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Posts Tagged ‘desigualdade social’

The Rose - Salvador Dali

Desde o inicio das civilizações “pensantes” se travava uma ululante batalha pessoal e universal, baseada, sobretudo entre a razão e o sentir. Grosso modo, os homens/mulheres primeiramente desenvolveram a percepção como seus aliados para a sobrevivência diária, desfrutavam-se de seus instintos para todas as atividades, ora manuais, ora intelectuais. Um bonito exemplo vem de Sócrates, dizendo que mais inteligente é aquele que sabe que não sabe de nada, sendo assim só o conhecimento que vem de dentro é capaz de revelar o verdadeiro discernimento, ressaltando assim o valor de uma visão de mundo, de uma percepção dos sentidos. Dentre toda esta trajetória da humanidade até os dias de hoje é perceptível uma dicotomia entre a razão e o sentir.

Haja vista que as civilizações com o passar do tempo foram deixando o pathos1 de lado, desenvolvendo-se então como civilizações da razão, como civilizações que marcaram pela forma analítica de ver o mundo ao seu redor, com o intuito de produzir riquezas materiais, modelos de sociedades divergentes, onde um tem que ganhar e outro perder. Urge dizer que alguns períodos da história foram reintroduzidos com todo o altruísmo que o ser humano fosse capaz, criando assim um período de imensa complacência, fora esse o período do romantismo, onde as pessoas estavam cansadas de lapidar a razão, escolheram então outro caminho e se lançaram aos braços de um apogeu romântico.

Este modelo de sociedade não permeou por um longo periodo, pois o fato de as palavras de ordem serem sentimento, imaginação, experiência, anseio, não agradavam a todos, principalmente aos burgueses da época. Não se sabe se este era um modelo correto para se seguir, se é que se sabe qual seja, a meu ver seria aquele onde todos tenham as mesmas oportunidades, onde uma pessoa não tenha os seus direitos naturais2 expropriados por um sistema, onde as pessoas tenham o direito de serem guiados pelos sentidos. O fato é que após este período marcado pelo apogeu dos sentimentos, o desenvolvimento urbano foi paradoxal a tudo o que o romantismo quis mostrar, a civilização se desenvolveu de forma exponencial, seja pelo lado demográfico, onde houve uma demasiada explosão, seja pelo avanço técnico – cientifico tendo o progresso tecnológico inerente ao desenvolvimento, que muitas vezes nos auxilia em nossas vidas, como muitas vezes nos atrapalha, sendo uma forte herança da razão do ser humano, onde ela sufoca qualquer sentimento, onde a forma analítica de ver o mundo é igual dois mais dois são quatro. Cumpre dizer que o avanço marcado pela razão trouxe para os dias de hoje muitos meios que auxiliam a vivência cotidiana, por outro lado excluindo uma maioria que não pode ter acesso nem a uma alimentação digna, nem a um dos mais preciosos elementos da natureza que é a água, essencial para a sobrevivência na terra e fonte de dignidade para os seres vivos.

Torna-se necessário avaliar o modelo no qual escolhemos para viver, cujas exuberâncias tecnológicas, materiais, não se remetem a todos, sendo um avanço positivista para uma minoria. Não estou querendo me contrapor a todos os avanços da ciência ao longo do período, nem mesmo a todas as benevolências que ela proporciona, por outro lado queria questionar se realmente o progresso do conhecimento leva a melhores condições de vida?  Salienta ainda colocar sobre questão qual seriam as condições para uma mudança do status quo3 no qual se vivem um bilhão de pessoas passando fome e com falta de água potável. Como ano de eleição no Brasil, cabe a nós, cidadãos eleitores, sujeitos ativos e condicionados no saber democrático, escolher o que realmente queremos para o futuro de nosso país, um futuro democrático e justo em todas as esferas, um futuro de cooperação, de respeito, um futuro onde as classes dominantes não somente queiram expropriar o suor do trabalhador, mas também dar-lhes condições para uma vida digna e ética, uma sociedade onde não somente os cidadãos sejam livres, mas onde o sejam dignos de ser.

