Feeds:
Posts
Comentários

O Vermelho Encantamento das Matas

Foto: Sergio de Castro - tiê-sangue (Ramphocelus bresilius)

Com ou sem a pretensão de chamar a atenção nas verdejantes florestas da Mata Atlântica, o tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) não passa despercebido nem mesmo para um mero observador disperso, e sim, atua como protagonista no teatro das cores que realiza apresentação perene no palco da vida. Exalta o seu rubor e encantamento digno de contemplação nas matas da Paraíba a Santa Catarina, é uma espécie endêmica da Mata Atlântica e possui alimentação frugívora, entre a variedade de frutas que ele se alimenta, há algumas que contém um pigmento denominado astaxantina, que ajuda a manter a sua coloração vermelho-escarlate.

Passear em devaneio pelas matas do país já nos remonta ao nosso sentido ontológico, re-desperta uma sensação de contato com o divino que pode-se resumir como inefável. Entretanto, uma incursão floresta adentro e o encontro com uma como ave como o tiê-sangue é mais do que cósmico, e sim chama atenção para o nossa dimensão cuidado, conservador e demasiadamente zeloso. A beleza e a importância que as aves têm para a manutenção dos ciclos ecológicos transpõem muitas vezes as barreiras do compreensível racionalmente por nós, e, até mesmo por elas – aves.  Se para as aves a árvore fornece alimento na forma de larvas de insetos e ovos, a ave pode estar extraindo pragas e cooperando na vitalidade da árvore, assim a dependência entre um e outro é extremamente fundamental. Essa compreensão de dependência não é racionalizada pela ave, e em alguns casos, nem mesmo por nós, que derrubamos as árvores e interrompemos esse apoio mutuo. Sua cor pode ser de puro encantamento e significado para nós, como observadores, e evidentemente de pura fragilidade e susceptibilidade perante nós e outras espécies como predadores. Nas matas douradas e portentosas da Mata Atlântica, sua plumagem vermelho-sangue contrasta com o verde das árvores sobressalentes e reflete como um raio de luz nas águas harmoniosas, fazendo com que seja visto e capturado com facilidade pelos seus predadores naturais e também pelos denominados predadores “sapientes”.

A ocorrência dessa e de outras espécies fica restrita a áreas onde ainda resta alguma porção de floresta, quer fragmentos florestais, quer grandes coberturas resguardadas, ficando assim evidente a importância de conservar nossas florestas e conseqüentemente espécies exuberantes e essenciais para o equilíbrio ecológico. Atualmente, o hábitat dessa e de uma gama surpreendente de outras espécies animais e vegetais, haja vista que a Mata Atlântica possua um percentual em torno de 33% das espécies vegetais existentes no Brasil, esteja ameaçado pela supressão florestal, oriunda de vários fatores, como a expansão imobiliária, avanço da agricultura, dentre outros.

A simbologia de sua cor, o vermelho, pode ser traduzida por nós como a ação, a conquista, características que para as aves já está arraigada desde o seu nascimento, sendo que no decorrer de suas vidas elas alcançam o zênite a todo instante, migram quilômetros atrás de abrigo e alimento, lutam instintivamente para defender seu território e família, e, acima de tudo, gozam de sua arte somente para manifestar a vida. Chegará um tempo em que as Florestas não estarão mais pintadas de vermelho pelo sangue expelido das espécies dizimadas, e sim pela vivaz e cintilante beleza do tiê-sangue.

Gustavo G. Sanches

O Olhar da Favela

Foto: JR - Morro da Providência - RJ

 

Episódios como os que ocorreram no Rio de Janeiro recentemente levam uma grande parcela da população a reflexão, ora pela gravidade dos fatos que desdenharam uma grande quantidade de inocentes da comunidade, ora pela dimensão da raiz que assombra os problemas sociais na capital Fluminense. O processo de favelização na capital não é digno de escolha para aqueles que lá habitam, é, sobretudo um fator social de desigualdade no qual faz com que migrantes venham de outros municípios e/ou estados atrás de uma significativa melhora de vida na capital, não encontrando assim condições de se estabelecer em uma zona melhor, acabam se aglomerando  em aclives e declives de esperança. Já, em relação ao tráfico de drogas, todos estão cansados de saber a epistemologia dos fatores que envolvem as divergentes classes sociais, públicas e privadas.

Não quero aqui banalizar o assunto, tampouco fazer uma abordagem positivista sobre a realidade que decorre em todo o globo, mas sim levar os leitores para uma breve inflexão sobre a paz que moldamos através desse sistema ganha-perde.

O levante feito pela polícia militar do RJ em conjunto com as forças armadas demonstra a cristalização de uma máxima potência estatal, onde o sistema pode sim pender para o bem da comunidade que vive sob as diretrizes do tráfico, mas deve-se dizer que o cerne do problema se encontra justamente aí, como assegurar uma governança num estado politicamente dividido?

As ações voltadas para o planejamento de uma grande cidade gira, em linhas gerais, entre os interesses individuais de uma parcela privada e os interesses individuais de uma classe de políticos corruptos. Enquanto há cem podando os galhos do mal, há um tentando arrancá-lo pela raiz. A paz “estabelecida” para os moradores dessas comunidades, de certa forma é uma grande revolução para a polícia, mas cabe perguntar até quando essa paz irá reinar, até onde os olhos de uma criança que vivencia esta realidade irá acreditar em paz. Este sistema onde um sempre há de perder age como imperativo há muito tempo, a falta de benquerença dos governantes para as classes desfavorecidas faz com que hecatombes como essas ocorram, e a título de exemplo, sob o olhar do país todo que assiste as manchetes dos jornais e se deleitam como se estivessem assistindo um filme.

A transição para um sistema ganha-ganha requer muito esforço conjunto, mas um esforço benevolente, um esforço de atores que não estejam totalmente vendidos para o mercado capital. Dizer aqui qual seria o processo para essa transição seria muita preponderância e demagogia, mas

vale dizer que a direção foi moldada, as ações de transversalidade social estão já presentes nas comunidades através de ONG’s que lutam pela pacificação através da educação, da arte, da cultura, da música, dentre outros. A paz está gritando para estar presente em nossos dias, saibamos escutá-la e senti-la.

Gustavo G. Sanches

EM BUSCA DA ESTABILIDADE PLANETÁRIA

Despertar de Ícaro - Lucílio de Albuquerque (1877–1939).

Há poucos dias de mais uma Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas COP-16, realizada pela ONU e que se inicia na próxima segunda-feira 29, onde 193 nações irão discutir e quiçá decidir os instrumentos de mitigação para com as mudanças climáticas, novamente se vê em torno do tema o teatro midiático que pulveriza informações um tanto quanto dantescas sobre a temática mudanças climáticas. Já foi mais que comprovado e alertado sobre os perigos que as espécies estão correndo, milhares de desastres inéditos coloca em cheque os denominados céticos do clima. Uma vez que a crise atual não é apenas uma crise de indivíduos, governos ou instituições sociais, mas sim uma transição que contempla dimensões planetárias, onde o futuro da humanidade está em jogo.

Justapondo essa realidade, cumpre dizer que a estabilidade humana está gradativamente ameaçada pela força do capitalismo, pela força do jogo do mercado e também pela força da insensatez humana. Notícias sobre fome, guerras, corrupção estão mais do que familiarizadas pelas classes “virtuosas” da sociedade, e mesmo assim vivencia-se o momento do fatalismo cínico, onde a mudança deve partir de um Deus maior. Uma salvação que não virá de cima.

O futuro está tão próximo quanto o presente, tão próximo quanto a Terra da Lua, e ainda assim a postergação das benquerenças é algo arraigado na sociedade contemporânea. A humanidade está em estado hipnagógico, prestes a entrar de vez nas dimensões oníricas e assim sonhar com um futuro melhor, no entanto o que tarda este sonho é a morosidade dos famigerados em abandonar suas velhas práticas.

Deve-se colocar como imperativo um despertar para uma nova era, uma transição de instabilidade para a estabilidade, observar a Terra como esse imenso processo evolutivo, onde nós seres humanos dividimos a mesma casa comum com as demais espécies. Corrobora o fato de que todos terão o destino comum, porque não alimentarmos um novo começo. A biodiversidade está depauperada, a perda de sintonia com a totalidade está culminando não somente na segunda maior extinção de espécies animais e vegetais da história do planeta Terra, mas também na falta de conexão entre os sujeitos, na falta de ações de solidariedade entre nós homo sapiens.

Um hino de indignação cresce a cada dia nas extensões endossomáticos dos seres humanos, elevando-se assim um senso crítico perante as causas ambientais e sociais, esperar-se-ia que os representantes das 193 nações, não dignas de decidir o futuro da humanidade, acordem para esse hino, despertem para a realidade e veja que a estabilidade do planeta está ameaçada.

 

Gustavo G. Sanches

 

Degradação em RO

Degradação da Floresta Amazônica em Rondônia

Reza a Carta Magna1 que todos têm o dever de assegurar o direito das presentes e futuras gerações ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. No entanto, o ano que foi instituído como Internacional da Biodiversidade, está sendo em nosso país o período em que se tenta arrebatar com uma lei tida com uma das mais protetivas do ambiente, mundialmente falando.

