forças econômicas e as questões socioambientais. Atualmente, existem legislações pertinentes que orientam as atividades humanas a não repetir erros do passado. Nessa esteira, surgiu um novo campo de estudo: a Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), que agrega profissionais de várias áreas com o objetivo da viabilidade de projetos ambientalmente menos agressivos.

Com o vislumbre de um licenciamento ambiental para o projeto Arco Norte, cumpre examinarmos a Resolução Conama 1/86 que, no artigo 5º, destaca que um Estudo de Impacto Ambiental (instrumento necessário para empreendimentos de tal porte) deve ”contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização de projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do projeto”. Como se observa, a ideia do Arco Norte nasce errada. E para não ficarmos na dicotomia do ”faz ou não faz” a obra, antes de tudo deve-se conceber alternativas locacionais. Afinal, se o objetivo é o desenvolvimento regional, não devem faltar em todo o Norte do Paraná áreas sem parques e mananciais de abastecimento por perto, características da Zona Sul de Londrina.

A área apontada para o Arco Norte é rica em serviços ambientais para nossa região. Além de celeiro de alimentos, lá existem não só bacias hidrográficas responsáveis por abastecimento público de água regional como também fragmentos de floresta bem conservados que abrigam várias espécies em extinção. Toda essa rede de serviços ambientais tem como núcleo o Parque Estadual Mata dos Godoy, uma das unidades de conservação mais estudadas em todo o Paraná – e também um dos últimos remanescentes que preserva a rica floresta encontrada pelos pioneiros.

Vale dizer que aumentar a área do parque, como aventam os proponentes do Arco Norte, é uma ação importante. Entretanto, trata-se de uma realização que já deveria estar em curso pela própria importância do local, independente do Arco Norte, haja vista que o entorno do parque em 2007 já foi declarado, pelo Ministério do Meio Ambiente, como uma área de ”muito alta” prioridade para conservação.

Concordo com a preocupação da Associação Comercial e Industrial de Londrina, da Sociedade Rural do Paraná e do governo do Paraná com Londrina e o desejado desenvolvimento da região do Arco Norte. Há anos nosso pedaço de Paraná aqui no Norte carece de desenvolvimento substancial e, de fato, merece todo o investimento possível. Mas no lugar de aeroporto e complexo logístico, que se dê aporte a atividades de baixo impacto ambiental na região rural Sul de Londrina. Que se invista em outras atividades, como turismo rural e ecoturismo, bem como produção sustentável de alimentos e água. Não há radicalismo nenhum em planejar tal vocação para o local – e é justamente o amplo conhecimento técnico já disponível e produzido sobre a área que permite, sem medo, essas afirmações. Arco Norte sim e sempre! Mas ali, não!

GUSTAVO GÓES é gestor ambiental em Londrina

 

Artigo publicado originalmente na Coluna Espaço Aberto do Jornal Folha de Londrina.
(trata do discutido projeto de desenvolvimento para a cidade de Londrina, e o seu local precipitadamente apontado)

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exploração de recursos

A Fábrica (2009) – Will Ferreira

Após sediar a Rio+20, o Brasil não tem muito a comemorar no que tange a questão ambiental. Questões muito polêmicas junto à sociedade, como a alteração do Código Florestal e a construção de Belo Monte, permearam e antecederam por aqui o debate da conferência da ONU. Mas não é só isso, a pressão de grandes obras públicas pressiona órgãos ambientais para aprovação de licenças, havendo até diminuição de áreas protegidas. Fatos estes que apontam para a fragilidade que a temática ambiental vem sofrendo em nível nacional.

Nessa linha de análise, em recentemente levantamento1 foi apurado que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem 27% do seu orçamento alocado no que é conhecido como reserva de contingência,  uma estratagema da União para se obter superávit primário2, ou seja, estão ali para fazer volume.  Dos R$4,1 bi previstos para 2012, R$1,1 bi está contingenciado, e tal restrição já acontece no MMA desde 2006. As restrição orçamentária, pode ter atingido três programas importantes do MMA, que estão quase paralisados. São os programas Mudanças Climáticas, Biodiversidade, além do Programa de Conservação e Gestão de Recursos Hídricos.

Enquanto a arrecadação federal bateu recorde no ano passado3, tendo aumento de 10%, a receita do MMA cresceu apenas de R$4 para R$4,1 bi. E quando verificado a representatividade do orçamento da pasta, teve-se em 2011 que 0,15% do Orçamento Geral da União foi destinado ao MMA.

