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A Fábrica (2009) – Will Ferreira

Após sediar a Rio+20, o Brasil não tem muito a comemorar no que tange a questão ambiental. Questões muito polêmicas junto à sociedade, como a alteração do Código Florestal e a construção de Belo Monte, permearam e antecederam por aqui o debate da conferência da ONU. Mas não é só isso, a pressão de grandes obras públicas pressiona órgãos ambientais para aprovação de licenças, havendo até diminuição de áreas protegidas. Fatos estes que apontam para a fragilidade que a temática ambiental vem sofrendo em nível nacional.

Nessa linha de análise, em recentemente levantamento1 foi apurado que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem 27% do seu orçamento alocado no que é conhecido como reserva de contingência,  uma estratagema da União para se obter superávit primário2, ou seja, estão ali para fazer volume.  Dos R$4,1 bi previstos para 2012, R$1,1 bi está contingenciado, e tal restrição já acontece no MMA desde 2006. As restrição orçamentária, pode ter atingido três programas importantes do MMA, que estão quase paralisados. São os programas Mudanças Climáticas, Biodiversidade, além do Programa de Conservação e Gestão de Recursos Hídricos.

Enquanto a arrecadação federal bateu recorde no ano passado3, tendo aumento de 10%, a receita do MMA cresceu apenas de R$4 para R$4,1 bi. E quando verificado a representatividade do orçamento da pasta, teve-se em 2011 que 0,15% do Orçamento Geral da União foi destinado ao MMA.

De igual forma, as áreas protegidas também são alvo do modelo de desenvolvimento adotado. A despeito da criação, em 2007, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Natureza (ICMBio) e seus avanços na gestão dessas áreas, foi aprovada em maio na Câmara, e segue ao Senado, a Medida Provisória que altera os limites de sete Unidades de Conservação (UC) federais4. Milhares de hectares serão excluídos a fim de facilitar a construção de várias usinas hidrelétricas (UHE), todas no bioma amazônico.

Como se observa, toda controvérsia gerada por Belo Monte, projeto antiquado da época da ditadura, não incomoda os tomadores de decisão lá de cima. Mais e mais, o que parece importar é gerar energia5 a base dos rios amazônicos que antes eram “imaculados”. É importante destacar a pífia valoração do patrimônio socioambiental quando se trata de obras de interesse público, constata-se que os danos aos povos tradicionais e aos bens naturais são subjugados para a viabilização de grandes obras.

Paradoxalmente ao discurso na Rio+20, as ações do governo federal para com o Meio Ambiente são dignas de atenção da sociedade brasileira. Paralelo à conferência da ONU, a sociedade civil apresentou avanços em iniciativas locais, fato que motiva a possibilidade de melhorias surgindo de baixo para cima. Por outro lado, é imprescindível a responsabilidade do setor público na execução de sua política ambiental.

Gustavo Góes

1 http://www.contasabertas.com.br/WebSite/Noticias/DetalheNoticias.aspx?Id=933

2 Saldo positivo, quando, ao final de um período, verifica-se que os gastos do governo foram menores do que a receita.

3 http://www.brasileconomico.ig.com.br/noticias/arrecadacao-federal-deve-continuar-alta-em-2012_112380.html

4 http://www.ecodesenvolvimento.org.br/posts/2012/maio/aprovada-na-camara-a-reducao-de-sete-unidades-de

5 Vale lembrar que nesse blog já foi falado sobre o mito da energia limpa gerada em UHE de ambientes tropicais, confira: https://penseverde.wordpress.com/2009/06/11/energia-eletrica-em-expansao/

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Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

A vida inteligente em nosso planeta conseguiu recentemente mais um feito, alcançamos já em 25 de setembro o uso dos recursos naturais necessários para o ano todo. Essa marca é contabilizada pela Global Footprint Network levando em conta os recursos para atender as demandas humanas, não só alimentação como também todo tipo de produto e serviços com suas respectivas energias utilizadas. É de se ressaltar a importância desse dado já que estamos extraindo mais do que Gaia nos fornece.

