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Cândido Portinari - Meninos Brincando (1958)

Vivemos num mundo onde mais de um bilhão de pessoas sofrem de fome crônica, e longe desses famintos, no país mais poderoso deste mesmo planeta, recentemente se distribuiu em dinheiro público uma ajuda de 700 bilhões de dólares. Cabe ressaltar, no entanto, que esse dinheiro não foi para saciar a fome de ninguém, nem tampouco para atender os trabalhadores estadunidenses que foram avassalados pela crise imobiliária daquele país; essa ajuda foi destinada a instituições financeiras, as responsáveis por uma das maiores crises econômico-financeiras da história. Convém, nesse momento, questionarmos como é possível haver tais extremos? Como pode uma espécie que se desenvolveu e se humanizou por meio da socialização vinda do cuidado criar tantas barreiras e egoísmo entre seus irmãos?

Nós humanos temos uma peculiaridade como espécie, somos permeados pelo cuidado desde a concepção, antes mesmo de nascer cria-se o vínculo mãe-filho devido às 38 semanas de gestação. Mesmo com todo esse tempo o bebê nasce debilitado e requer atenção por um longo tempo. Esse tempo de convívio entre mãe e filho é que fez surgirem as famílias, e como consequência desse acompanhamento surgiu a vida social. Como se há de verificar, o que conhecemos hoje como sociedades só foi possível devido a essas características específicas humanas. É nessa linha de análise que alguns filósofos destacam o cuidado como a essência do ser humano, antes mesmo da vontade e da inteligência. Leonardo Boff, teólogo e filósofo, nos aponta que o cuidado é a base da sociedade, ou seja, as relações, a política e a ética estão imbuídas desse cuidado essencial.

Mas então porque será que vivemos com tantas desigualdades em nosso mundo? Por que o governo dos EUA preteriu os trabalhadores e dispensou quantias vultuosas à um bando de engravatados de Wall Street? Estaríamos perdendo o cuidado? A resposta é não! Sem dúvida nossa civilização o está usando muito pouco e em formas novas, como a ajuda aos bancos, mas não perdemos o cuidado. O que podemos questionar é a forma com que estamos usando essa virtude. Nos dias atuais se privilegia a competição em vez da cooperação, aquela que toma o tempo das pessoas e beneficia a poucos. A competição enxerga o outro como concorrente, ela está arraigada em toda a cultura ocidental e nos está tirando o senso de fraternidade e o respeito para com a terra, dádivas que nos fizeram desenvolvermos como espécie. Talvez esse espírito de competitividade esteja fazendo com que a maioria de nós dispense cuidados apenas a animais de estimação e bens materiais.

Como podemos depreender, a competição propicia a individualidade. Nos dias de hoje temos carência de pessoas se esforçando juntas para os bens comuns, enquanto as praças e as assembleias comunitárias estão vazias as salas de TV reúnem cada vez mais adeptos, espaços esses em que não há relacionamento. Nessa esteira podemos observar atualmente a carência de expressões cuidadosas, porém, num outro enfoque, surgem o que podemos apresentar como pseudo-cuidados, isto é, atitudes mascaradas de cuidado que exploram a essência cuidadosa do ser humano e sua individualidade crescente.  Como ótimo exemplo disso destacamos um jogo que faz grande sucesso na comunidade sociovirtual Orkut, o Colheita Feliz, no qual o jogador pode cuidar de uma fazenda (virtual) com seus cultivos e criação de animais. O Jogo explora a capacidade de cuidado do indivíduo e ao mesmo tempo aliena-o, pois requer grande atenção do mesmo para com possíveis “intrusos” (outros jogadores do Orkut) que possam se infiltrar em sua fazenda para tomar os frutos da mesma.

Como se observa, o cuidado é mesmo essencial e sempre estará presente nas ações humanas. Entretanto a forma descrita acima é uma péssima expressão de cuidado de modo que toma o tempo de jovens que cada vez mais se distanciam da natureza e se enclausuram em ambientes fechados de frente a uma tela de computador. Talvez esse jogo tenha tanto sucesso, sobretudo com os jovens, devido ao fato dos alimentos chegarem a suas casas empacotados e sem referência da sua produção, criando barreiras entre a fertilidade da terra e a coisificação* da vida urbana.

