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Posts Tagged ‘energia’

Tarsila do Amaral - Antropofagia (1929)

Nós seres humanos, bem como todas as outras espécies existentes, somos organismos dependentes de energia externa, e essa energia só se disponibiliza devido a intrincadas relações existentes entre outras espécies. Para ter isso claro, até mesmo a síntese da energia solar pelas plantas só é possível devido à interferência das bactérias há bilhões de anos atrás, quando somente elas existiam, que foram responsáveis pela alteração da composição química da atmosfera, fato que regulou a temperatura do planeta e possibilitou a emergência de novas formas de vida. Como se depreende, somos todos seres interdependentes. Mas esse fato não é algo pejorativo, do contrário, isso é a cooperação que assegura a vida. Por outro lado, tem-se que nossa espécie está a cada dia se tornando dependente de coisas criadas por nós mesmos; sistemas econômicos, TV, automóveis, medicina e até mesmo escolas são algumas dessas coisas que tiram a autonomia do ser humano.

A autonomia é a capacidade de tomar suas próprias decisões, uma peculiaridade que nós humanos temos por possuirmos a razão. Seria também uma variante de uma condição que se vê muito requisitada por povos ou nações colonizados, a liberdade, mas a autonomia é muito mais do que se libertar das amarras de um colono. Importante se faz realçar nessa linha de análise nosso caminho percorrido, a saga de cidadão “livre” começa cedo, como crianças ainda temos a ânsia e a grande energia de desvendar o mundo; nessa época somos levados a uma instituição que nos dará disciplina e regras, que nos guardará dentro de um espaço fechado que irá contrariar toda nossa espontaneidade. A escola dá a criança o quadro negro enquanto ela quer e precisa pisar na terra, subir na árvore e atravessar montanhas.

Como se percebe, a autonomia do indivíduo já é afetada desde pequeno. Tenha-se presente que alguns pensadores já lutaram e se posicionaram contra os métodos de ensino. Francisco Ferrer instituiu conceitos de pedagogia libertária, contrariando concepções de sua época criou sua Escola Moderna, mas foi executado pelo governo espanhol em 1909. Tivemos no Brasil um grande intelectual atuante em educação, Paulo Freire embora não fosse contrário as escolas, criticava, como ele mesmo dizia, a pedagogia bancária, sendo aquela que evidencia a diferença entre educador e educando, este sendo um mero depositário dos conhecimento do educador, sem poder haver discussão. Mas sem dúvida o grande crítico de instituições que atacam a autonomia humana foi Ivan Illich, este austríaco de currículo admirável teve na década de 1970 a publicação de obras pertinentes no que confere a temas da modernidade. Destaca-se: Sociedade sem Escolas (1971), Energia e Equidade (1974) e Nêmesis da Medicina (1975). Nestas três obras ele reuniu críticas às principais formas de expropriação da autonomia do ser humano. Ao abordar a educação, atacava a instituição escola, e defendia a educação informal como instrumento para o indivíduo exercer sua autonomia. Apontava o excessivo uso de energia como avassalador da liberdade do indivíduo, e nessa esteira elaborou o conceito de contra-produtividade, que é visível a nós diante dos transportes cada vez mais rápidos que em vez de soluções trazem mais problemas, percebemos isso nos engarrafamentos e acidentes. No caso da medicina ele aponta principalmente para a perda de conhecimentos tradicionais dos povos, que agora são extremamente dependentes de profissionais que se dizem conhecedores da saúde, além de que os sistemas médicos são extremamente dependentes de soluções criadas por grandes corporações farmacêuticas.

Após essas breves assertivas sobre a autonomia não é difícil imaginar como nossas decisões estão ficando cada vez mais distantes de nós. Convém assinalar que nossa espécie está se contentando apenas em decidir entre uma marca e outra dentro de um supermercado, ou então ter o controle dos canais de TV a assistir. Vale dizer também que os hábitos de lazer estão sendo direcionados aos centros de compra, situação acarretada pelo fato de nos sentirmos inseguros ou desmotivados em visitar um local natural ou alguma amenidade oferecida pelo poder público. É de ressaltar também que as ações do poder público estão menos voltadas ao cidadão do que ao setor privado, vê-se empenho na assistência à shoppings e não a praças e parques, corte de IPI e poucos investimentos em transporte público. Cumpre observar que estamos nos esbaldando da pseudo-autotomia, gerada através de um falso processo desenvolvimento econômico que além de gerar exclusão, cria uma ilusão de liberdade àqueles que estão inseridos no sistema produtivo.

Quiçá um dia possamos realmente nos desenvolver, não apenas na razão-técnica como temos hoje, mas sim de modo sistêmico, fluindo harmoniosamente o racional, emocional e espiritual. Assim então poderíamos escapar das paredes e valorizar a grande obra do Inefável, que nas coisas simples, as quais hoje desviamos o olhar, apresenta relações portentosas. Porém, vale dizer que para descobrir essas grandezas é preciso a liberdade para dialogar com a natureza. Essa habilidade que sempre foi cultivada sabiamente pelos autóctones, os povos nativos, que após noite de céu estrelado acordam com o sibilo dos pássaros e acompanham o despertar dos matizes reluzentes do nosso irmão sol. Infelizmente, nós, enquanto urbanos pós-modernos passamos a noite sob iluminação dissipativa e ineficiente que ofusca nossa visão para os corpos celestes, e nos faz enclausurarmos para na manha seguinte acordarmos com o eco dos pistões automotivos ou o atrito pneumático com o asfalto.