Para entendermos melhor essa conta negativa, basta olharmos os desequilíbrios diários que a natureza sofre. O grande exemplo é o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera, este gás é essencial para a vida na Terra, no entanto após a Revolução Industrial vem sendo emitido de forma exponencial pelas atividades humanas, sendo um dos principais gases que acarreta no aumento do efeito estufa, consequentemente o que conhecemos por mudanças climáticas. Tal desequilíbrio é o mais alarmante e por isso mais presente na mídia comum, entretanto convém ressaltar que pagamos a conta do uso superior dos recursos também com a poluição hídrica, desertificação, perda da biodiversidade, entre outros. Cumpre observar que toda essa conjuntura deverá refletir em inúmeros desastres ambientais num futuro não muito distante.

Vale dizer que dias atrás a ONU apontou que em 2050 dever-se-á produzir 70% mais alimento que hoje para atender a população mundial naquele ano. Mesmo sabendo de tais previsões e já com mais de um bilhão de indivíduos passando fome pelo mundo nossos lideres ainda insistem no ‘’crescimento’’ econômico, num modelo excludente e que trata a miséria e a degradação ambiental como externalidade. Talvez a humanidade esteja corrompida pelo pensamento positivo pregado nos atuais livros de auto-ajuda, podemos estar imaginando que a tecnologia evoluirá ao ponto de produzir alimento para o mundo com condições cada vez piores, ou ate mesmo colocamos esperança de encontrar outro planeta habitável no universo para nos transportar. Tomemos cuidado com a crença de que o pensamento positivo sozinho possa nos trazer o bem, lembro a filosofia estóica que coloca como mister a preparação para os males, convém assinalar que ela aborda essa questão diferenciando os males inevitáveis dos que estão ao nosso alcance. Os primeiros, segundo os estóicos, sem dúvida não devemos tê-los em preocupação devido à falta de autonomia diante de tais acontecimentos, é o caso da morte, por exemplo, pensamentos amargos a respeito só nos trará infortúnios. Entretanto outros males podemos levar em consideração e nos prepararmos melhor para enfrentá-los, isto é, aqueles quais podemos ter controle.

O que pretendo elucidar com as considerações acima é que levemos a sério o uso de nossas fontes da vida, esse estresse que estamos causando no ambiente reflete na miséria atual dos países pobres e com o passar dos tempos cada vez mais pessoas serão atingidas pelas mutações de Gaia. É importante que estejamos preparados para esses males, assim como se faz indispensável saber que os famintos do mundo são um problema evitável, ao pararmos de consumir mais que o necessário estaremos contribuindo para que mais pessoas tenham acesso a alimento.

Gustavo Góes

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Preciosa é a contribuição de Platão, filósofo grego, ao relatar em A Parábola da Caverna, a complexidade que a “visão ofuscada” traz ao homem. De forma sucinta, ele aborda que ao se deparar com drásticas alterações em seu cotidiano, convém ao indivíduo se identificar no novo patamar, compreendendo gradativamente os novos fatores que vão o interferir. Porém, no intuito de passar o conhecimento adquirido aos seus companheiros de caverna, ele é denominado aventureiro, devido ao ceticismo dos outros em relação ao novo. Platão, com essa estória que perdurou gerações, descreveu sua época, na qual seus conterrâneos se guiavam apenas pelo senso comum, permanecendo na ignorância. Paradoxalmente, o filósofo era o indivíduo que se libertava da escuridão à procura da luz da verdade. A luz significa o conhecimento, e à medida que o adquire, o homem deixa de lado conveniências e alienações, tendo uma compreensão maior dos fatos que acontecem em sua vida.

Nessa linha de análise, Maurício de Souza ilustrou seu personagem Piteco, que vive ambientado na idade da pedra, no quadrinho As Sombras da Vida. O autor, fazendo analogia às idéias de Platão, conta de forma mais positiva a libertação, de forma que os personagens alienados saem da caverna por interferência Piteco, que se esforça a mostrar a verdadeira vida que não conhecem. Eles então, após um primeiro momento de cegueira pela superexposição de luz, se encantam com as paisagens novas e a riqueza de vida. Nessa esteira, o quadrinho finaliza com o protagonista evoluindo até os dias atuais, no qual se depara com personagens que, ao invés da caverna com sombras, estão alienados com a televisão.