De igual forma, as áreas protegidas também são alvo do modelo de desenvolvimento adotado. A despeito da criação, em 2007, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Natureza (ICMBio) e seus avanços na gestão dessas áreas, foi aprovada em maio na Câmara, e segue ao Senado, a Medida Provisória que altera os limites de sete Unidades de Conservação (UC) federais4. Milhares de hectares serão excluídos a fim de facilitar a construção de várias usinas hidrelétricas (UHE), todas no bioma amazônico.

Como se observa, toda controvérsia gerada por Belo Monte, projeto antiquado da época da ditadura, não incomoda os tomadores de decisão lá de cima. Mais e mais, o que parece importar é gerar energia5 a base dos rios amazônicos que antes eram “imaculados”. É importante destacar a pífia valoração do patrimônio socioambiental quando se trata de obras de interesse público, constata-se que os danos aos povos tradicionais e aos bens naturais são subjugados para a viabilização de grandes obras.

Paradoxalmente ao discurso na Rio+20, as ações do governo federal para com o Meio Ambiente são dignas de atenção da sociedade brasileira. Paralelo à conferência da ONU, a sociedade civil apresentou avanços em iniciativas locais, fato que motiva a possibilidade de melhorias surgindo de baixo para cima. Por outro lado, é imprescindível a responsabilidade do setor público na execução de sua política ambiental.

Gustavo Góes

1 http://www.contasabertas.com.br/WebSite/Noticias/DetalheNoticias.aspx?Id=933

2 Saldo positivo, quando, ao final de um período, verifica-se que os gastos do governo foram menores do que a receita.

3 http://www.brasileconomico.ig.com.br/noticias/arrecadacao-federal-deve-continuar-alta-em-2012_112380.html

4 http://www.ecodesenvolvimento.org.br/posts/2012/maio/aprovada-na-camara-a-reducao-de-sete-unidades-de

5 Vale lembrar que nesse blog já foi falado sobre o mito da energia limpa gerada em UHE de ambientes tropicais, confira: https://penseverde.wordpress.com/2009/06/11/energia-eletrica-em-expansao/

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Foto: Sergio de Castro - tiê-sangue (Ramphocelus bresilius)

Com ou sem a pretensão de chamar a atenção nas verdejantes florestas da Mata Atlântica, o tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) não passa despercebido nem mesmo para um mero observador disperso, e sim, atua como protagonista no teatro das cores que realiza apresentação perene no palco da vida. Exalta o seu rubor e encantamento digno de contemplação nas matas da Paraíba a Santa Catarina, é uma espécie endêmica da Mata Atlântica e possui alimentação frugívora, entre a variedade de frutas que ele se alimenta, há algumas que contém um pigmento denominado astaxantina, que ajuda a manter a sua coloração vermelho-escarlate.

Passear em devaneio pelas matas do país já nos remonta ao nosso sentido ontológico, re-desperta uma sensação de contato com o divino que pode-se resumir como inefável. Entretanto, uma incursão floresta adentro e o encontro com uma como ave como o tiê-sangue é mais do que cósmico, e sim chama atenção para o nossa dimensão cuidado, conservador e demasiadamente zeloso. A beleza e a importância que as aves têm para a manutenção dos ciclos ecológicos transpõem muitas vezes as barreiras do compreensível racionalmente por nós, e, até mesmo por elas – aves.  Se para as aves a árvore fornece alimento na forma de larvas de insetos e ovos, a ave pode estar extraindo pragas e cooperando na vitalidade da árvore, assim a dependência entre um e outro é extremamente fundamental. Essa compreensão de dependência não é racionalizada pela ave, e em alguns casos, nem mesmo por nós, que derrubamos as árvores e interrompemos esse apoio mutuo. Sua cor pode ser de puro encantamento e significado para nós, como observadores, e evidentemente de pura fragilidade e susceptibilidade perante nós e outras espécies como predadores. Nas matas douradas e portentosas da Mata Atlântica, sua plumagem vermelho-sangue contrasta com o verde das árvores sobressalentes e reflete como um raio de luz nas águas harmoniosas, fazendo com que seja visto e capturado com facilidade pelos seus predadores naturais e também pelos denominados predadores “sapientes”.

A ocorrência dessa e de outras espécies fica restrita a áreas onde ainda resta alguma porção de floresta, quer fragmentos florestais, quer grandes coberturas resguardadas, ficando assim evidente a importância de conservar nossas florestas e conseqüentemente espécies exuberantes e essenciais para o equilíbrio ecológico. Atualmente, o hábitat dessa e de uma gama surpreendente de outras espécies animais e vegetais, haja vista que a Mata Atlântica possua um percentual em torno de 33% das espécies vegetais existentes no Brasil, esteja ameaçado pela supressão florestal, oriunda de vários fatores, como a expansão imobiliária, avanço da agricultura, dentre outros.

