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Posts Tagged ‘Gaia’

Constelación: despertando al amanecer

Joan Miró - Constelación: despertando al amanecer (1944)

Aproximadamente um bilhão de anos após a formação do planeta Terra a vida se fez presente e, ao longo do tempo, vem evoluindo através de complexos processos ecológicos. Podemos dizer hoje que a vida está presente em qualquer canto desse mundo, desde as milhares de espécies de bactérias que se encontram no solo, juntamente aos fungos, cooperando para a fertilidade da terra, até as grandes plantas e mamíferos, e ainda a grande biodiversidade existente nos ecossistemas marítimos.

É incomensurável a riqueza da biodiversidade, tanto que, no que diz respeito apenas à descrição e classificação das espécies, taxonomistas1 têm catalogado até os dias atuais cerca de 1.4 milhões de espécies e estima-se que existam no mínimo 10 milhões ainda não descritas.

Vale dizer que a diversidade da vida concentra-se, sobretudo em regiões tropicais. Existem 17 países que abrigam 70% da biodiversidade do nosso planeta, são eles conhecidos como Megadiversos2. No entanto, alguns desses países têm suas florestas ceifadas continuamente. Seja pela pressão por áreas para o cultivo de dendê na ilha de Sumatra na Indonésia, a exploração madeireira na República Democrática do Congo ou o aumento da fronteira agropecuária na Amazônia brasileira; o desflorestamento dessas regiões riquíssimas está destruindo o hábitat de milhões de criaturas que nem ao menos conhecemos, e por conta dessa destruição covarde, pesquisadores renomados apontam que ecossistemas podem, em breve, entrarem em colapso.  Como exemplo pode-se citar o risco de pelo menos parte da Amazônia ser transformado em uma savana.

Nessa esteira, há algumas décadas alguns campos da ciência estão se emancipando da visão positivista e vêm incorporando aspectos sistêmicos, ressaltando e comprovando a dependência da vida humana perante o equilíbrio do planeta. A economia ecológica, por exemplo, busca dar valor monetário aos serviços ambientais prestados, evidenciando que são processos ecológicos que culminam na vida humana. Não custa lembrar a Teoria de Gaia, desenvolvida pelo climatologista James Lovelock e a microbiologista Lynn Margulis, que ao longo dos anos vêm comprovando a hipótese de que a Terra é um grande organismo vivo, isto é, tudo que nela existe está inextricavelmente interligado e coopera (ou não) para a sua manutenção.

Destaca-se que assim como nós, enquanto organismos vivos, a Terra sofre de alguns patógenos3, ela pode ter sido perturbada por asteróides algumas vezes, mas atualmente ela está sofrendo internamente, isto é, as atividades humanas aceleraram os níveis de extinção4 em 1000 vezes, ou seja, é a mesma coisa que algum microorganismo interno nosso esteja destruindo células essenciais ao funcionamento do nosso corpo.

Em vista dessas considerações, é importante assinalar que o reconhecimento da importância da conservação da biodiversidade e de ações que visem à manutenção da vida não é um processo de cima para baixo, no qual a ciência e a política  devam resolver, mas antes uma questão de ética, na qual a coletividade assimile valores holísticos e de irmandade para com a natureza.

Séculos atrás, sem a existência da pressão de movimentos ambientalistas e nem crise ecológica, movido apenas pelo seu amor e afeição, um indivíduo chamado Francisco de Assis reconhecia a importância de todas as criaturas, seja na Terra ou no céu, e chamava a todas de irmãs ou irmãos. Cumpre dizer, por derradeiro, que seja através da espiritualidade ou da reflexão crítica, urge uma nova ética fundada na pertença a um sistema emaranhado de cooperação que sustenta a vida.

Gustavo Góes


1 profissionais responsáveis pela identificação, descrição e classificação dos seres vivos.