1 pathos: Sentimento, capacidade de simpatia e empatia

2direitos naturais: os que estão em nossa essência de seres humanos, confrontando com quaisquer leis impostas pelas “nações”

3 statu quo: é uma expressão latina que designa o estado atual das coisas, seja em que momento for

Gustavo G. Sanches

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Cândido Portinari - Meninos Brincando (1958)

Vivemos num mundo onde mais de um bilhão de pessoas sofrem de fome crônica, e longe desses famintos, no país mais poderoso deste mesmo planeta, recentemente se distribuiu em dinheiro público uma ajuda de 700 bilhões de dólares. Cabe ressaltar, no entanto, que esse dinheiro não foi para saciar a fome de ninguém, nem tampouco para atender os trabalhadores estadunidenses que foram avassalados pela crise imobiliária daquele país; essa ajuda foi destinada a instituições financeiras, as responsáveis por uma das maiores crises econômico-financeiras da história. Convém, nesse momento, questionarmos como é possível haver tais extremos? Como pode uma espécie que se desenvolveu e se humanizou por meio da socialização vinda do cuidado criar tantas barreiras e egoísmo entre seus irmãos?

Nós humanos temos uma peculiaridade como espécie, somos permeados pelo cuidado desde a concepção, antes mesmo de nascer cria-se o vínculo mãe-filho devido às 38 semanas de gestação. Mesmo com todo esse tempo o bebê nasce debilitado e requer atenção por um longo tempo. Esse tempo de convívio entre mãe e filho é que fez surgirem as famílias, e como consequência desse acompanhamento surgiu a vida social. Como se há de verificar, o que conhecemos hoje como sociedades só foi possível devido a essas características específicas humanas. É nessa linha de análise que alguns filósofos destacam o cuidado como a essência do ser humano, antes mesmo da vontade e da inteligência. Leonardo Boff, teólogo e filósofo, nos aponta que o cuidado é a base da sociedade, ou seja, as relações, a política e a ética estão imbuídas desse cuidado essencial.

Mas então porque será que vivemos com tantas desigualdades em nosso mundo? Por que o governo dos EUA preteriu os trabalhadores e dispensou quantias vultuosas à um bando de engravatados de Wall Street? Estaríamos perdendo o cuidado? A resposta é não! Sem dúvida nossa civilização o está usando muito pouco e em formas novas, como a ajuda aos bancos, mas não perdemos o cuidado. O que podemos questionar é a forma com que estamos usando essa virtude. Nos dias atuais se privilegia a competição em vez da cooperação, aquela que toma o tempo das pessoas e beneficia a poucos. A competição enxerga o outro como concorrente, ela está arraigada em toda a cultura ocidental e nos está tirando o senso de fraternidade e o respeito para com a terra, dádivas que nos fizeram desenvolvermos como espécie. Talvez esse espírito de competitividade esteja fazendo com que a maioria de nós dispense cuidados apenas a animais de estimação e bens materiais.

Como podemos depreender, a competição propicia a individualidade. Nos dias de hoje temos carência de pessoas se esforçando juntas para os bens comuns, enquanto as praças e as assembleias comunitárias estão vazias as salas de TV reúnem cada vez mais adeptos, espaços esses em que não há relacionamento. Nessa esteira podemos observar atualmente a carência de expressões cuidadosas, porém, num outro enfoque, surgem o que podemos apresentar como pseudo-cuidados, isto é, atitudes mascaradas de cuidado que exploram a essência cuidadosa do ser humano e sua individualidade crescente.  Como ótimo exemplo disso destacamos um jogo que faz grande sucesso na comunidade sociovirtual Orkut, o Colheita Feliz, no qual o jogador pode cuidar de uma fazenda (virtual) com seus cultivos e criação de animais. O Jogo explora a capacidade de cuidado do indivíduo e ao mesmo tempo aliena-o, pois requer grande atenção do mesmo para com possíveis “intrusos” (outros jogadores do Orkut) que possam se infiltrar em sua fazenda para tomar os frutos da mesma.

Como se observa, o cuidado é mesmo essencial e sempre estará presente nas ações humanas. Entretanto a forma descrita acima é uma péssima expressão de cuidado de modo que toma o tempo de jovens que cada vez mais se distanciam da natureza e se enclausuram em ambientes fechados de frente a uma tela de computador. Talvez esse jogo tenha tanto sucesso, sobretudo com os jovens, devido ao fato dos alimentos chegarem a suas casas empacotados e sem referência da sua produção, criando barreiras entre a fertilidade da terra e a coisificação* da vida urbana.

Não duvido que à exemplo do jogo, que virtualiza o cultivo, daqui a alguns anos os modernos supermercados também “coisifiquem” a venda de seus hortifrutis, quando de modo a exemplificar a colheita poderão incluir o “cuidado” em suas gôndolas, nas quais haverão “pés” de mandioca junto ao produto embalado, podendo assim o cliente se sentir tranquilo ao conhecer e tocar a planta viva. Possivelmente esse estabelecimento viraria case de revista e sua fama se espalharia pelas redondezas, enquanto o produtor da mandioca continua sua frequente sina de atolar sua camionete nas desprezadas estradas rurais do município.