Gustavo Góes

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UHE Mauá

Obras da futura Usina Mauá - 2009

A matriz energética brasileira é em grande maioria composta por usinas hidrelétricas (UHE), vale dizer que recentemente o governo lançou o novo Plano Decenal de Energia, o qual continua favorecendo as UHE. Se por um lado é notória a necessidade de energia pelo país, por outro também se faz indispensável a diversificação dessa matriz. Muitos defendem que as condições do Brasil favorecem a geração por UHE, no entanto é importante o questionamento do custo ambiental desses empreendimentos, bem como o destino dessa energia gerada.

A princípio é interessante realçar os impactos causados pela construção de UHE. Num primeiro momento pessoas são manejadas de locais que passaram suas vidas inteiras, sendo obrigadas a se retirar para locais desconhecidos, contra suas vontades. Toma-se como exemplo a construção da UHE Mauá, na região central do Paraná, em que o local a ser inundado é muito acidentado e as famílias manejadas receberão como indenização um valor irrisório, que dificultará a retomada de suas vidas em outro lugar. Além disso, a região abrange algumas reservas indígenas, as quais já foram anteriormente expropriadas, além de delimitadas em áreas incompatíveis com a cultura peculiar dos índios, e que agora serão alagadas por interesses alheios.

Importante dizer que o rio em questão chama-se Tibagi, que significa na língua indígena rio de corredeiras, é de salientar ainda que essas corredeiras contribuem para a depuração da água, culminando na riqueza ecológica da região. Por outro enfoque, ao ser alagado o rio perderá seu equilíbrio, ao que grande parte dos peixes e outros organismos não se adaptarão as mudanças no ambiente novo, que segundo especialistas se transforma numa espécie de deserto, já que as espécies se concentrarão, de uma maneira geral, apenas nas margens. Registre-se ainda que a falta de depuração da água possivelmente acarretará na eutrofização, que é o excesso de matéria orgânica, e consequência disso será a baixa qualidade da água que abastece grandes cidades no entorno do Tibagi.

Cumpre observar que até pouco tempo atrás se acreditava que as UHE eram fontes limpas de energia, fato contrariamente comprovado pelo pesquisador Philip Fearnside, que nos seus estudos relata que a falta de riqueza biológica de uma região alagada artificialmente, gera emissão do gás metano, causador do Efeito Estufa, o gás não é absorvido por organismos do rio e acaba sendo emitido na atmosfera na vazão da hidrelétrica.

Não é pacífica a presente questão, haja vista a dependência energética da sociedade moderna, todavia é imprescindível a seriedade ao tratar tal tema já que as decisões tomadas são de longo prazo e afetarão gerações futuras. Ao analisar o Plano Decenal de Energia, lançado no início do ano corrente, percebe-se o fundamentalismo do governo, não priorizando fontes limpas. Conforme reportagem do Estado de São Paulo, estudos apontam que a matriz energética brasileira poderia ser composta em 60% pelos ventos, fonte limpa que corresponde hoje a menos de 2% da matriz. Enquanto, à guisa de exemplo, os EUA estão investindo em novas gerações 42% em energia eólica, o Brasil prioriza em seu plano as fontes sujas, como as termelétricas e as UHE, estas que além da emissão de gases geram enormes impactos ambientais.

Posta assim a questão, faz-se necessário entender também o destino da energia a ser gerada, já que a justificativa dos governantes para as obras, aponta para o desenvolvimento e a geração de empregos. Segundo Célio Bernann, pesquisador da USP em energia, em torno de 30% do consumo brasileiro se dá pelo setor eletro-intensivo, formado por indústrias de base que exportam produtos primários, como celulose e lingotes de alumínio, dentre outros. O pesquisador aponta a sociedade como refém desse setor, o qual já recebe grandes subsídios e que a contrapartida é muito pequena, isto é, são muito poucos empregos gerados e encargos recolhidos, já que a matéria-prima é exportada sem valor agregado. Em outras palavras, essa energia é gerada a custa de grandes impactos, e acaba promovendo riquezas a outros países, pois nesses que os produtos são acabados.

Diante de tal conjuntura, é preciso emergir atitudes de vanguarda, com respeito aos cidadãos e a natureza, sabe-se que aproximadamente 30% da energia consumida numa residência de classe média são gastos por chuveiros elétricos. Se as autoridades usassem o montante de 1bilhão, que está previsto na construção da UHE Mauá, em incentivos as famílias para a compra de aquecedores solares, não seria preciso a construção de mais uma usina, já que o consumo diminuiria significativamente. Decisões são simples assim, reduzir consumo de um lado produzindo renda sustentável do outro, sem grandes agressões ao meio ambiente. Acontece que do lado “produtor” encontra-se o oligopólio das grandes construtoras desse país, e alguma delas está sendo premiada com tal quantia de 1 bilhão.

Gustavo Góes

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