2 grupo de países que abrigam o maior índice de biodiversidade da Terra, a saber: Austrália, Brasil, China, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Filipinas, Indonésia, Índia, Madagascar, Malásia, México, Papua Nova Guiné, Peru, República Democrática do Congo, África do Sul e Venezuela.

3 agente capaz de desencadear doenças.

4 extinções ocorrem normalmente na natureza, mas dentro de certos limites.

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Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

A vida inteligente em nosso planeta conseguiu recentemente mais um feito, alcançamos já em 25 de setembro o uso dos recursos naturais necessários para o ano todo. Essa marca é contabilizada pela Global Footprint Network levando em conta os recursos para atender as demandas humanas, não só alimentação como também todo tipo de produto e serviços com suas respectivas energias utilizadas. É de se ressaltar a importância desse dado já que estamos extraindo mais do que Gaia nos fornece.

Para entendermos melhor essa conta negativa, basta olharmos os desequilíbrios diários que a natureza sofre. O grande exemplo é o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera, este gás é essencial para a vida na Terra, no entanto após a Revolução Industrial vem sendo emitido de forma exponencial pelas atividades humanas, sendo um dos principais gases que acarreta no aumento do efeito estufa, consequentemente o que conhecemos por mudanças climáticas. Tal desequilíbrio é o mais alarmante e por isso mais presente na mídia comum, entretanto convém ressaltar que pagamos a conta do uso superior dos recursos também com a poluição hídrica, desertificação, perda da biodiversidade, entre outros. Cumpre observar que toda essa conjuntura deverá refletir em inúmeros desastres ambientais num futuro não muito distante.

Vale dizer que dias atrás a ONU apontou que em 2050 dever-se-á produzir 70% mais alimento que hoje para atender a população mundial naquele ano. Mesmo sabendo de tais previsões e já com mais de um bilhão de indivíduos passando fome pelo mundo nossos lideres ainda insistem no ‘’crescimento’’ econômico, num modelo excludente e que trata a miséria e a degradação ambiental como externalidade. Talvez a humanidade esteja corrompida pelo pensamento positivo pregado nos atuais livros de auto-ajuda, podemos estar imaginando que a tecnologia evoluirá ao ponto de produzir alimento para o mundo com condições cada vez piores, ou ate mesmo colocamos esperança de encontrar outro planeta habitável no universo para nos transportar. Tomemos cuidado com a crença de que o pensamento positivo sozinho possa nos trazer o bem, lembro a filosofia estóica que coloca como mister a preparação para os males, convém assinalar que ela aborda essa questão diferenciando os males inevitáveis dos que estão ao nosso alcance. Os primeiros, segundo os estóicos, sem dúvida não devemos tê-los em preocupação devido à falta de autonomia diante de tais acontecimentos, é o caso da morte, por exemplo, pensamentos amargos a respeito só nos trará infortúnios. Entretanto outros males podemos levar em consideração e nos prepararmos melhor para enfrentá-los, isto é, aqueles quais podemos ter controle.

O que pretendo elucidar com as considerações acima é que levemos a sério o uso de nossas fontes da vida, esse estresse que estamos causando no ambiente reflete na miséria atual dos países pobres e com o passar dos tempos cada vez mais pessoas serão atingidas pelas mutações de Gaia. É importante que estejamos preparados para esses males, assim como se faz indispensável saber que os famintos do mundo são um problema evitável, ao pararmos de consumir mais que o necessário estaremos contribuindo para que mais pessoas tenham acesso a alimento.

Gustavo Góes

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O renomado pesquisador James Lovelock conseguiu ao longo de décadas comprovar que nosso planeta é um superorganismo. Ele denominou de Gaia e o que antes era apenas hipótese hoje já se consagra como teoria; seria então a Terra, assim como nós humanos, um conjunto de “órgãos” que formam o todo. Cumpre assinalar, todavia, que assim como o câncer aflige o homem, Gaia pode estar ciente de que o homem seja a sua doença letal, e por meio do nosso estilo de vida “moderno” estamos sendo inoportunos com ela. É de se ressaltar, entretanto, que nossa espécie recebe o nome de homo sapiens, e essa sabedoria que levamos no nome é a única força que nos indicará o caminho da harmonia com Gaia.