Não duvido que à exemplo do jogo, que virtualiza o cultivo, daqui a alguns anos os modernos supermercados também “coisifiquem” a venda de seus hortifrutis, quando de modo a exemplificar a colheita poderão incluir o “cuidado” em suas gôndolas, nas quais haverão “pés” de mandioca junto ao produto embalado, podendo assim o cliente se sentir tranquilo ao conhecer e tocar a planta viva. Possivelmente esse estabelecimento viraria case de revista e sua fama se espalharia pelas redondezas, enquanto o produtor da mandioca continua sua frequente sina de atolar sua camionete nas desprezadas estradas rurais do município.

Podemos refletir, em virtude dessas considerações, que o cuidado não apenas está em nós, mas que somos o próprio cuidado.  Como os filósofos destacam, o cuidado é intrínseco ao comportamento humano. Tenha-se presente, no entanto, que nossa civilização atual o está utilizando de forma egoísta, deixando de lado expressões cuidadosas coletivas e fraternas e dando lugar ao individualismo. Para enfrentarmos as tribulações vindouras nos cabe resgatar o cuidado presente em cada um, e expressá-lo por meio da cooperação e não da competição.

Gustavo Góes

*redução do ser humano, suas características e relações, a seres que se comportam como coisas e objetos.

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Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

A vida inteligente em nosso planeta conseguiu recentemente mais um feito, alcançamos já em 25 de setembro o uso dos recursos naturais necessários para o ano todo. Essa marca é contabilizada pela Global Footprint Network levando em conta os recursos para atender as demandas humanas, não só alimentação como também todo tipo de produto e serviços com suas respectivas energias utilizadas. É de se ressaltar a importância desse dado já que estamos extraindo mais do que Gaia nos fornece.

Para entendermos melhor essa conta negativa, basta olharmos os desequilíbrios diários que a natureza sofre. O grande exemplo é o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera, este gás é essencial para a vida na Terra, no entanto após a Revolução Industrial vem sendo emitido de forma exponencial pelas atividades humanas, sendo um dos principais gases que acarreta no aumento do efeito estufa, consequentemente o que conhecemos por mudanças climáticas. Tal desequilíbrio é o mais alarmante e por isso mais presente na mídia comum, entretanto convém ressaltar que pagamos a conta do uso superior dos recursos também com a poluição hídrica, desertificação, perda da biodiversidade, entre outros. Cumpre observar que toda essa conjuntura deverá refletir em inúmeros desastres ambientais num futuro não muito distante.

Vale dizer que dias atrás a ONU apontou que em 2050 dever-se-á produzir 70% mais alimento que hoje para atender a população mundial naquele ano. Mesmo sabendo de tais previsões e já com mais de um bilhão de indivíduos passando fome pelo mundo nossos lideres ainda insistem no ‘’crescimento’’ econômico, num modelo excludente e que trata a miséria e a degradação ambiental como externalidade. Talvez a humanidade esteja corrompida pelo pensamento positivo pregado nos atuais livros de auto-ajuda, podemos estar imaginando que a tecnologia evoluirá ao ponto de produzir alimento para o mundo com condições cada vez piores, ou ate mesmo colocamos esperança de encontrar outro planeta habitável no universo para nos transportar. Tomemos cuidado com a crença de que o pensamento positivo sozinho possa nos trazer o bem, lembro a filosofia estóica que coloca como mister a preparação para os males, convém assinalar que ela aborda essa questão diferenciando os males inevitáveis dos que estão ao nosso alcance. Os primeiros, segundo os estóicos, sem dúvida não devemos tê-los em preocupação devido à falta de autonomia diante de tais acontecimentos, é o caso da morte, por exemplo, pensamentos amargos a respeito só nos trará infortúnios. Entretanto outros males podemos levar em consideração e nos prepararmos melhor para enfrentá-los, isto é, aqueles quais podemos ter controle.

O que pretendo elucidar com as considerações acima é que levemos a sério o uso de nossas fontes da vida, esse estresse que estamos causando no ambiente reflete na miséria atual dos países pobres e com o passar dos tempos cada vez mais pessoas serão atingidas pelas mutações de Gaia. É importante que estejamos preparados para esses males, assim como se faz indispensável saber que os famintos do mundo são um problema evitável, ao pararmos de consumir mais que o necessário estaremos contribuindo para que mais pessoas tenham acesso a alimento.

Gustavo Góes

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A. Soares

A. Soares

Conforme a definição do dicionário Houaiss, esmola é a dádiva caridosa feita aos pobres. O Brasil conta com 19,3% da sua população abaixo da linha da miséria segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de 2006, o indivíduo miserável é enquadrado de acordo com a instituição quando a renda per capita do domicílio não ultrapassa R$125,00. Como se observa na definição do dicionário, a esmola não distingue a situação do indivíduo necessitado. Embora a discussão da esmola na maioria das vezes se delimita aos mendigos e pedintes de semáforos dos aglomerados urbanos, a questão é muito mais ampla e cabe a distinção dos casos para melhor compreensão e discussão do assunto.

