Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘mito da caverna’


untitled2

Preciosa é a contribuição de Platão, filósofo grego, ao relatar em A Parábola da Caverna, a complexidade que a “visão ofuscada” traz ao homem. De forma sucinta, ele aborda que ao se deparar com drásticas alterações em seu cotidiano, convém ao indivíduo se identificar no novo patamar, compreendendo gradativamente os novos fatores que vão o interferir. Porém, no intuito de passar o conhecimento adquirido aos seus companheiros de caverna, ele é denominado aventureiro, devido ao ceticismo dos outros em relação ao novo. Platão, com essa estória que perdurou gerações, descreveu sua época, na qual seus conterrâneos se guiavam apenas pelo senso comum, permanecendo na ignorância. Paradoxalmente, o filósofo era o indivíduo que se libertava da escuridão à procura da luz da verdade. A luz significa o conhecimento, e à medida que o adquire, o homem deixa de lado conveniências e alienações, tendo uma compreensão maior dos fatos que acontecem em sua vida.

Nessa linha de análise, Maurício de Souza ilustrou seu personagem Piteco, que vive ambientado na idade da pedra, no quadrinho As Sombras da Vida. O autor, fazendo analogia às idéias de Platão, conta de forma mais positiva a libertação, de forma que os personagens alienados saem da caverna por interferência Piteco, que se esforça a mostrar a verdadeira vida que não conhecem. Eles então, após um primeiro momento de cegueira pela superexposição de luz, se encantam com as paisagens novas e a riqueza de vida. Nessa esteira, o quadrinho finaliza com o protagonista evoluindo até os dias atuais, no qual se depara com personagens que, ao invés da caverna com sombras, estão alienados com a televisão.

Outro autor contemporâneo aproveitou a premissa de Platão. No livro Quem mexeu no meu queijo, Spencer Johnson descreve comportamentos peculiares do ser humano. Exemplificado em quatro personagens, começa por dois duendes, que demonstram a acomodação das pessoas ao se depararem com tribulações. Num primeiro exemplo, o duende fica lamentando os problemas encontrados, e só depois de um bom tempo volta a acreditar em si mesmo, se preparando e saindo a procura de soluções. Este, com mais iniciativa, tenta convencer seu companheiro da necessidade de se adaptar as mudanças, todavia, o outro personagem, além de se queixar, ainda carrega vários medos do que pode encontrar, se sair do seu mundinho de conveniências, então prefere permanecer. Por outro enfoque, os outros dois personagens são ratinhos com atitudes mais positivas diante dos problemas enfrentados. O desenlace que o livro salienta é a crítica das atitudes dos homens, que se esmorecem com as dificuldades e demoram a procurar novos rumos, sendo que poderiam ser mais práticos e positivos.

Posta assim a questão, é possível constatar nos dias atuais várias questões que turvam a sabedoria do homem. A que mais aterroriza a humanidade, ao menos deveria, é a forma desenfreada de exploração dos recursos naturais do planeta. A mesma sociedade da informação, ou do conhecimento, como é assim denominada; é a responsável por consumir 130% dos recursos da Terra. Ou seja, esta se consumindo do planeta mais do que ele é capaz de se auto-regenerar. São dados da WWF, entidade não governamental que atua mundialmente a favor da proteção da natureza. Ela divulgou o relatório Planeta Vivo 2008, onde apresenta através de resultados de pesquisas, números alarmantes do uso das riquezas naturais.

Se por um lado a sociedade moderna se desenvolveu tecnologicamente alcançando inúmeros avanços, por outro, quem sofreu as baixas foi a grande Casa mantenedora das riquezas, a Terra. Nunca é demais lembrar que tudo que se consome vem de alguma parte do planeta, e essa exploração desenfreada chegou a tal ponto devido à negligência de comunidades que adotaram estilos de vida altamente consumistas. Tudo que seu dinheiro pode comprar, ele o faz, sem pensar de onde veio e quais efeitos causaram o ciclo de produção daquele produto. No rótulo de uma mercadoria não vêm descritos os impactos de sua produção, se por exemplo a energia utilizada veio de uma hidrelétrica que acabou com a história de ribeirinhos que tiveram que se mudar do local onde passaram suas vidas, ou culminou na perda da biodiversidade de uma região.

Como se há de verificar, o sistema econômico utilizado nos dias de hoje se tornou insustentável, à medida que a população é mantida por produtos e serviços que não contabilizam os custos e déficits ambientais. Quando foi criada, a economia se tratava da técnica que visava atender as necessidades da humanidade, com comunidades distribuídas geograficamente e suas respectivas peculiaridades. Aconteceu que no mundo moderno o capitalismo não só atendeu as necessidades do humano, como também se impregnou em grande parte da estrutura social, como a política, ética e a ciência.

Cumpre observar, todavia, a existência de esforços para mudança de paradigmas. Foi com essa intenção que surgiu o termo sustentabilidade, segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem, “é a qualidade de se auto-sustentar sem agredir os recursos naturais, mantendo o meio-ambiente sadio e equilibrado para as presentes e futuras gerações.” Adaptando-se ao capitalismo adveio o termo desenvolvimento-sustentável, que é cercado de controvérsias, de acordo com o filósofo e teólogo Leonardo Boff “é uma contradição, pois, os dois termos se rejeitam mutuamente. A categoria ‘desenvolvimento’ provém da área da economia dominante. Ela obedece à lógica férrea da maximalização dos benefícios com a minimalização dos custos e do tempo empregado. A categoria ‘sustentabilidade’ provém do âmbito da biologia e da ecologia, cuja lógica é contrária àquela deste tipo de ‘desenvolvimento’”.

Como remate é importante frisar a importância de se mudar rumos e empregar a sustentabilidade, através de educação e consciência ambiental, potencializando o cuidado com a grande fonte de vida que é a Terra. Platão possivelmente diria que a sustentabilidade é a luz para o ser humano se libertar do sombrio consumismo que devasta e saqueia as riquezas do planeta sem nenhum pudor.

Gustavo Góes


Anúncios

Read Full Post »