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Posts Tagged ‘produção de alimentos’

ervas benéficas Nicholas Roerich

Nicholas Röerich - Beneficial Herbs (1941)

Durante as décadas de 1960 e 1970 países até então menos desenvolvidos, como o Brasil, passaram por um período conhecido como revolução verde. Este se define como a difusão de tecnologias para a agricultura, como por exemplo, maquinário, novas sementes e produtos químicos para combate à pragas. Anos mais tarde, outro grande marco na agricultura foi o desenvolvimento dos Organismos Geneticamente Modificados (OGM). É importante assinalar que tais acontecimentos transformaram o mundo em que vivemos. Se por um lado uns defendem que a agricultura pode então aumentar exponencialmente sua produção e alimentar a demanda que também vinha crescendo, por outro lado essa nova agricultura proporcionou a concentração de terras e o êxodo rural, culminando no aumento da miséria e exclusão social.

A revolução verde em nosso país teve ação direta do estado, haja vista que as instituições bancárias somente forneciam empréstimos com a apresentação, pelo agricultor, de notas comprovando o uso de adubos químicos e sementes produzidas pelas multinacionais. Vale ressaltar a dificuldade do agricultor que permanecia com suas técnicas tradicionais, pois não se concedia crédito a quem permanecia usando esterco e sementes “crioulas” nessa época. É de se verificar que tal conjuntura contribuiu para a expansão rápida dessas novas técnicas de produção agrícola, pois o argumento para o uso dos produtos químicos, herbicidas e inseticidas, era o de acabar com as pragas na lavoura. Sem dúvida que na época isso foi um grande atrativo, visto que percebeu-se no curto prazo a eficiência dos produtos, no entanto, verificou-se posteriormente que essas pragas se adaptaram aos “venenos” e se tornaram cada vez mais resistentes, acarretando na necessidade maior do uso dos defensivos químicos.

Nessa esteira, verifica-se que os agricultores conseguiram resultados positivos na produção. Dados apontam que nas duas últimas décadas do século XX a produção agrícola brasileira dobrou. Entretanto essas conquistas deixaram muitas externalidades1, sobretudo do ponto de vista ambiental. Em outras palavras, o uso dos venenos mata não só os organismos daninhos à lavoura, eles intoxicam a microfauna2 que forma a matéria orgânica do solo, e por conseguinte são incorporados na teia alimentar do determinado agroecossistema, além de serem escoados para os rios. Como se depreende, o uso de elementos químicos industriais na agricultura não pode ser analisado apenas pelos ganhos produtivos, mas devemos considerar os impactos ambientais, pois cedo ou tarde o próprio agricultor sofrerá com o desgaste do solo e o surgimento de novas pragas.

Em resposta as mazelas ambientais produzidas pela agricultura química, cresce no mundo todo a agricultura orgânica, no Brasil dados apontam nos últimos anos que o mercado de orgânicos vem aumentando anualmente de 25% a 50%. O cultivo orgânico consiste não só no não uso de agrotóxicos, mas, como define a FAO3, é um sistema holístico de produção que busca a melhora e a qualidade do agroecossistema, dos ciclos biológicos e visa manter a atividade biológica do solo.

A despeito do crescimento do cultivo orgânico verificado, ele se concentra mormente em pequenas e médias propriedades. Paradoxalmente, os grandes latifúndios se especializaram em monoculturas para a produção sobretudo de grãos. Paralelamente a essa tendência foi que grandes multinacionais investiram pesado no desenvolvimento dos OGMs. Estes consistem no resultado de alteração, por meio de alta tecnologia, de trechos do DNA de determinado organismo. Exemplo claro dos OGMs são sementes desenvolvidas para tolerar o uso de herbicidas, ou seja, o agricultor que opta por esse mecanismo fica obrigado a comprar a semente e o herbicida da mesma empresa. Como podemos observar, do ponto de vista econômico essa nova forma de agricultura pode se tornar um tiro no pé do agricultor, pois ele fica totalmente dependente da empresa que produz as sementes.

Tomando com exemplo a produção de soja, a empresa multinacional Monsanto apresenta grandes resultados em ganho de produtividade, por conta disso a empresa detém o domínio quase total do mercado de países grandes produtores de grãos no mundo, como os EUA e a Argentina. No Brasil a empresa já tem a fatia de 60% do mercado. É sem dúvida uma empresa de sucesso, no entanto é um grande risco para o mundo o domínio da produção de alimentos em mãos de poucas pessoas. Como exemplo disso, podemos citar o aumento de 26% nos royalties, no ano de 2009, das sementes de soja transgênica da Monsanto, a Soja Roundup Ready ou Soja RR. Cumpre observar que esse aumento de custo não fica apenas para o produtor, haja vista que a soja faz parte de inúmeras cadeias produtivas, o que acaba encarecendo a refeição de muitos de nós.