Posta assim a questão, é de se dizer da discussão atual em relação à esmola oferecida àqueles que estão à rua, maltrapilhos e pedindo moedas. Indubitável é a necessidade deles, já que perderam a dignidade de buscar uma oportunidade que lhe ofereça sustento, ficando resignados a pedir algumas moedas em qualquer esquina por aí. Uma vertente continua sensibilizada com o que vê na rua e ajuda com algumas moedas enquanto o sinal esta no vermelho, enquanto outros insistem na ideia de que ao ajudá-los ficarão preguiçosos, não indo em busca de trabalho, e alegam que isso é um problema maior que deve ser tratado por políticas públicas. Poxa! É óbvio que é um problema maior, enorme por sinal, pois seres humanos que não tiveram um bom lar com boa formação, ou por suas limitações não alcançaram o mínimo de êxito em alguma atividade, caíram no esquecimento, provavelmente não tiveram também amparo de uma base familiar e estão as margens da sociedade.

Saliente-se ainda que a forma que se da esmola a essas pessoas em grande parte das vezes é em algumas moedas, não se pode desprezar essa ajuda é claro, já que é um gesto caridoso com o intuito de ajudar naquele momento. No entanto, isso reflete a sociedade materialista que se vive hoje, na qual se acredita que a necessidade se resume a questão financeira. É muito vago pensar dessa forma, haja vista que a pessoa “marginal” precisa da compaixão do outro, ou seja, a simpatia piedosa para com ele. Somente se colocando no lugar do outro é que se vai perceber que a necessidade também é de carinho, de um sorriso, de gestos de amor que o motivam a acreditar novamente nas belezas da vida.

À guisa de exemplo, pode-se citar a Toca de Assis, entidade que se inspirou na obra de São Francisco e se dedica ao acolhimento dos pobres, oferecendo alimentação e cuidados especiais por gestos de compaixão. A atitude dessa instituição não é unívoca, visto que setores da iniciativa privada estão há algum tempo preterindo as instituições assistencialistas a projetos de recolocação social e profissional, ou seja, incentivam o acesso ao mercado de trabalho. Esse aporte financeiro das empresas é motivado pelo retorno positivo na imagem corporativa, à medida que aliam sua comunicação como socialmente responsável apoiando projetos positivos que dão nova função as pessoas assistidas. O que leva a entender que quem ajuda instituições assistencialistas pode ter sua imagem maculada de alguma forma. Embora sejam ações necessárias, cada caso é diferente, não se pode tratar como algum certo e outro errado de maneira geral. Um velho provérbio retrata uma atitude de Maomé, quando recebeu um homem dizendo que sua família passava fome e viera pedir socorro, ele então lhe deu 2 moedas dizendo que a primeira seria para comprar comida, e a outra para a compra de um machado para cortar lenha. Depreende-se que não apenas se deve resolver o problema imediato, mas ajudar para que não se repita.

Aos que consideram a esmola como problema maior, registra-se que o Brasil teve em sua origem alguns poucos senhores feudais que detinham gigantescas áreas, e comparando-se a proporção demográfica com os dias de hoje não se vê muita diferença, já que ainda permanece no país grande parte de latifundiários que detém o poder fora das cidades, gerando riquezas a poucos e não cumprindo a função social em suas propriedades. Nessa esteira, também o estado ao longo de décadas conhece o problema, mas se omite ao não articular a reforma agrária de forma considerável, o que pulverizaria a diferença de riquezas abissal entre ricos e pobres do país.

O Brasil vem se consolidando com potencia mundial ao longo dos últimos anos, entretanto, cumpre assinalar que a grande necessidade é de se potencializar na distribuição de condições. Recentemente se viu nos noticiários a atitude do poder público no Rio de Janeiro, em que colocou divisórias nos assentos situados em áreas públicas da cidade do Rio para que andarilhos e sem tetos não se deitassem. Essa atitude maquiadora é típica nesse país, onde seus cidadãos têm o péssimo hábito de reclamarem e citarem maus exemplos, eximindo-se de responsabilidades e aguardando ações de outros. Só não se sabe quem são os outros. Urge essa mudança!

Gustavo Góes

p.s. embora o blog se intitula pense verde, o autor se sentiu no dever de publicar o presente texto entendendo que todo ser humano está inserido na natureza. Cabendo o pensamento verde ao bem comum!

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