A lei em questão é a Lei Federal 4.771/65, conhecida como Código Florestal (CF) e está sendo alvo de um Substitutivo, que visa à revogação do mesmo, através do Projeto de Lei (PL) 1.876/99 que corre na Câmara dos Deputados e tem como relator o Deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP).

São de se destacar dois instrumentos que seriam modificados caso o texto de Rebelo tenha êxito: as APP’s2 e a RL3. É importante deixar claro que tais instrumentos têm funções distintas e complementares, já que o primeiro visa primordialmente à proteção de solos mais frágeis e o equilíbrio do regime hidrológico, além da biodiversidade; e o segundo visa à manutenção de uma reserva de biodiversidade no local.

O relator defende com unhas e dentes que o intuito do substitutivo é proteger os pequenos agricultores que, com o código vigente, têm pequenas áreas para produção. No entanto esse argumento é falho, pois, o PL apresentado, ao mesmo tempo em que ‘visa’ beneficiar os pequenos, anistia os grandes, haja vista que o projeto isenta grandes desmatadores. A propósito, segundo o Deputado Sarney Filho (PV/MA) “O (atual) CF não prejudica a pequena propriedade, porque estabelece diversas medidas de exceção para essa parcela do setor rural (…).”4 As medidas que Sarney Filho se refere são quanto à utilização sustentável de áreas instituídas pelo CF dentro de pequenas propriedades, e que por desconhecimento e falta de apoio não são realizadas. Aldo Rebelo também argumenta que o CF é antigo e está barrando a produção agropecuária. Novamente o Deputado se engana, pois, de acordo com a ESALQ-USP o Brasil conta com 100 milhões de hectares de área apta a atividades agrícolas5.

Ao contrário do que o Senhor Rebelo prega, os pequenos agricultores, mesmo com seus pequenos lotes, sabem a importância de se manter as APP’s. Vê-se aqui na região de Londrina-PR a recuperação dessas áreas sem a pressão legal, por iniciativa própria dos agricultores ou em cooperação com a sociedade civil organizada. Aquele pedaço à beira-rio que a patota do Rebelo quer ceifar não representa apenas um cílio estético para uma sombra ao fim de semana. A mata-ciliar conservada significa uma intrincada relação ecológica que vai não só regular o fluxo hídrico da bacia hidrográfica, como também favorecer a vida. Esta que ali é representada, de forma breve, pelos insetos que polinizam a plantação do agricultor; ou então predadores das pragas das lavouras; até mesmo as plantas que frutificam, servindo de alimento para os lindos pássaros que gorjeiam a cada manhã.

Em tempos de discussão das mudanças climática e da conservação da biodiversidade, é motivo de vergonha o posicionamento anacrônico de um representante dos interesses da nação. Como Estado democrático, deve-se sim discutir mudanças na legislação, mas alternativas inovadoras e de vanguarda devem estar em pauta.

A manutenção da vegetação nativa é estratégica para todo tipo de sistema produtivo, portanto, em vez de vê-la como obstáculo, vejamo-la como aliada. Portanto, a discussão que cabe é como deixar a floresta em pé e não regredir leis para ser permissivo com o desmate.

 

Gustavo Góes

 

 

1 Constituição Federal Brasileira de 1988

2 Áreas de Preservação Permanente (florestas e demais formas de vegetação natural situadas: a) ao longo dos rios e cursos d’água ou que envolvam nascentes e olhos d’água; b) nos topos de morros, montanhas e serras; c) nas encostas com declividade superior a 45º; d) nas restingas; e) nas bordas de tabuleiros ou chapadas e h) nas altitudes superiores a 1.800 metros)

3 Reserva Legal “é a área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural, excetuada e de preservação permanente, necessária ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção da fauna e flora nativas”. Os percentuais que devem ser protegidos em cada propriedade ou imóvel rural variam, de acordo com as regiões do país. Este percentual é de 80% nas áreas de florestas da Amazônia, 35% para o Cerrado da Amazônia Legal e 20% para as demais regiões do país.

4 Revista Consulex (Novembro de 2010)

5 O Estado de São Paulo (5 de maio de 2010)


									
rio xingu

Vista do rio Xingu, que será afetado pela construção da hidrelétrica de Belo Monte (Altamiro Vilhena)

Por Juarez Brito Pezzuti*

Senhor presidente,

Também sou trabalhador como o senhor. Só que trabalho para mim e para minha família pescando nos rios da Amazônia. Tiro o peixe pra comer com farinha em casa e para vender. Pago gente pra me ajudar na roça, pra fazer minha casa de madeira boa, que dura quando a enchente é forte e alaga tudo, como o senhor já viu. Sou um autônomo, pode-se dizer, associado da Colônia, e recebo seguro-desemprego no período de defeso.

Mas o meu patrão é o rio. Estou à mercê dos caprichos dele, do seu temperamento e imprevisibilidade. E ainda, infelizmente, nós pescadores competimos entre nós, porque o recurso é finito e as bocas aumentam. As bocas das famílias dos pescadores e dos outros brasileiros.

O desmatamento do fazendeiro, a maior parte dele vindo de fora da minha região para destruir a floresta até a beira do rio para encher o bolso de dinheiro e não trazer benefício nenhum para a minha região. E tudo com subsídio do seu governo e dos governos anteriores. O senhor acha que ninguém está vendo? O Senhor mesmo disse que não precisa derrubar uma árvore, mas então por que qualquer um vem aqui com dinheiro do governo para colocar tudo no chão, as frutas dos animais e dos peixes, a mata que fixa o tal carbono?

Não sou um fóssil econômico nem entrave para o desenvolvimento. A maior parte do pescado consumido na Amazônia, e no Brasil, é produzida por pessoas como eu. Por nós, pescadores artesanais. Quase todo o pescado que abastece as cidades daqui sou eu que pesco. Por que agora me torno um empecilho?

O agrotóxico mata o peixe dos meus rios, já está comprovado, cheio de estudo aí, e por que o fazendeiro pega dinheiro do governo pra contaminar os todos rios com essa química toda? Não vai botar na balança o prejuízo para a minha família e todos os meus colegas trabalhadores do beiradão? Chame de externalidade, do que quiser, mais isso tem que ser considerado. Rios com peixes geram emprego, garantem o sustento das famílias ribeirinhas e abastecem pequenas, medias e até grandes cidades.

A barragem, seu presidente, é que é o pior mal de todos para o Rio, e isto está comprovado já tem décadas. A pesca no lago artificial não compensa os impactos negativos a montante e principalmente a jusante. Veja, Senhor Presidente, o que aconteceu com as comunidades do Baixo Tocantins.

Os estudos mais recentes comprovam isso, e que nós estamos sentindo na pele há décadas, e mostram também que escadas de peixe e outras geringonças de nada adiantam. Como pode o seu governo dizer que não vai afetar a pesca, com o que tem acontecido em todos os outros rios? O que o senhor acha que é o bagre? Um peixe meio feioso, de espinho, que a gente come na falta de peixe melhor? Tem idéia do tamanho da população ribeirinha que vive da pesca do bagre? Só no canal  principal do Amazonas somos mais de 50 mil pessoas, afora os afluentes maiores como Madeira, Purus, Japurá, Juruá e dezenas de outros menores onde a pesca do bagre é das principais fontes de renda. Agora, e quantas bocas se alimentam dos rios, acha que não dá pra contar? Dá sim, é fácil e está sendo feito por um monte de gente que tem seriedade. Tem a sociedade civil representada e o estado, com o ministério público nas diferentes esferas, as universidades e outras instituições de pesquisa. Chamando atenção, brigando mas, principalmente, contabilizando o massacre do modo de vida ribeirinho, da nossa vida, do nosso sustento e do nosso emprego.

Tem jeito não, Senhor Presidente, para todo o mal que as barragens causam a nós, tentando viver do pouco peixe que sobrou ou indo para as cidades tentar a sorte e, na maioria das vezes, levar uma vida miserável.

Vossa excelência também não assumiu compromissos com emissão de gases? Como, se praticamente todo o investimento em energia é com fábricas de metano, que é isso que as hidrelétricas são? Seu governo vai seguir ignorando o que os cientistas do mundo inteiro estão dizendo? Vai seguir apostando na falta de memória do povo brasileiro?

Presidente, o senhor ainda vai passar uma vergonha muito grande, porque em poucos anos esse mal que o seu governo está fazendo pra gente vai estar tão evidente e tão claro, que Vossa Excelência não vai ter nem sossego quando for dormir, se é que ainda se preocupa com a sorte dos seus companheiros que alimentam suas famílias com o peixe do rio, longe dos supermercados, e  que trabalham de canoa, linha e anzol, rede e arpão.

*Juarez Brito Pezzuti é biólogo, doutor em ecologia e professor da Universidade Federal do Pará.

Fonte: Envolverde.

** texto publicado neste blog por expressar de forma sucinta a forma com que o governo brasileiro vem tratando as questões socioambientais.