Outro autor contemporâneo aproveitou a premissa de Platão. No livro Quem mexeu no meu queijo, Spencer Johnson descreve comportamentos peculiares do ser humano. Exemplificado em quatro personagens, começa por dois duendes, que demonstram a acomodação das pessoas ao se depararem com tribulações. Num primeiro exemplo, o duende fica lamentando os problemas encontrados, e só depois de um bom tempo volta a acreditar em si mesmo, se preparando e saindo a procura de soluções. Este, com mais iniciativa, tenta convencer seu companheiro da necessidade de se adaptar as mudanças, todavia, o outro personagem, além de se queixar, ainda carrega vários medos do que pode encontrar, se sair do seu mundinho de conveniências, então prefere permanecer. Por outro enfoque, os outros dois personagens são ratinhos com atitudes mais positivas diante dos problemas enfrentados. O desenlace que o livro salienta é a crítica das atitudes dos homens, que se esmorecem com as dificuldades e demoram a procurar novos rumos, sendo que poderiam ser mais práticos e positivos.

Posta assim a questão, é possível constatar nos dias atuais várias questões que turvam a sabedoria do homem. A que mais aterroriza a humanidade, ao menos deveria, é a forma desenfreada de exploração dos recursos naturais do planeta. A mesma sociedade da informação, ou do conhecimento, como é assim denominada; é a responsável por consumir 130% dos recursos da Terra. Ou seja, esta se consumindo do planeta mais do que ele é capaz de se auto-regenerar. São dados da WWF, entidade não governamental que atua mundialmente a favor da proteção da natureza. Ela divulgou o relatório Planeta Vivo 2008, onde apresenta através de resultados de pesquisas, números alarmantes do uso das riquezas naturais.

Se por um lado a sociedade moderna se desenvolveu tecnologicamente alcançando inúmeros avanços, por outro, quem sofreu as baixas foi a grande Casa mantenedora das riquezas, a Terra. Nunca é demais lembrar que tudo que se consome vem de alguma parte do planeta, e essa exploração desenfreada chegou a tal ponto devido à negligência de comunidades que adotaram estilos de vida altamente consumistas. Tudo que seu dinheiro pode comprar, ele o faz, sem pensar de onde veio e quais efeitos causaram o ciclo de produção daquele produto. No rótulo de uma mercadoria não vêm descritos os impactos de sua produção, se por exemplo a energia utilizada veio de uma hidrelétrica que acabou com a história de ribeirinhos que tiveram que se mudar do local onde passaram suas vidas, ou culminou na perda da biodiversidade de uma região.

Como se há de verificar, o sistema econômico utilizado nos dias de hoje se tornou insustentável, à medida que a população é mantida por produtos e serviços que não contabilizam os custos e déficits ambientais. Quando foi criada, a economia se tratava da técnica que visava atender as necessidades da humanidade, com comunidades distribuídas geograficamente e suas respectivas peculiaridades. Aconteceu que no mundo moderno o capitalismo não só atendeu as necessidades do humano, como também se impregnou em grande parte da estrutura social, como a política, ética e a ciência.

Cumpre observar, todavia, a existência de esforços para mudança de paradigmas. Foi com essa intenção que surgiu o termo sustentabilidade, segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem, “é a qualidade de se auto-sustentar sem agredir os recursos naturais, mantendo o meio-ambiente sadio e equilibrado para as presentes e futuras gerações.” Adaptando-se ao capitalismo adveio o termo desenvolvimento-sustentável, que é cercado de controvérsias, de acordo com o filósofo e teólogo Leonardo Boff “é uma contradição, pois, os dois termos se rejeitam mutuamente. A categoria ‘desenvolvimento’ provém da área da economia dominante. Ela obedece à lógica férrea da maximalização dos benefícios com a minimalização dos custos e do tempo empregado. A categoria ‘sustentabilidade’ provém do âmbito da biologia e da ecologia, cuja lógica é contrária àquela deste tipo de ‘desenvolvimento’”.

Como remate é importante frisar a importância de se mudar rumos e empregar a sustentabilidade, através de educação e consciência ambiental, potencializando o cuidado com a grande fonte de vida que é a Terra. Platão possivelmente diria que a sustentabilidade é a luz para o ser humano se libertar do sombrio consumismo que devasta e saqueia as riquezas do planeta sem nenhum pudor.

Gustavo Góes


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