Nessa linha de análise o pensamento de respeito para com nosso planeta vem ganhando cada dia mais destaque, porém é necessário dizer que um longo caminho ainda deve ser percorrido, pois temos na sociedade um grande conflito de atitudes. Por um lado tem-se o indivíduo consciente, ou ambientalista, que quer salvar o planeta, mas suas melhores intenções acabam figurando solitárias pois seus vizinhos permanecem na mesma.  Por outro lado tais vizinhos juntos ao restante da sociedade continuam com a visão arcaica de crescimento, na qual o sistema privado tem como objetivo principal a quantificação do faturamento apenas, negligenciando o bem estar dos seus colaboradores e interessados.

Vale dizer que essa visão antiquada descrita acima pode ser constatada justamente na organização que representa os interesses dos cidadãos. No país onde existe o PAC, com seus projetos dignos do século XIX, identificamos o quão grande é o desafio da sustentabilidade. Já dizia Thomas Jefferson que “é tolo a sociedade apegar-se a velhas ideias em novos tempos, como é tolo um homem tentar vestir suas roupas de criança.”

Não se pode perder de vista que enquanto os ambientalistas permanecerem solitários, serão apenas esforçados compensadores das ações alheias, e esses esforços são muito úteis, no entanto insuficientes. A verdadeira sustentabilidade somente será possível quando os tomadores de decisão se libertarem do paradigma quanti, emergindo então a sociedade pós-industrial com o paradigma quali.

Gustavo Góes

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Preciosa é a contribuição de Platão, filósofo grego, ao relatar em A Parábola da Caverna, a complexidade que a “visão ofuscada” traz ao homem. De forma sucinta, ele aborda que ao se deparar com drásticas alterações em seu cotidiano, convém ao indivíduo se identificar no novo patamar, compreendendo gradativamente os novos fatores que vão o interferir. Porém, no intuito de passar o conhecimento adquirido aos seus companheiros de caverna, ele é denominado aventureiro, devido ao ceticismo dos outros em relação ao novo. Platão, com essa estória que perdurou gerações, descreveu sua época, na qual seus conterrâneos se guiavam apenas pelo senso comum, permanecendo na ignorância. Paradoxalmente, o filósofo era o indivíduo que se libertava da escuridão à procura da luz da verdade. A luz significa o conhecimento, e à medida que o adquire, o homem deixa de lado conveniências e alienações, tendo uma compreensão maior dos fatos que acontecem em sua vida.

Nessa linha de análise, Maurício de Souza ilustrou seu personagem Piteco, que vive ambientado na idade da pedra, no quadrinho As Sombras da Vida. O autor, fazendo analogia às idéias de Platão, conta de forma mais positiva a libertação, de forma que os personagens alienados saem da caverna por interferência Piteco, que se esforça a mostrar a verdadeira vida que não conhecem. Eles então, após um primeiro momento de cegueira pela superexposição de luz, se encantam com as paisagens novas e a riqueza de vida. Nessa esteira, o quadrinho finaliza com o protagonista evoluindo até os dias atuais, no qual se depara com personagens que, ao invés da caverna com sombras, estão alienados com a televisão.