Globalização do bem estar subjetivo

Eneias, Anquise e Ascânio - Gian Lorenzo Bernini 1619

Todos estamos passando por uma fase de transição, é só lermos os jornais e revistas que veremos a democratização dos termos consciência ecológica, desenvolvimento sustentável, direitos humanos, dentre outros. Pode-se notar também o aumento do número de pessoas engajadas nas causas sociais, no voluntariado como exercício ético, na luta por um mundo melhor. Penso eu com meus botões, por que todos esses ótimos exemplos não atingem uma magnitude global, por que não globalizar o acesso universal a água, ao alimento, a moradia, a uma Mãe Terra feliz e orgulhosa de seus filhos? Pois bem, nesse contexto pode-se dizer que Gaia encontra-se entristecida e virulenta, e a razão disso é nossa ganância e individualismo, nosso modelo globalizacional insustentável e excludente que permeia as mais íntimas entranhas de nosso planeta.

A globalização econômica em sua forma mais inexpugnável culminou não somente na depredação da natureza, extinção de espécies e gestos de solidariedade e afetividade humana, mas também numa mercantilização de cultura, cujo cerne se encontra no âmbito estadunidense, no qual grande parte dos países ao redor do globo almejam um desenvolvimento econômico-cultural como o das estrelas de Hollywood, deixando de lado todo o processo histórico-geográfico que cada região desenvolveu empiricamente. Pesquisas revelam que se todos os países consumissem como os Estados Unidos consomem, necessitaríamos de cinco ou mais planetas para suportar o ultraje cometido com nossa “Mãe Terra”. De todo modo a cultura norte americana encontra-se em crise, os americanos estão consumindo cada vez mais para poderem maquiar a falta de conexão uns com os outros, e isso se prolifera gradativamente com as síndromes de metrópoles, moldando paisagens urbanas com prédios e fábricas, buzinas e pistões automotivos, encobrindo o canto dos pássaros e nos distanciando do diálogo com a natureza, criando dependência da mecanização para com as tarefas manuais, engendrando conforto e requinte que somente uma pequena casta gozará.

Contanto surge-se paulatinamente uma parcela de indivíduos dispostos a construção de coletivos éticos, condicionados a uma mudança de paradigma civilizatório, que se baseia no utopismo dialético, ou seja, uma forma de utopismo espaço-temporal em que as capacidades geográficas e potencialidades humanas sejam incorporadas como forma de intervenção nos dogmas predeterminados. Quem são esses indivíduos que estão implantando o utopismo em seus espaços geográficos? São todos aqueles que estão atônitos com o desumanizante processo atual, que estão agindo como efeito multiplicador por um desenvolvimento ecológico e social inerente a produção do capital, esta que na maioria dos casos utiliza de seus recursos por meio do  pensamento arcaico de progresso a todo custo, causando danos para o ambiente e seus trabalhadores, aqueles que persistem na produção do conhecimento, de proporcionar os  direitos naturais de alimentação, de água, de liberdade de escolha e cooperação.

Como é ano eleitoral em nosso país veremos muitas demagogias e ilusões de nossos excelentíssimos candidatos, porém, cabe a nós cidadãos eleitores, sujeitos ativos e condicionados no saber democrático, decidir qual o melhor caminho para se seguir, um futuro democrático e justo em todas as esferas, ou um futuro cataclísmico que nos levará ao precipício. Sendo assim, continuamos sonhando com um país cujo mapa geográfico inclua a utopia, como no dizer do laureado escritor Irlandês Oscar Wilde: “Um mapa do mundo que não inclua utopia não merece nem mesmo uma espiada”.

Gustavo G. Sanches

Constelación: despertando al amanecer

Joan Miró - Constelación: despertando al amanecer (1944)

Aproximadamente um bilhão de anos após a formação do planeta Terra a vida se fez presente e, ao longo do tempo, vem evoluindo através de complexos processos ecológicos. Podemos dizer hoje que a vida está presente em qualquer canto desse mundo, desde as milhares de espécies de bactérias que se encontram no solo, juntamente aos fungos, cooperando para a fertilidade da terra, até as grandes plantas e mamíferos, e ainda a grande biodiversidade existente nos ecossistemas marítimos.

É incomensurável a riqueza da biodiversidade, tanto que, no que diz respeito apenas à descrição e classificação das espécies, taxonomistas1 têm catalogado até os dias atuais cerca de 1.4 milhões de espécies e estima-se que existam no mínimo 10 milhões ainda não descritas.

Vale dizer que a diversidade da vida concentra-se, sobretudo em regiões tropicais. Existem 17 países que abrigam 70% da biodiversidade do nosso planeta, são eles conhecidos como Megadiversos2. No entanto, alguns desses países têm suas florestas ceifadas continuamente. Seja pela pressão por áreas para o cultivo de dendê na ilha de Sumatra na Indonésia, a exploração madeireira na República Democrática do Congo ou o aumento da fronteira agropecuária na Amazônia brasileira; o desflorestamento dessas regiões riquíssimas está destruindo o hábitat de milhões de criaturas que nem ao menos conhecemos, e por conta dessa destruição covarde, pesquisadores renomados apontam que ecossistemas podem, em breve, entrarem em colapso.  Como exemplo pode-se citar o risco de pelo menos parte da Amazônia ser transformado em uma savana.

Nessa esteira, há algumas décadas alguns campos da ciência estão se emancipando da visão positivista e vêm incorporando aspectos sistêmicos, ressaltando e comprovando a dependência da vida humana perante o equilíbrio do planeta. A economia ecológica, por exemplo, busca dar valor monetário aos serviços ambientais prestados, evidenciando que são processos ecológicos que culminam na vida humana. Não custa lembrar a Teoria de Gaia, desenvolvida pelo climatologista James Lovelock e a microbiologista Lynn Margulis, que ao longo dos anos vêm comprovando a hipótese de que a Terra é um grande organismo vivo, isto é, tudo que nela existe está inextricavelmente interligado e coopera (ou não) para a sua manutenção.

Destaca-se que assim como nós, enquanto organismos vivos, a Terra sofre de alguns patógenos3, ela pode ter sido perturbada por asteróides algumas vezes, mas atualmente ela está sofrendo internamente, isto é, as atividades humanas aceleraram os níveis de extinção4 em 1000 vezes, ou seja, é a mesma coisa que algum microorganismo interno nosso esteja destruindo células essenciais ao funcionamento do nosso corpo.

Em vista dessas considerações, é importante assinalar que o reconhecimento da importância da conservação da biodiversidade e de ações que visem à manutenção da vida não é um processo de cima para baixo, no qual a ciência e a política  devam resolver, mas antes uma questão de ética, na qual a coletividade assimile valores holísticos e de irmandade para com a natureza.

Séculos atrás, sem a existência da pressão de movimentos ambientalistas e nem crise ecológica, movido apenas pelo seu amor e afeição, um indivíduo chamado Francisco de Assis reconhecia a importância de todas as criaturas, seja na Terra ou no céu, e chamava a todas de irmãs ou irmãos. Cumpre dizer, por derradeiro, que seja através da espiritualidade ou da reflexão crítica, urge uma nova ética fundada na pertença a um sistema emaranhado de cooperação que sustenta a vida.

Gustavo Góes


1 profissionais responsáveis pela identificação, descrição e classificação dos seres vivos.

2 grupo de países que abrigam o maior índice de biodiversidade da Terra, a saber: Austrália, Brasil, China, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Filipinas, Indonésia, Índia, Madagascar, Malásia, México, Papua Nova Guiné, Peru, República Democrática do Congo, África do Sul e Venezuela.

3 agente capaz de desencadear doenças.

4 extinções ocorrem normalmente na natureza, mas dentro de certos limites.

A educação como práxis narcisista

Tarsila do Amaral - Os Operários 1933

Um dos temas centrais entre toda a humanidade gira, sobretudo, entre a educação e a forma da qual ela é aplicada para a sua construção ou produção.  Vivencia-se o momento onde grande parte da população não tem acesso a educação, e muitos dos que tem oportunidades a terem uma educação condizente, abandonam os colégios, nem tentando ir para as universidades, não por falta de interesse dos mesmos, mas sim pela forma na qual os educadores tentam transferir os seus conhecimentos, acreditando assim que a educação é uma via de mão única onde somente eles ditam as regras e os educandos ir-se-ão padecer.

Dias atrás me deparei com esse paradoxo lancinante que ocorre a todo o momento em todas as IES (Instituições de Ensino Superior) de todo o globo: de um lado a docente tem muitos rótulos e méritos para estar ali e, de outro lado, a incapacidade de criar possibilidades para a produção do conhecimento, o orgulho de não querer reconhecer que quem ensina também aprende, de que não há docência sem discência, que o conhecimento é uma via de mão dupla, onde ambos irão progredir. Cumpre aí, repensar todo o desestimulo moral, intelectual, que docentes como a descrita acima, ocasiona na vida de muitas pessoas que se esforçam para fazer da sociedade um lugar mais justo e democrático. Como pensar numa sociedade democrática tendo um ensino fascista, ou você vai para a lousa fazer o exercício ou para a sala de tortura. Quão estimulante é este ensino querida docente, que não sabe nem ao menos pedir, mas sim mandar. Haja vista que a classe educadora é uma das mais brilhantes da humanidade, estimulando as pessoas para uma condicionante de vida melhor, proporcionando uma leitura de mundo através do ensino, quero aqui deixar claro o meu prestigio por todos os educadores críticos e cientes de sua função, mas não deixo de lamentar uma pequena parcela que entristece e desestimula a criatividade e a liberdade de escolha dos discentes.