Podemos refletir, em virtude dessas considerações, que o cuidado não apenas está em nós, mas que somos o próprio cuidado.  Como os filósofos destacam, o cuidado é intrínseco ao comportamento humano. Tenha-se presente, no entanto, que nossa civilização atual o está utilizando de forma egoísta, deixando de lado expressões cuidadosas coletivas e fraternas e dando lugar ao individualismo. Para enfrentarmos as tribulações vindouras nos cabe resgatar o cuidado presente em cada um, e expressá-lo por meio da cooperação e não da competição.

Gustavo Góes

*redução do ser humano, suas características e relações, a seres que se comportam como coisas e objetos.

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Henri Matisse -  A Dança (1910)

Henri Matisse - A Dança (1910)

Dias atrás pessoas debatiam próximo a mim sobre a possibilidade de um mundo melhor, um era fundamentalista religioso que vive na sua comunidade tranquila respeitando seus irmãos e as coisas da terra, era cético em relação a um mundo melhor fora das suas crenças; o outro era um jovem cheio de vitalidade para fazer que suas atividades tenham o propósito do bem comum. Ouvi dizer numa certa vez que as duas coisas que apequenam a humanidade são a dúvida e o complexo de inferioridade, teria o segundo rapaz sucesso em sua peleja no mundo cheio de insensatez, a buscar dias melhores?

Como se há de verificar, o pessimismo do religioso talvez possa ser explicado por vivermos num mundo cheio de oprimidos e vilipendiados, e para personificar essa situação não se pode deixar de citar a economia como grande responsável pelas mazelas atuais. Essa ciência surgiu para suprir as necessidades humanas através do fluxo de mercadorias, no entanto é só ligar o noticiário ou ler o jornal que se percebe que quase tudo é quantificado economicamente. Em vez de uma ciência que se atenta na sua principal função, ela encontrou no modelo capitalista a oportunidade da construção de pirâmides, isto é, sociedades hierarquizadas que com a orientação organizacional cartesiana de Taylor*, potencializou a exploração da terra e dos povos da terra, estabelecendo como abissal a distância do cume da pirâmide, onde estão os que detêm a tecnologia, conhecimento e capital, até a base que fornece os recursos e o suor para a geração do material econômico. Saliente-se que em toda essa conjuntura, disfarçada e conhecida como crescimento, ainda há espaço para a ilusão da filantropia barata na qual, salve raras exceções, esposas de altos executivos se gabam com suas fundações que fornecem os restos de sua classe, ou talvez alguns % dos seus contracheques, resultando na missão cumprida do seu ego, publicidade do seu sobrenome e no rebaixamento de quem os recebe, pois o sistema continua a “todo vapor”, ricos mais ricos e pobres buscando seu lugar ao sol, criminalizados na mídia por invadirem terras ou excluídos da mídia os milhares de escravos existentes.

Ufa… Esse é o mundo, será possível melhorá-lo? Essa dúvida já não cabe, é tarde para ser pessimista, é PRECISO melhorar o mundo! Alguns acham utopia, quiçá um sonho, muitos melhorarão o mundo pelo medo das previsões da pobreza, dos refugiados climáticos e da insegurança, outros pela esperança da salvação numa outra vida, a questão é que o mundo melhor só se pode melhorando a nós mesmos, a chamada revolução molecular, fazendo o bem com gratuidade, não o reduzindo a atos isolados de fim de semana, mas sendo o bem, eterno ao ponto de se expressar na forma involuntária.

O mundo é uma grande rede, tudo está interligado e o bem nunca será solitário. A única coisa construída de cima para baixo é o poço, o mundo melhor surge nas atitudes de cada um, através da nossa alegria que se contagia, respeito, gratidão, consumo consciente, enfim, da humanidade. Por tais razões surge a pergunta: Você está melhorando o mundo?

*Criador da administração científica, caracterizada pela especialização das tarefas.

Gustavo Góes

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A. Soares

A. Soares

Conforme a definição do dicionário Houaiss, esmola é a dádiva caridosa feita aos pobres. O Brasil conta com 19,3% da sua população abaixo da linha da miséria segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de 2006, o indivíduo miserável é enquadrado de acordo com a instituição quando a renda per capita do domicílio não ultrapassa R$125,00. Como se observa na definição do dicionário, a esmola não distingue a situação do indivíduo necessitado. Embora a discussão da esmola na maioria das vezes se delimita aos mendigos e pedintes de semáforos dos aglomerados urbanos, a questão é muito mais ampla e cabe a distinção dos casos para melhor compreensão e discussão do assunto.