Outro autor contemporâneo aproveitou a premissa de Platão. No livro Quem mexeu no meu queijo, Spencer Johnson descreve comportamentos peculiares do ser humano. Exemplificado em quatro personagens, começa por dois duendes, que demonstram a acomodação das pessoas ao se depararem com tribulações. Num primeiro exemplo, o duende fica lamentando os problemas encontrados, e só depois de um bom tempo volta a acreditar em si mesmo, se preparando e saindo a procura de soluções. Este, com mais iniciativa, tenta convencer seu companheiro da necessidade de se adaptar as mudanças, todavia, o outro personagem, além de se queixar, ainda carrega vários medos do que pode encontrar, se sair do seu mundinho de conveniências, então prefere permanecer. Por outro enfoque, os outros dois personagens são ratinhos com atitudes mais positivas diante dos problemas enfrentados. O desenlace que o livro salienta é a crítica das atitudes dos homens, que se esmorecem com as dificuldades e demoram a procurar novos rumos, sendo que poderiam ser mais práticos e positivos.

Posta assim a questão, é possível constatar nos dias atuais várias questões que turvam a sabedoria do homem. A que mais aterroriza a humanidade, ao menos deveria, é a forma desenfreada de exploração dos recursos naturais do planeta. A mesma sociedade da informação, ou do conhecimento, como é assim denominada; é a responsável por consumir 130% dos recursos da Terra. Ou seja, esta se consumindo do planeta mais do que ele é capaz de se auto-regenerar. São dados da WWF, entidade não governamental que atua mundialmente a favor da proteção da natureza. Ela divulgou o relatório Planeta Vivo 2008, onde apresenta através de resultados de pesquisas, números alarmantes do uso das riquezas naturais.

Se por um lado a sociedade moderna se desenvolveu tecnologicamente alcançando inúmeros avanços, por outro, quem sofreu as baixas foi a grande Casa mantenedora das riquezas, a Terra. Nunca é demais lembrar que tudo que se consome vem de alguma parte do planeta, e essa exploração desenfreada chegou a tal ponto devido à negligência de comunidades que adotaram estilos de vida altamente consumistas. Tudo que seu dinheiro pode comprar, ele o faz, sem pensar de onde veio e quais efeitos causaram o ciclo de produção daquele produto. No rótulo de uma mercadoria não vêm descritos os impactos de sua produção, se por exemplo a energia utilizada veio de uma hidrelétrica que acabou com a história de ribeirinhos que tiveram que se mudar do local onde passaram suas vidas, ou culminou na perda da biodiversidade de uma região.

Como se há de verificar, o sistema econômico utilizado nos dias de hoje se tornou insustentável, à medida que a população é mantida por produtos e serviços que não contabilizam os custos e déficits ambientais. Quando foi criada, a economia se tratava da técnica que visava atender as necessidades da humanidade, com comunidades distribuídas geograficamente e suas respectivas peculiaridades. Aconteceu que no mundo moderno o capitalismo não só atendeu as necessidades do humano, como também se impregnou em grande parte da estrutura social, como a política, ética e a ciência.

Cumpre observar, todavia, a existência de esforços para mudança de paradigmas. Foi com essa intenção que surgiu o termo sustentabilidade, segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem, “é a qualidade de se auto-sustentar sem agredir os recursos naturais, mantendo o meio-ambiente sadio e equilibrado para as presentes e futuras gerações.” Adaptando-se ao capitalismo adveio o termo desenvolvimento-sustentável, que é cercado de controvérsias, de acordo com o filósofo e teólogo Leonardo Boff “é uma contradição, pois, os dois termos se rejeitam mutuamente. A categoria ‘desenvolvimento’ provém da área da economia dominante. Ela obedece à lógica férrea da maximalização dos benefícios com a minimalização dos custos e do tempo empregado. A categoria ‘sustentabilidade’ provém do âmbito da biologia e da ecologia, cuja lógica é contrária àquela deste tipo de ‘desenvolvimento’”.

Como remate é importante frisar a importância de se mudar rumos e empregar a sustentabilidade, através de educação e consciência ambiental, potencializando o cuidado com a grande fonte de vida que é a Terra. Platão possivelmente diria que a sustentabilidade é a luz para o ser humano se libertar do sombrio consumismo que devasta e saqueia as riquezas do planeta sem nenhum pudor.

Gustavo Góes


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