De tal forma, constata-se que um ensino onde o educador queira ditar suas regras sobre um pedestal, querendo com isso se posicionar melhor que o aluno, encontra-se num paradigma pungente, que necessita de mudança e rápido, sendo assim, cabe aos professores insistir numa interação maior dentro de suas salas de aula, cabe também a eles uma flexibilidade, tendo em vista as divergências encontradas entre todos aqueles que fazem sua parte para o processo do conhecimento.

Por fim potencializa-se a educação como forma de promover e recuperar a ética do ser humano, quiçá um dia ter-se-ia ao menos um docente em cada curso que tenha lido Paulo Freire antes de entrarem nas salas de aula.

Gustavo G. Sanches

The Rose - Salvador Dali

Desde o inicio das civilizações “pensantes” se travava uma ululante batalha pessoal e universal, baseada, sobretudo entre a razão e o sentir. Grosso modo, os homens/mulheres primeiramente desenvolveram a percepção como seus aliados para a sobrevivência diária, desfrutavam-se de seus instintos para todas as atividades, ora manuais, ora intelectuais. Um bonito exemplo vem de Sócrates, dizendo que mais inteligente é aquele que sabe que não sabe de nada, sendo assim só o conhecimento que vem de dentro é capaz de revelar o verdadeiro discernimento, ressaltando assim o valor de uma visão de mundo, de uma percepção dos sentidos. Dentre toda esta trajetória da humanidade até os dias de hoje é perceptível uma dicotomia entre a razão e o sentir.

Haja vista que as civilizações com o passar do tempo foram deixando o pathos1 de lado, desenvolvendo-se então como civilizações da razão, como civilizações que marcaram pela forma analítica de ver o mundo ao seu redor, com o intuito de produzir riquezas materiais, modelos de sociedades divergentes, onde um tem que ganhar e outro perder. Urge dizer que alguns períodos da história foram reintroduzidos com todo o altruísmo que o ser humano fosse capaz, criando assim um período de imensa complacência, fora esse o período do romantismo, onde as pessoas estavam cansadas de lapidar a razão, escolheram então outro caminho e se lançaram aos braços de um apogeu romântico.

Este modelo de sociedade não permeou por um longo periodo, pois o fato de as palavras de ordem serem sentimento, imaginação, experiência, anseio, não agradavam a todos, principalmente aos burgueses da época. Não se sabe se este era um modelo correto para se seguir, se é que se sabe qual seja, a meu ver seria aquele onde todos tenham as mesmas oportunidades, onde uma pessoa não tenha os seus direitos naturais2 expropriados por um sistema, onde as pessoas tenham o direito de serem guiados pelos sentidos. O fato é que após este período marcado pelo apogeu dos sentimentos, o desenvolvimento urbano foi paradoxal a tudo o que o romantismo quis mostrar, a civilização se desenvolveu de forma exponencial, seja pelo lado demográfico, onde houve uma demasiada explosão, seja pelo avanço técnico – cientifico tendo o progresso tecnológico inerente ao desenvolvimento, que muitas vezes nos auxilia em nossas vidas, como muitas vezes nos atrapalha, sendo uma forte herança da razão do ser humano, onde ela sufoca qualquer sentimento, onde a forma analítica de ver o mundo é igual dois mais dois são quatro. Cumpre dizer que o avanço marcado pela razão trouxe para os dias de hoje muitos meios que auxiliam a vivência cotidiana, por outro lado excluindo uma maioria que não pode ter acesso nem a uma alimentação digna, nem a um dos mais preciosos elementos da natureza que é a água, essencial para a sobrevivência na terra e fonte de dignidade para os seres vivos.

Torna-se necessário avaliar o modelo no qual escolhemos para viver, cujas exuberâncias tecnológicas, materiais, não se remetem a todos, sendo um avanço positivista para uma minoria. Não estou querendo me contrapor a todos os avanços da ciência ao longo do período, nem mesmo a todas as benevolências que ela proporciona, por outro lado queria questionar se realmente o progresso do conhecimento leva a melhores condições de vida?  Salienta ainda colocar sobre questão qual seriam as condições para uma mudança do status quo3 no qual se vivem um bilhão de pessoas passando fome e com falta de água potável. Como ano de eleição no Brasil, cabe a nós, cidadãos eleitores, sujeitos ativos e condicionados no saber democrático, escolher o que realmente queremos para o futuro de nosso país, um futuro democrático e justo em todas as esferas, um futuro de cooperação, de respeito, um futuro onde as classes dominantes não somente queiram expropriar o suor do trabalhador, mas também dar-lhes condições para uma vida digna e ética, uma sociedade onde não somente os cidadãos sejam livres, mas onde o sejam dignos de ser.

1 pathos: Sentimento, capacidade de simpatia e empatia

2direitos naturais: os que estão em nossa essência de seres humanos, confrontando com quaisquer leis impostas pelas “nações”

3 statu quo: é uma expressão latina que designa o estado atual das coisas, seja em que momento for

Gustavo G. Sanches

ervas benéficas Nicholas Roerich

Nicholas Röerich - Beneficial Herbs (1941)

Durante as décadas de 1960 e 1970 países até então menos desenvolvidos, como o Brasil, passaram por um período conhecido como revolução verde. Este se define como a difusão de tecnologias para a agricultura, como por exemplo, maquinário, novas sementes e produtos químicos para combate à pragas. Anos mais tarde, outro grande marco na agricultura foi o desenvolvimento dos Organismos Geneticamente Modificados (OGM). É importante assinalar que tais acontecimentos transformaram o mundo em que vivemos. Se por um lado uns defendem que a agricultura pode então aumentar exponencialmente sua produção e alimentar a demanda que também vinha crescendo, por outro lado essa nova agricultura proporcionou a concentração de terras e o êxodo rural, culminando no aumento da miséria e exclusão social.

A revolução verde em nosso país teve ação direta do estado, haja vista que as instituições bancárias somente forneciam empréstimos com a apresentação, pelo agricultor, de notas comprovando o uso de adubos químicos e sementes produzidas pelas multinacionais. Vale ressaltar a dificuldade do agricultor que permanecia com suas técnicas tradicionais, pois não se concedia crédito a quem permanecia usando esterco e sementes “crioulas” nessa época. É de se verificar que tal conjuntura contribuiu para a expansão rápida dessas novas técnicas de produção agrícola, pois o argumento para o uso dos produtos químicos, herbicidas e inseticidas, era o de acabar com as pragas na lavoura. Sem dúvida que na época isso foi um grande atrativo, visto que percebeu-se no curto prazo a eficiência dos produtos, no entanto, verificou-se posteriormente que essas pragas se adaptaram aos “venenos” e se tornaram cada vez mais resistentes, acarretando na necessidade maior do uso dos defensivos químicos.

Nessa esteira, verifica-se que os agricultores conseguiram resultados positivos na produção. Dados apontam que nas duas últimas décadas do século XX a produção agrícola brasileira dobrou. Entretanto essas conquistas deixaram muitas externalidades1, sobretudo do ponto de vista ambiental. Em outras palavras, o uso dos venenos mata não só os organismos daninhos à lavoura, eles intoxicam a microfauna2 que forma a matéria orgânica do solo, e por conseguinte são incorporados na teia alimentar do determinado agroecossistema, além de serem escoados para os rios. Como se depreende, o uso de elementos químicos industriais na agricultura não pode ser analisado apenas pelos ganhos produtivos, mas devemos considerar os impactos ambientais, pois cedo ou tarde o próprio agricultor sofrerá com o desgaste do solo e o surgimento de novas pragas.

Em resposta as mazelas ambientais produzidas pela agricultura química, cresce no mundo todo a agricultura orgânica, no Brasil dados apontam nos últimos anos que o mercado de orgânicos vem aumentando anualmente de 25% a 50%. O cultivo orgânico consiste não só no não uso de agrotóxicos, mas, como define a FAO3, é um sistema holístico de produção que busca a melhora e a qualidade do agroecossistema, dos ciclos biológicos e visa manter a atividade biológica do solo.

A despeito do crescimento do cultivo orgânico verificado, ele se concentra mormente em pequenas e médias propriedades. Paradoxalmente, os grandes latifúndios se especializaram em monoculturas para a produção sobretudo de grãos. Paralelamente a essa tendência foi que grandes multinacionais investiram pesado no desenvolvimento dos OGMs. Estes consistem no resultado de alteração, por meio de alta tecnologia, de trechos do DNA de determinado organismo. Exemplo claro dos OGMs são sementes desenvolvidas para tolerar o uso de herbicidas, ou seja, o agricultor que opta por esse mecanismo fica obrigado a comprar a semente e o herbicida da mesma empresa. Como podemos observar, do ponto de vista econômico essa nova forma de agricultura pode se tornar um tiro no pé do agricultor, pois ele fica totalmente dependente da empresa que produz as sementes.