Posta assim a questão, é de se dizer da discussão atual em relação à esmola oferecida àqueles que estão à rua, maltrapilhos e pedindo moedas. Indubitável é a necessidade deles, já que perderam a dignidade de buscar uma oportunidade que lhe ofereça sustento, ficando resignados a pedir algumas moedas em qualquer esquina por aí. Uma vertente continua sensibilizada com o que vê na rua e ajuda com algumas moedas enquanto o sinal esta no vermelho, enquanto outros insistem na ideia de que ao ajudá-los ficarão preguiçosos, não indo em busca de trabalho, e alegam que isso é um problema maior que deve ser tratado por políticas públicas. Poxa! É óbvio que é um problema maior, enorme por sinal, pois seres humanos que não tiveram um bom lar com boa formação, ou por suas limitações não alcançaram o mínimo de êxito em alguma atividade, caíram no esquecimento, provavelmente não tiveram também amparo de uma base familiar e estão as margens da sociedade.

Saliente-se ainda que a forma que se da esmola a essas pessoas em grande parte das vezes é em algumas moedas, não se pode desprezar essa ajuda é claro, já que é um gesto caridoso com o intuito de ajudar naquele momento. No entanto, isso reflete a sociedade materialista que se vive hoje, na qual se acredita que a necessidade se resume a questão financeira. É muito vago pensar dessa forma, haja vista que a pessoa “marginal” precisa da compaixão do outro, ou seja, a simpatia piedosa para com ele. Somente se colocando no lugar do outro é que se vai perceber que a necessidade também é de carinho, de um sorriso, de gestos de amor que o motivam a acreditar novamente nas belezas da vida.

À guisa de exemplo, pode-se citar a Toca de Assis, entidade que se inspirou na obra de São Francisco e se dedica ao acolhimento dos pobres, oferecendo alimentação e cuidados especiais por gestos de compaixão. A atitude dessa instituição não é unívoca, visto que setores da iniciativa privada estão há algum tempo preterindo as instituições assistencialistas a projetos de recolocação social e profissional, ou seja, incentivam o acesso ao mercado de trabalho. Esse aporte financeiro das empresas é motivado pelo retorno positivo na imagem corporativa, à medida que aliam sua comunicação como socialmente responsável apoiando projetos positivos que dão nova função as pessoas assistidas. O que leva a entender que quem ajuda instituições assistencialistas pode ter sua imagem maculada de alguma forma. Embora sejam ações necessárias, cada caso é diferente, não se pode tratar como algum certo e outro errado de maneira geral. Um velho provérbio retrata uma atitude de Maomé, quando recebeu um homem dizendo que sua família passava fome e viera pedir socorro, ele então lhe deu 2 moedas dizendo que a primeira seria para comprar comida, e a outra para a compra de um machado para cortar lenha. Depreende-se que não apenas se deve resolver o problema imediato, mas ajudar para que não se repita.

Aos que consideram a esmola como problema maior, registra-se que o Brasil teve em sua origem alguns poucos senhores feudais que detinham gigantescas áreas, e comparando-se a proporção demográfica com os dias de hoje não se vê muita diferença, já que ainda permanece no país grande parte de latifundiários que detém o poder fora das cidades, gerando riquezas a poucos e não cumprindo a função social em suas propriedades. Nessa esteira, também o estado ao longo de décadas conhece o problema, mas se omite ao não articular a reforma agrária de forma considerável, o que pulverizaria a diferença de riquezas abissal entre ricos e pobres do país.

O Brasil vem se consolidando com potencia mundial ao longo dos últimos anos, entretanto, cumpre assinalar que a grande necessidade é de se potencializar na distribuição de condições. Recentemente se viu nos noticiários a atitude do poder público no Rio de Janeiro, em que colocou divisórias nos assentos situados em áreas públicas da cidade do Rio para que andarilhos e sem tetos não se deitassem. Essa atitude maquiadora é típica nesse país, onde seus cidadãos têm o péssimo hábito de reclamarem e citarem maus exemplos, eximindo-se de responsabilidades e aguardando ações de outros. Só não se sabe quem são os outros. Urge essa mudança!

Gustavo Góes

p.s. embora o blog se intitula pense verde, o autor se sentiu no dever de publicar o presente texto entendendo que todo ser humano está inserido na natureza. Cabendo o pensamento verde ao bem comum!

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