A simbologia de sua cor, o vermelho, pode ser traduzida por nós como a ação, a conquista, características que para as aves já está arraigada desde o seu nascimento, sendo que no decorrer de suas vidas elas alcançam o zênite a todo instante, migram quilômetros atrás de abrigo e alimento, lutam instintivamente para defender seu território e família, e, acima de tudo, gozam de sua arte somente para manifestar a vida. Chegará um tempo em que as Florestas não estarão mais pintadas de vermelho pelo sangue expelido das espécies dizimadas, e sim pela vivaz e cintilante beleza do tiê-sangue.

Gustavo G. Sanches

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Constelación: despertando al amanecer

Joan Miró - Constelación: despertando al amanecer (1944)

Aproximadamente um bilhão de anos após a formação do planeta Terra a vida se fez presente e, ao longo do tempo, vem evoluindo através de complexos processos ecológicos. Podemos dizer hoje que a vida está presente em qualquer canto desse mundo, desde as milhares de espécies de bactérias que se encontram no solo, juntamente aos fungos, cooperando para a fertilidade da terra, até as grandes plantas e mamíferos, e ainda a grande biodiversidade existente nos ecossistemas marítimos.

É incomensurável a riqueza da biodiversidade, tanto que, no que diz respeito apenas à descrição e classificação das espécies, taxonomistas1 têm catalogado até os dias atuais cerca de 1.4 milhões de espécies e estima-se que existam no mínimo 10 milhões ainda não descritas.

Vale dizer que a diversidade da vida concentra-se, sobretudo em regiões tropicais. Existem 17 países que abrigam 70% da biodiversidade do nosso planeta, são eles conhecidos como Megadiversos2. No entanto, alguns desses países têm suas florestas ceifadas continuamente. Seja pela pressão por áreas para o cultivo de dendê na ilha de Sumatra na Indonésia, a exploração madeireira na República Democrática do Congo ou o aumento da fronteira agropecuária na Amazônia brasileira; o desflorestamento dessas regiões riquíssimas está destruindo o hábitat de milhões de criaturas que nem ao menos conhecemos, e por conta dessa destruição covarde, pesquisadores renomados apontam que ecossistemas podem, em breve, entrarem em colapso.  Como exemplo pode-se citar o risco de pelo menos parte da Amazônia ser transformado em uma savana.

Nessa esteira, há algumas décadas alguns campos da ciência estão se emancipando da visão positivista e vêm incorporando aspectos sistêmicos, ressaltando e comprovando a dependência da vida humana perante o equilíbrio do planeta. A economia ecológica, por exemplo, busca dar valor monetário aos serviços ambientais prestados, evidenciando que são processos ecológicos que culminam na vida humana. Não custa lembrar a Teoria de Gaia, desenvolvida pelo climatologista James Lovelock e a microbiologista Lynn Margulis, que ao longo dos anos vêm comprovando a hipótese de que a Terra é um grande organismo vivo, isto é, tudo que nela existe está inextricavelmente interligado e coopera (ou não) para a sua manutenção.

Destaca-se que assim como nós, enquanto organismos vivos, a Terra sofre de alguns patógenos3, ela pode ter sido perturbada por asteróides algumas vezes, mas atualmente ela está sofrendo internamente, isto é, as atividades humanas aceleraram os níveis de extinção4 em 1000 vezes, ou seja, é a mesma coisa que algum microorganismo interno nosso esteja destruindo células essenciais ao funcionamento do nosso corpo.

Em vista dessas considerações, é importante assinalar que o reconhecimento da importância da conservação da biodiversidade e de ações que visem à manutenção da vida não é um processo de cima para baixo, no qual a ciência e a política  devam resolver, mas antes uma questão de ética, na qual a coletividade assimile valores holísticos e de irmandade para com a natureza.

Séculos atrás, sem a existência da pressão de movimentos ambientalistas e nem crise ecológica, movido apenas pelo seu amor e afeição, um indivíduo chamado Francisco de Assis reconhecia a importância de todas as criaturas, seja na Terra ou no céu, e chamava a todas de irmãs ou irmãos. Cumpre dizer, por derradeiro, que seja através da espiritualidade ou da reflexão crítica, urge uma nova ética fundada na pertença a um sistema emaranhado de cooperação que sustenta a vida.

Gustavo Góes


1 profissionais responsáveis pela identificação, descrição e classificação dos seres vivos.

2 grupo de países que abrigam o maior índice de biodiversidade da Terra, a saber: Austrália, Brasil, China, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Filipinas, Indonésia, Índia, Madagascar, Malásia, México, Papua Nova Guiné, Peru, República Democrática do Congo, África do Sul e Venezuela.

3 agente capaz de desencadear doenças.

4 extinções ocorrem normalmente na natureza, mas dentro de certos limites.

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