Tomando com exemplo a produção de soja, a empresa multinacional Monsanto apresenta grandes resultados em ganho de produtividade, por conta disso a empresa detém o domínio quase total do mercado de países grandes produtores de grãos no mundo, como os EUA e a Argentina. No Brasil a empresa já tem a fatia de 60% do mercado. É sem dúvida uma empresa de sucesso, no entanto é um grande risco para o mundo o domínio da produção de alimentos em mãos de poucas pessoas. Como exemplo disso, podemos citar o aumento de 26% nos royalties, no ano de 2009, das sementes de soja transgênica da Monsanto, a Soja Roundup Ready ou Soja RR. Cumpre observar que esse aumento de custo não fica apenas para o produtor, haja vista que a soja faz parte de inúmeras cadeias produtivas, o que acaba encarecendo a refeição de muitos de nós.

Outro aspecto importante em relação aos OGMs é sobre a incerteza de possíveis males que possam causar ao ambiente. Enquanto os alimentos vegetais que tivemos até pouco tempo atrás, foram resultado de longo tempo de evolução natural e também da melhoria de sementes crioulas por escolhas dos agricultores, em tempos atuais, num curto espaço de tempo nossa civilização vem alterando genes e criando organismos novos com muita rapidez.  O reflexo de toda essa mudança na produção de alimentos do ponto de vista ambiental pode ser positivo ou não, essa é uma incógnita pois governos liberam o cultivo e comercialização dessas culturas sem o requerimento de resultados satisfatórios em pesquisas. Acrescenta-se que no Brasil não existem regras claras a respeito da rotulagem de alimentos transgênicos, isto é, em nosso almoço possivelmente consumimos alguma refeição alterada geneticamente e nem ao menos sabemos se isso pode interferir em nossa saúde e na de nosso ambiente.

Como remate cumpre dizer que assim como em outros setores da economia, na agricultura se consagra atualmente o estabelecimento de grandes corporações como as detentoras e fornecedoras de tecnologias, sobretudo na produção de grãos. Entretanto, percebemos a sensibilização e atitude de pequenos agricultores para com métodos de produção mais cuidadosos com a terra, e consequentemente com o processo da vida. Vale dizer ainda que além de ganhos ambientais, o processo de produção orgânica pode servir como emancipação de comunidades agrícolas, que podem se unir e explorar nichos de mercado que estão crescendo a cada dia, inclusive com apoio de iniciativas governamentais.

Gustavo Góes

1 fator econômico não inserido no custo de produção e que provoca alterações no mesmo;

2 animais microscópios;

3 organização das nações unidas para agricultura e alimentação.

O ser humano-cuidado, onde ele está?


Cândido Portinari - Meninos Brincando (1958)

Vivemos num mundo onde mais de um bilhão de pessoas sofrem de fome crônica, e longe desses famintos, no país mais poderoso deste mesmo planeta, recentemente se distribuiu em dinheiro público uma ajuda de 700 bilhões de dólares. Cabe ressaltar, no entanto, que esse dinheiro não foi para saciar a fome de ninguém, nem tampouco para atender os trabalhadores estadunidenses que foram avassalados pela crise imobiliária daquele país; essa ajuda foi destinada a instituições financeiras, as responsáveis por uma das maiores crises econômico-financeiras da história. Convém, nesse momento, questionarmos como é possível haver tais extremos? Como pode uma espécie que se desenvolveu e se humanizou por meio da socialização vinda do cuidado criar tantas barreiras e egoísmo entre seus irmãos?

Nós humanos temos uma peculiaridade como espécie, somos permeados pelo cuidado desde a concepção, antes mesmo de nascer cria-se o vínculo mãe-filho devido às 38 semanas de gestação. Mesmo com todo esse tempo o bebê nasce debilitado e requer atenção por um longo tempo. Esse tempo de convívio entre mãe e filho é que fez surgirem as famílias, e como consequência desse acompanhamento surgiu a vida social. Como se há de verificar, o que conhecemos hoje como sociedades só foi possível devido a essas características específicas humanas. É nessa linha de análise que alguns filósofos destacam o cuidado como a essência do ser humano, antes mesmo da vontade e da inteligência. Leonardo Boff, teólogo e filósofo, nos aponta que o cuidado é a base da sociedade, ou seja, as relações, a política e a ética estão imbuídas desse cuidado essencial.

Mas então porque será que vivemos com tantas desigualdades em nosso mundo? Por que o governo dos EUA preteriu os trabalhadores e dispensou quantias vultuosas à um bando de engravatados de Wall Street? Estaríamos perdendo o cuidado? A resposta é não! Sem dúvida nossa civilização o está usando muito pouco e em formas novas, como a ajuda aos bancos, mas não perdemos o cuidado. O que podemos questionar é a forma com que estamos usando essa virtude. Nos dias atuais se privilegia a competição em vez da cooperação, aquela que toma o tempo das pessoas e beneficia a poucos. A competição enxerga o outro como concorrente, ela está arraigada em toda a cultura ocidental e nos está tirando o senso de fraternidade e o respeito para com a terra, dádivas que nos fizeram desenvolvermos como espécie. Talvez esse espírito de competitividade esteja fazendo com que a maioria de nós dispense cuidados apenas a animais de estimação e bens materiais.

Como podemos depreender, a competição propicia a individualidade. Nos dias de hoje temos carência de pessoas se esforçando juntas para os bens comuns, enquanto as praças e as assembleias comunitárias estão vazias as salas de TV reúnem cada vez mais adeptos, espaços esses em que não há relacionamento. Nessa esteira podemos observar atualmente a carência de expressões cuidadosas, porém, num outro enfoque, surgem o que podemos apresentar como pseudo-cuidados, isto é, atitudes mascaradas de cuidado que exploram a essência cuidadosa do ser humano e sua individualidade crescente.  Como ótimo exemplo disso destacamos um jogo que faz grande sucesso na comunidade sociovirtual Orkut, o Colheita Feliz, no qual o jogador pode cuidar de uma fazenda (virtual) com seus cultivos e criação de animais. O Jogo explora a capacidade de cuidado do indivíduo e ao mesmo tempo aliena-o, pois requer grande atenção do mesmo para com possíveis “intrusos” (outros jogadores do Orkut) que possam se infiltrar em sua fazenda para tomar os frutos da mesma.

Como se observa, o cuidado é mesmo essencial e sempre estará presente nas ações humanas. Entretanto a forma descrita acima é uma péssima expressão de cuidado de modo que toma o tempo de jovens que cada vez mais se distanciam da natureza e se enclausuram em ambientes fechados de frente a uma tela de computador. Talvez esse jogo tenha tanto sucesso, sobretudo com os jovens, devido ao fato dos alimentos chegarem a suas casas empacotados e sem referência da sua produção, criando barreiras entre a fertilidade da terra e a coisificação* da vida urbana.

Não duvido que à exemplo do jogo, que virtualiza o cultivo, daqui a alguns anos os modernos supermercados também “coisifiquem” a venda de seus hortifrutis, quando de modo a exemplificar a colheita poderão incluir o “cuidado” em suas gôndolas, nas quais haverão “pés” de mandioca junto ao produto embalado, podendo assim o cliente se sentir tranquilo ao conhecer e tocar a planta viva. Possivelmente esse estabelecimento viraria case de revista e sua fama se espalharia pelas redondezas, enquanto o produtor da mandioca continua sua frequente sina de atolar sua camionete nas desprezadas estradas rurais do município.

Podemos refletir, em virtude dessas considerações, que o cuidado não apenas está em nós, mas que somos o próprio cuidado.  Como os filósofos destacam, o cuidado é intrínseco ao comportamento humano. Tenha-se presente, no entanto, que nossa civilização atual o está utilizando de forma egoísta, deixando de lado expressões cuidadosas coletivas e fraternas e dando lugar ao individualismo. Para enfrentarmos as tribulações vindouras nos cabe resgatar o cuidado presente em cada um, e expressá-lo por meio da cooperação e não da competição.

Gustavo Góes

*redução do ser humano, suas características e relações, a seres que se comportam como coisas e objetos.

Armand Guillaumin

Dada a formação ética e cética que os seres humanos atingiram, poder-se-ia analisar esses dois lados através de uma conjuntura pragmática, sendo notória a diferenciação entre um e outro. Cumpre observar por um lado, de forma bem sintética, que o ser ético aprofunda sua compreensão mundana, sendo um ser que analisa a crise ecológica-social que vivenciamos como global e sistêmica, por outro lado o ser cético analisar-se-ia a descrita crise como produto de desastres naturais, se tornando gradativamente sofista dos “acidentes ecológicos”.

Depreende-se que o ser ético vai muito mais além do que um mero observador dos fatos, o ser homem e mulher, corresponde a um ser condicionado, ciente de sua intervenção como sujeito histórico-social, não somente constatando as barbáries humanitárias e observando-as longinquamente, mas sim tecendo uma realidade ética a cada instante. A falta de eticidade nos dias atuais nos leva a uma abordagem ampla e complexa, entretanto o presente texto será desenvolvido partindo do principio social-ecológico, deixando assim uma abertura para uma futura abordagem.