Outro aspecto importante em relação aos OGMs é sobre a incerteza de possíveis males que possam causar ao ambiente. Enquanto os alimentos vegetais que tivemos até pouco tempo atrás, foram resultado de longo tempo de evolução natural e também da melhoria de sementes crioulas por escolhas dos agricultores, em tempos atuais, num curto espaço de tempo nossa civilização vem alterando genes e criando organismos novos com muita rapidez.  O reflexo de toda essa mudança na produção de alimentos do ponto de vista ambiental pode ser positivo ou não, essa é uma incógnita pois governos liberam o cultivo e comercialização dessas culturas sem o requerimento de resultados satisfatórios em pesquisas. Acrescenta-se que no Brasil não existem regras claras a respeito da rotulagem de alimentos transgênicos, isto é, em nosso almoço possivelmente consumimos alguma refeição alterada geneticamente e nem ao menos sabemos se isso pode interferir em nossa saúde e na de nosso ambiente.

Como remate cumpre dizer que assim como em outros setores da economia, na agricultura se consagra atualmente o estabelecimento de grandes corporações como as detentoras e fornecedoras de tecnologias, sobretudo na produção de grãos. Entretanto, percebemos a sensibilização e atitude de pequenos agricultores para com métodos de produção mais cuidadosos com a terra, e consequentemente com o processo da vida. Vale dizer ainda que além de ganhos ambientais, o processo de produção orgânica pode servir como emancipação de comunidades agrícolas, que podem se unir e explorar nichos de mercado que estão crescendo a cada dia, inclusive com apoio de iniciativas governamentais.

Gustavo Góes

1 fator econômico não inserido no custo de produção e que provoca alterações no mesmo;

2 animais microscópios;

3 organização das nações unidas para agricultura e alimentação.

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Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

A vida inteligente em nosso planeta conseguiu recentemente mais um feito, alcançamos já em 25 de setembro o uso dos recursos naturais necessários para o ano todo. Essa marca é contabilizada pela Global Footprint Network levando em conta os recursos para atender as demandas humanas, não só alimentação como também todo tipo de produto e serviços com suas respectivas energias utilizadas. É de se ressaltar a importância desse dado já que estamos extraindo mais do que Gaia nos fornece.

Para entendermos melhor essa conta negativa, basta olharmos os desequilíbrios diários que a natureza sofre. O grande exemplo é o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera, este gás é essencial para a vida na Terra, no entanto após a Revolução Industrial vem sendo emitido de forma exponencial pelas atividades humanas, sendo um dos principais gases que acarreta no aumento do efeito estufa, consequentemente o que conhecemos por mudanças climáticas. Tal desequilíbrio é o mais alarmante e por isso mais presente na mídia comum, entretanto convém ressaltar que pagamos a conta do uso superior dos recursos também com a poluição hídrica, desertificação, perda da biodiversidade, entre outros. Cumpre observar que toda essa conjuntura deverá refletir em inúmeros desastres ambientais num futuro não muito distante.

Vale dizer que dias atrás a ONU apontou que em 2050 dever-se-á produzir 70% mais alimento que hoje para atender a população mundial naquele ano. Mesmo sabendo de tais previsões e já com mais de um bilhão de indivíduos passando fome pelo mundo nossos lideres ainda insistem no ‘’crescimento’’ econômico, num modelo excludente e que trata a miséria e a degradação ambiental como externalidade. Talvez a humanidade esteja corrompida pelo pensamento positivo pregado nos atuais livros de auto-ajuda, podemos estar imaginando que a tecnologia evoluirá ao ponto de produzir alimento para o mundo com condições cada vez piores, ou ate mesmo colocamos esperança de encontrar outro planeta habitável no universo para nos transportar. Tomemos cuidado com a crença de que o pensamento positivo sozinho possa nos trazer o bem, lembro a filosofia estóica que coloca como mister a preparação para os males, convém assinalar que ela aborda essa questão diferenciando os males inevitáveis dos que estão ao nosso alcance. Os primeiros, segundo os estóicos, sem dúvida não devemos tê-los em preocupação devido à falta de autonomia diante de tais acontecimentos, é o caso da morte, por exemplo, pensamentos amargos a respeito só nos trará infortúnios. Entretanto outros males podemos levar em consideração e nos prepararmos melhor para enfrentá-los, isto é, aqueles quais podemos ter controle.

O que pretendo elucidar com as considerações acima é que levemos a sério o uso de nossas fontes da vida, esse estresse que estamos causando no ambiente reflete na miséria atual dos países pobres e com o passar dos tempos cada vez mais pessoas serão atingidas pelas mutações de Gaia. É importante que estejamos preparados para esses males, assim como se faz indispensável saber que os famintos do mundo são um problema evitável, ao pararmos de consumir mais que o necessário estaremos contribuindo para que mais pessoas tenham acesso a alimento.

Gustavo Góes

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