Diante da auto-percepção, nós seres humanos, somos seres inacabados (como espécie e ser social), construindo assim a cada dia uma nova realidade, ou seja, nós temos a percepção de que somos seres inacabados e modificamos a nossa realidade. Partindo desta premissa, cabe ressaltar a consciência do sujeito critico e formador que o leva a uma curiosidade epistemológica dos fatos, buscando um aprofundamento etiológico histórico-social e dessa maneira intervindo em nossa realidade de maneira singular, cada ser construindo sua autoconsciência e concomitantemente nas decisões comunitárias, sendo que cada um dentro de uma comunidade possui uma singularidade, entretanto a mudança começara a surgir de forma espontânea. O embasamento deste surgimento espontâneo será através da mudança e não da adaptação, cabe a nós modificar nosso dia desde os pormenores até o momento mais critico, cabe a nós a decisão de manifestar nossa raiva diante de varias barbáries desumanizantes que ocorrem a cada dia e que no dizer cético a vida é assim mesmo, e não se tem nada a fazer. Não conseguem analisar que de maneira sistêmica o nosso agir e pensar interfere em diversas destas “vidas”, não somente humanas mais também animal e vegetal. É muito fácil dizer que alguns povos são condenados por natureza, e que nós, sujeitos ativos, não podemos fazer nada, tamponando os ouvidos de maneira banal para aqueles que gritam desesperados. A mudança ocorre desde o momento que você levanta da cama, desde o momento que você diz bom dia para o seu vizinho, fala bom dia para um estranho na rua sem causar constrangimento, o momento que você abre os abraços e sente a brisa matinal, são momentos simples como esses que fazem a diferença.

Pode-se dizer que a falta de eticidade esta pautada, sobre tudo, na educação. No dizer do majestoso Paulo Freire, deve-se através da educação promover e instaurar a “ética universal do ser humano” pondera-se que através de uma educabilidade honesta, sincera, de amor do educador com o educando e do educando com o educador pode-se haver esta restauração da ética que esta tão perdida em nosso dia-a-dia. Devemos lutar também para resguardar uma heterogenia ética cultural, valorizando nossa diversidade local histórica, manter tradições e de alguma maneira não permitir de modo pejorativo que a mundialização devaste nossa cultura ética local. Esta “mudança” de percepção se dará no momento em que re-inserirmos uma cultura endógena, cuja valorização será de âmbito local e abandonarmos essa visão farisaica de que tudo que é provindo de fora seja melhor.

O tempo de mudança é agora, não daqui a cem anos como alguns céticos chauvinistas indagam, porem a mudança deve ocorrer de forma natural, espontânea, uma busca interior pela dimensão ontológica, e dessa maneira, quiçá, tecer um mundo melhor, com mais ética, para as gerações vindouras.

Gustavo G. Sanches

COP – Pudera ser sinônimo de Cooperação

Boas Festas

Com o término de mais uma Conferencia das Partes sobre Mudanças Climáticas, COP15 realizada entre 7 e 18 de dezembro em Copenhage, pode-se notar um eufemismo dentre os principais chefes de estado. Diante de muitas opiniões divergentes, necessidades divergentes, o resultado foi mais uma vez uma dicotomia entre economia e ecologia, sendo que economia enfatiza competição, expansão, dominação e ecologia enfatiza os princípios básicos da vida como, cooperação, conservação e parceria. Muitos estavam esperançosos com os resultados, esperando assim uma aliança de cooperação entre os paises ricos e os paises pobres, mas de fato os tecnocratas lá presentes não conseguiram sentir o risco a qual colocamos nosso futuro comum.

Cooperação se resume como um dos princípios básicos da ecologia sendo que nenhum organismo individualmente consegue prolongar sua existência, pudera as siglas COP significar Cooperação, uma reunião onde as pessoas visassem o todo e não somente seus interesses pessoais, pudera os chefes de estado sentirem que tomaram a decisão errada em somente analisar o lado econômico da situação e não realmente a gravidade do assunto que estava sendo discutido. Mesmo com todos os conhecimentos sobre os trágicos fins que possa ocorrer caso o planeta esquente dois graus, cumpre dizer que com nosso modo de produção e consumo, assinamos o contrato de uma catástrofe ecológica, antecipando o trabalho que um dia iria ser realizado pela nossa principal fonte de existência, o sol, que em alguns bilhões de anos irá nos engolir, pode-se ver que nossa extinção é uma coisa certa, outrora adiantar um processo natural pela ganância da minoria é agônico.  Os gases causadores do efeito estufa se excederam há algum tempo, e a culpa, a culpa é disputada entre o Oriente e o Ocidente, algures no ocidente há de se ter culpados, algures no oriente há de se ter culpados, sendo assim, a culpa é de todos nós, que somos desde crianças inicializados nesta sociedade de consumo, onde insistimos em ter um entrosamento homem a homem, e deixamos de lado o entrosamento homem natureza, sendo a natureza em nosso meio e o homem se adaptando a ela de forma que não a prejudique e sim co-exista harmoniosamente.

A cúpula de Copenhage teve seu trágico fim, os chefes de estado retornaram a suas nações, para suas respectivas luxurias, enquanto os paises pobres que são os principais afetados pela ganância destes citados acima, irão presenciar o começo das trevas. O que se almeja agora neste clima natalino e de esperança para o ano posterior, é que para aqueles ainda bem esperançosos, sejam mesmo aqueles que esperam o Papai Noel neste natal, tenha-se um portentoso começo de ano, e que o clima natalino abram as portas do coração daqueles que podem definir o futuro de nosso planeta e coloque muita luz em suas decisões.

Gustavo G. Sanches

Genocídio da Autonomia

Tarsila do Amaral - Antropofagia (1929)

Nós seres humanos, bem como todas as outras espécies existentes, somos organismos dependentes de energia externa, e essa energia só se disponibiliza devido a intrincadas relações existentes entre outras espécies. Para ter isso claro, até mesmo a síntese da energia solar pelas plantas só é possível devido à interferência das bactérias há bilhões de anos atrás, quando somente elas existiam, que foram responsáveis pela alteração da composição química da atmosfera, fato que regulou a temperatura do planeta e possibilitou a emergência de novas formas de vida. Como se depreende, somos todos seres interdependentes. Mas esse fato não é algo pejorativo, do contrário, isso é a cooperação que assegura a vida. Por outro lado, tem-se que nossa espécie está a cada dia se tornando dependente de coisas criadas por nós mesmos; sistemas econômicos, TV, automóveis, medicina e até mesmo escolas são algumas dessas coisas que tiram a autonomia do ser humano.

A autonomia é a capacidade de tomar suas próprias decisões, uma peculiaridade que nós humanos temos por possuirmos a razão. Seria também uma variante de uma condição que se vê muito requisitada por povos ou nações colonizados, a liberdade, mas a autonomia é muito mais do que se libertar das amarras de um colono. Importante se faz realçar nessa linha de análise nosso caminho percorrido, a saga de cidadão “livre” começa cedo, como crianças ainda temos a ânsia e a grande energia de desvendar o mundo; nessa época somos levados a uma instituição que nos dará disciplina e regras, que nos guardará dentro de um espaço fechado que irá contrariar toda nossa espontaneidade. A escola dá a criança o quadro negro enquanto ela quer e precisa pisar na terra, subir na árvore e atravessar montanhas.

Como se percebe, a autonomia do indivíduo já é afetada desde pequeno. Tenha-se presente que alguns pensadores já lutaram e se posicionaram contra os métodos de ensino. Francisco Ferrer instituiu conceitos de pedagogia libertária, contrariando concepções de sua época criou sua Escola Moderna, mas foi executado pelo governo espanhol em 1909. Tivemos no Brasil um grande intelectual atuante em educação, Paulo Freire embora não fosse contrário as escolas, criticava, como ele mesmo dizia, a pedagogia bancária, sendo aquela que evidencia a diferença entre educador e educando, este sendo um mero depositário dos conhecimento do educador, sem poder haver discussão. Mas sem dúvida o grande crítico de instituições que atacam a autonomia humana foi Ivan Illich, este austríaco de currículo admirável teve na década de 1970 a publicação de obras pertinentes no que confere a temas da modernidade. Destaca-se: Sociedade sem Escolas (1971), Energia e Equidade (1974) e Nêmesis da Medicina (1975). Nestas três obras ele reuniu críticas às principais formas de expropriação da autonomia do ser humano. Ao abordar a educação, atacava a instituição escola, e defendia a educação informal como instrumento para o indivíduo exercer sua autonomia. Apontava o excessivo uso de energia como avassalador da liberdade do indivíduo, e nessa esteira elaborou o conceito de contra-produtividade, que é visível a nós diante dos transportes cada vez mais rápidos que em vez de soluções trazem mais problemas, percebemos isso nos engarrafamentos e acidentes. No caso da medicina ele aponta principalmente para a perda de conhecimentos tradicionais dos povos, que agora são extremamente dependentes de profissionais que se dizem conhecedores da saúde, além de que os sistemas médicos são extremamente dependentes de soluções criadas por grandes corporações farmacêuticas.

Após essas breves assertivas sobre a autonomia não é difícil imaginar como nossas decisões estão ficando cada vez mais distantes de nós. Convém assinalar que nossa espécie está se contentando apenas em decidir entre uma marca e outra dentro de um supermercado, ou então ter o controle dos canais de TV a assistir. Vale dizer também que os hábitos de lazer estão sendo direcionados aos centros de compra, situação acarretada pelo fato de nos sentirmos inseguros ou desmotivados em visitar um local natural ou alguma amenidade oferecida pelo poder público. É de ressaltar também que as ações do poder público estão menos voltadas ao cidadão do que ao setor privado, vê-se empenho na assistência à shoppings e não a praças e parques, corte de IPI e poucos investimentos em transporte público. Cumpre observar que estamos nos esbaldando da pseudo-autotomia, gerada através de um falso processo desenvolvimento econômico que além de gerar exclusão, cria uma ilusão de liberdade àqueles que estão inseridos no sistema produtivo.

Quiçá um dia possamos realmente nos desenvolver, não apenas na razão-técnica como temos hoje, mas sim de modo sistêmico, fluindo harmoniosamente o racional, emocional e espiritual. Assim então poderíamos escapar das paredes e valorizar a grande obra do Inefável, que nas coisas simples, as quais hoje desviamos o olhar, apresenta relações portentosas. Porém, vale dizer que para descobrir essas grandezas é preciso a liberdade para dialogar com a natureza. Essa habilidade que sempre foi cultivada sabiamente pelos autóctones, os povos nativos, que após noite de céu estrelado acordam com o sibilo dos pássaros e acompanham o despertar dos matizes reluzentes do nosso irmão sol. Infelizmente, nós, enquanto urbanos pós-modernos passamos a noite sob iluminação dissipativa e ineficiente que ofusca nossa visão para os corpos celestes, e nos faz enclausurarmos para na manha seguinte acordarmos com o eco dos pistões automotivos ou o atrito pneumático com o asfalto.

Gustavo Góes

Salvador Dali - Premonicao

Define-se monocultura como uma cultura agrícola de apenas um tipo de produto, sendo esta, uma prática muito danosa ao meio ambiente, se cultivada em grande escala, pois foge dos princípios básicos da ecologia. A natureza ensina-nos demasiadamente sobre como viver em harmonia, e para esta convivialidade em sociedade, dever-se-ia molda-las segundo os ecossistemas naturais. Não obstante, com a prática da monocultura em larga escala estamos rompendo o elo com a teia da vida, que visa o todo e não somente extrair o lucro da natureza.

Com o avanço da globalização e a ascensão do livre comércio, gradativamente as empresas multinacionais avançam as fronteiras com suas franquias igualitárias em todos os aspectos, mesmas arquiteturas de arranha-céus, lojas de departamento, shopping center, emancipando-se através de todo o globo, há quem diga que num futuro próximo alcançará outros planetas. Entretanto, essa integração econômica resulta também no domínio cultural das sociedades, tendo vista que vivemos em sociedades heterogêneas existindo assim uma real divergência de valores a serem pensadas e estudadas, mas com a chegada dessas “redes de alienação” as cidades se tornam vitimas do monopólio transnacional.

Para criarmos um futuro, sendo o reflexo do que criamos em nossas mentes e aprendemos ao longo do tempo com nossos antepassados, somos dependentes de nossos legados culturais e assim construímos arquétipos, contraditoriamente, as denominadas “redes de alienação” manipulam toda a civilização, fazendo com que nós seres humanos sejamos seres pré-moldados, máquinas de consumir e produzir.

Cumpre enfatizar que a mente humana pensa com idéias e não com informações, sendo assim, pode-se haver uma fuga deste alienamento, provinda de nossas escolhas pessoais, mudanças de paradigmas, revertendo esta desordem e voltando a essência de ser pensante. Somos seres dotados da auto-percepção, discernimento do certo e errado, é de nossa natureza viver em mútua cooperação entre todos os seres, sendo que a razão em sua forma mais abstrata, não transcede nossa natureza animal e sim faz uso dela, assim a razão não é uma essência que nos separa dos outros seres vivos, e sim coloca-nos no mesmo nível deles.

Faz-se necessário uma visão holística nos dias atuais, devido a conjuntura descrita acima, tendo em mente toda nossa integridade com Gaia e com nossos co-habitantes, dando um fim nesta dicotomia onipresente, redefinindo nossos hábitos de lazer, consumo e convívio com a natureza.

Cabe a nós a escolha de retomarmos as formas de expressões culturais em busca de um bem-estar interior e exterior, direcionando nossas ações para longe da alienação.

Gustavo G. Sanches

Ensaiando sobre a miopia

Salvador Dali - Árvore Livro

Muito se fala da era em que vivemos como a da sociedade da informação, momento que acompanhamos com grande alarde o lançamento de novos aparelhos tecnológicos com o slogan implícito de que irão “melhorar” nossas vidas. Contribuiu para se chegar nesse ponto o surgimento da TV, que comumente é chamada de meio de comunicação, mas não o é, pois não estabelece a troca de informações, mas apenas a emissão e transmissão da informação. Por outro enfoque, esse meio de informação avassala a capacidade crítica de quem o utiliza, pois o telespectador se torna apenas um sorvedor de mensagens, perdendo sua autonomia e se permitindo a passividade.

Tendo como exemplo o Brasil, suas políticas de concessão para os meios de informação permitiram à apenas poucos grupos privados a transmissão pela TV. Estes grupos se estabeleceram através da cooperação com o mercado e são hoje responsáveis pela tirania particular, termo que, conforme o célebre linguista Noam Chomsky, explica o domínio e influência da informação na posse de grupos elitizados, leiam-se grandes emissoras e grandes empresas.

É importante assinalar que os telespectadores dos canais abertos são os mais prejudicados, devido à baixa qualidade da programação, no entanto, não nos enganemos de que um pacote de TV paga vai nos libertar. A diferença é que em vez de se achar um participante na vida política ao ver o sisudo apresentador do telejornal divagar sobre acontecimentos políticos; se estará achando naturista ao ver o National Geografic ou um esportista ao ver a ESPN. Em todos os casos se será um mero espectador passivo, sujeito aos fantoches dentro daquela caixa preta que lhe fornece realidades distantes e não-dialogáveis.

Em virtude dessas considerações, retomo a diferença entre comunicação e informação. Esta última pode nos ser útil de muitas formas, mas saibamos filtrá-las para que não nos tornemos míopes em relação ao que realmente nos importa. O mundo que vivemos é criado através da linguagem, à medida que tecemos uma teia lingüística, nós coordenamos nossos comportamentos e juntos criamos nosso mundo, sendo este, um mundo de cooperação em suas formas mais simples (diálogo entre os familiares) até as mais complexas (participação democrática; trocas de energias e de recursos num ecossistema). Com a sublime emancipação da TV, estamos nos tornando seres individualistas, criando mundos individuais, se afastando cada vez mais de nossa essência como ser humano, que é a cooperação linguística, a interação entre os indivíduos; e também na relação com a natureza, que se esforça ao diálogo que na maioria das vezes não estamos dispostos.

A distância da TV* nos dará oportunidade para pensar, assim encontraremos a humanidade presente em cada um de nós, e que acionará as virtudes para a construção do bem-viver.

Gustavo Góes

*A música Teatro dos Vampiros (TV) da Legião Urbana teve sua letra escrita por Renato Russo possivelmente em alusão a TV, relacionando-a aos problemas da época.

Um grito de Liberdade

Claude Monet - soleil levant - 1872

Claude Monet - soleil levant - 1872

 

Perante a constituição da vida somos seres livres como os pássaros, voaríamos sem destino sendo beneficiados somente pelo vento que sopra demasiado.  Quão bom alimentar uma utopia desta nos dias de hoje, onde gradativamente a sociedade nos impõe barreiras tangíveis e intangíveis ao longo de nossos “vôos”.

 Cumpre enfatizar que muitas vezes essas barreiras não são perceptíveis, mas acabam nos manipulando, não nos dando direito de opinião, de escolha, até mesmo de opção, sendo que somos dominados pelo monopólio vigente. Fazendo uma analogia com os pássaros, que definitivamente são seres livres, pensemos o seguinte: Como podem os pássaros cantar, quando seus arvoredos estão sendo cortados? Como pode o homem ser livre sendo que a sociedade o reprime e o manipula perpetuamente?

 No começo de nossa existência éramos limitados somente pela Terra, pelo Oceano e pelo Céu, não havia guardas de fronteira, nem funcionários de alfândegas, éramos atraídos pela curiosidade de explorar novos horizontes. De fato no mundo contemporâneo os temidos exploradores já se aposentaram há algum tempo.

 A sociedade contemporânea não aprendeu muito com nossos antepassados que tinham tanto para nos ensinar sobre seus conhecimentos telúricos, preferimos usar a tecnologia como um fim, visitando lugares pela internet, se apaixonando pela internet, usando somente a razão, deixando de lado o “pathos” do ser humano, que é o sentimento, a capacidade de simpatia, dedicação, quando na realidade deveríamos usá-la como um meio, nos ajudando a interagir para o bem e futuro comum. Não sentimos mais a grama molhada de orvalho pela manhã, e sim o asfalto cinzento refletindo a vida que nós levamos. As barreiras que muitas vezes não percebemos é que nos distancia da natureza, levando em conta que o ser humano é parte e parcela da natureza, nós devemos co-existir com ela, interagindo com uma visão holística de mundo e não nos fechando em nossos mundos dissipados.

 Esta nova ótica para a sociedade se define na mudança de ética, tanto política, educacional, quanto econômica, deve-se mudar o pensamento de que tudo na natureza vira produto, e de que este produto deve ser linearmente descartado, devemos aprender que estamos na Terra com o mesmo propósito, independentemente de credo religioso, nacionalidade, etnia, etc. O mundo que habitamos não é nada alem de um ponto no espaço e ainda assim fomos privilegiados com a Vida, devemos desfrutá-la intensamente, mas não somente de maneira racional e sim emocional, temos que aprender a contemplar as coisas simples da vida, de contemplar nosso papel na Terra, olhar para uma cachoeira e naquele momento sentir que numa intricada rede de relações nós somos parte dela, e nos sentir livre, fora de qualquer pensamento na escala lógica.

 A liberdade nos será concedida no momento em que aprendermos onde é nosso lugar na Terra, co-existindo com a natureza como um todo, deixando de lado nosso individualismo e assim talvez conseguiremos ser livres como os pássaros.

 

                                                                                  Gustavo G. Sanches

Déficit de recursos naturais em Gaia

Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

A vida inteligente em nosso planeta conseguiu recentemente mais um feito, alcançamos já em 25 de setembro o uso dos recursos naturais necessários para o ano todo. Essa marca é contabilizada pela Global Footprint Network levando em conta os recursos para atender as demandas humanas, não só alimentação como também todo tipo de produto e serviços com suas respectivas energias utilizadas. É de se ressaltar a importância desse dado já que estamos extraindo mais do que Gaia nos fornece.

Para entendermos melhor essa conta negativa, basta olharmos os desequilíbrios diários que a natureza sofre. O grande exemplo é o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera, este gás é essencial para a vida na Terra, no entanto após a Revolução Industrial vem sendo emitido de forma exponencial pelas atividades humanas, sendo um dos principais gases que acarreta no aumento do efeito estufa, consequentemente o que conhecemos por mudanças climáticas. Tal desequilíbrio é o mais alarmante e por isso mais presente na mídia comum, entretanto convém ressaltar que pagamos a conta do uso superior dos recursos também com a poluição hídrica, desertificação, perda da biodiversidade, entre outros. Cumpre observar que toda essa conjuntura deverá refletir em inúmeros desastres ambientais num futuro não muito distante.

Vale dizer que dias atrás a ONU apontou que em 2050 dever-se-á produzir 70% mais alimento que hoje para atender a população mundial naquele ano. Mesmo sabendo de tais previsões e já com mais de um bilhão de indivíduos passando fome pelo mundo nossos lideres ainda insistem no ‘’crescimento’’ econômico, num modelo excludente e que trata a miséria e a degradação ambiental como externalidade. Talvez a humanidade esteja corrompida pelo pensamento positivo pregado nos atuais livros de auto-ajuda, podemos estar imaginando que a tecnologia evoluirá ao ponto de produzir alimento para o mundo com condições cada vez piores, ou ate mesmo colocamos esperança de encontrar outro planeta habitável no universo para nos transportar. Tomemos cuidado com a crença de que o pensamento positivo sozinho possa nos trazer o bem, lembro a filosofia estóica que coloca como mister a preparação para os males, convém assinalar que ela aborda essa questão diferenciando os males inevitáveis dos que estão ao nosso alcance. Os primeiros, segundo os estóicos, sem dúvida não devemos tê-los em preocupação devido à falta de autonomia diante de tais acontecimentos, é o caso da morte, por exemplo, pensamentos amargos a respeito só nos trará infortúnios. Entretanto outros males podemos levar em consideração e nos prepararmos melhor para enfrentá-los, isto é, aqueles quais podemos ter controle.

O que pretendo elucidar com as considerações acima é que levemos a sério o uso de nossas fontes da vida, esse estresse que estamos causando no ambiente reflete na miséria atual dos países pobres e com o passar dos tempos cada vez mais pessoas serão atingidas pelas mutações de Gaia. É importante que estejamos preparados para esses males, assim como se faz indispensável saber que os famintos do mundo são um problema evitável, ao pararmos de consumir mais que o necessário estaremos contribuindo para que mais pessoas tenham acesso a alimento.

Gustavo Góes

Bilateralidade universal

vicent van gogh - noite estrelada 1889

Imagem: Vicent Van Gogh – Noite Estrelada 1889

 

Rumo à cúpula da ONU que será realizada em Copenhagen, o tão noticiado COP 15, conferência sobre mudanças climáticas que ocorrerá em dezembro, sendo que governos do mundo todo decidirão um futuro para as mudanças climáticas, onde os líderes de todas as partes se encontram em uma bifurcação, tendo um só caminho como destino certo. Esta bilateralidade acompanha a humanidade desde o seu surgimento, criando-se sempre os “dois lados da moeda” a fusão da matéria com a não conhecida anti-matéria criou-se o universo, e se estendendo por toda a estória planetária nos deparamos com os dois opostos.

Por um lado a tarefa dos representantes da conferência pode-se basear no mesmo do mesmo, mantendo um modelo de capitalismo insustentável para com a existência da vida na Terra, e por outro, transcender para um modo-de-ser-cuidado, cuidando da casa comum, buscando uma dimensão ontológica do ser humano, replanejando nossas políticas atuais, tendo como base para uma sustentabilidade planetária, os ecossistemas, que em seu modo-de-ser vivem em ciclos, o que é resíduos para uns, é alimento para outros, outro ponto importante de citar é a dependência do Sol, sendo que nós podemos e temos oportunidades obviamente discutidas de usarmos energia solar, abandonando a queima de combustíveis fósseis.

 

Poucos são os que estão visando seguir um caminho diferente, entretanto, a situação não lhes deixa muitas opções, sendo que as recentes pesquisas sobre o impacto humano a Terra tem trazido dor de cabeça a muitos que almejam deixar de herança para seus filhos e netos o mundo com as mesmas oportunidades com a qual lhes foi entregue. O aquecimento global é uma ameaça visível, principalmente no Ártico, onde o degelo está em um acelerado processo contínuo, não obstante a isso, urge citar muitos outros problemas que o aquecimento global causa a Terra, a acidificação dos oceanos, a desertificação levando a fome a milhares de pessoas, o aumento do nível do mar trazendo milhares de migrações climáticas, entre inúmeros outros, colocando em risco toda a fauna aquática, terrestre e nós seres humanos. Não faltam sinais de alerta, e para trilhar o rumo certo se deve também integrar uma sinergia ecológica, somando esforços para suprir nossas reais necessidades.

 

O ser humano como ser pensante, homo sapiens, na definição homem sábio, tem a capacidade de auto-percepção, o saber do saber, sendo assim, espera-se que o caminho certo seja colocado em pauta, criando uma convivialidade harmônica entre homem-Terra, investindo em energias limpas, híbridas, deixando de lado a dependência dos combustíveis fósseis e resgatando os arquétipos dos seres humanos que foram esquecidos no inconsciente. Conforme dizia Thoreau “Falais do céu, vós que degradais a Terra”, pondera-se dizer que para voltarmos nossos pensamentos ao céu, devemos primeiramente ter o cuidado necessário a Terra.

 

                                                                                                           Gustavo Sanches

A estação dos sentidos

Claude Monet - A Primavera (1886)

Claude Monet - A Primavera (1886)

 

É chegada a primavera, época do ano em que floresce a esperança, depois de vencido o inverno. Quão formosa esta conjuntura que dignifica as flores, onde até mesmo em nossas cidades cinzentas a visão humana consegue perceber uma centelha da estação, que através de vigorosas plantas que enfrentam o betume e a fumaça, ainda consagram a chegada do calor oferecendo-lhe as cores. Oh seja bem vinda primavera! Que possamos no seu ímpeto redescobrir nossos sentidos que tanto deixamos de usar.

Admirável estação, que o vento que traz o pólen e leva os pássaros nos empurre para fora de nossas ‘grades’, para que saibamos laborar apenas o necessário e desfrutar inteiramente o significado do adjetivo ‘caloroso’ que fizeste surgir. “Bendito aqueles que nunca leem jornais”, diz Thoreau, “pois verão a natureza e, através dela, Deus.” Que sandice alguns docentes estimularem o culto desenfreado à informação, mal sabem onde está o conhecimento que leva à sabedoria. Sejamos gratos às manhãs e tardes primaveris, e às noites convidativas ao luar. “Não somos como aqueles que chegam a formar pensamentos senão no meio de livros,” conforme Nietzsche “o nosso hábito é pensar ao ar livre, andando, saltando, escalando, dançando (…).”

Oh! Eternidade que se faz presente, como são belas as pessoas que fazem desse mundo o seu céu, consagrando o bem viver; colocam o trabalho no seu devido lugar, podendo regozijarem com suas famílias e amigos o que a natureza os oferece. Possamos nesta primavera encontrar essa virtude.

Gustavo Góes

Posts mais antigos »

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.