Genocídio da Autonomia

•Dezembro 15, 2009 • Deixe um comentário

Tarsila do Amaral - Antropofagia (1929)

Nós seres humanos, bem como todas as outras espécies existentes, somos organismos dependentes de energia externa, e essa energia só se disponibiliza devido a intrincadas relações existentes entre outras espécies. Para ter isso claro, até mesmo a síntese da energia solar pelas plantas só é possível devido à interferência das bactérias há bilhões de anos atrás, quando somente elas existiam, que foram responsáveis pela alteração da composição química da atmosfera, fato que regulou a temperatura do planeta e possibilitou a emergência de novas formas de vida. Como se depreende, somos todos seres interdependentes. Mas esse fato não é algo pejorativo, do contrário, isso é a cooperação que assegura a vida. Por outro lado, tem-se que nossa espécie está a cada dia se tornando dependente de coisas criadas por nós mesmos; sistemas econômicos, TV, automóveis, medicina e até mesmo escolas são algumas dessas coisas que tiram a autonomia do ser humano.

A autonomia é a capacidade de tomar suas próprias decisões, uma peculiaridade que nós humanos temos por possuirmos a razão. Seria também uma variante de uma condição que se vê muito requisitada por povos ou nações colonizados, a liberdade, mas a autonomia é muito mais do que se libertar das amarras de um colono. Importante se faz realçar nessa linha de análise nosso caminho percorrido, a saga de cidadão “livre” começa cedo, como crianças ainda temos a ânsia e a grande energia de desvendar o mundo; nessa época somos levados a uma instituição que nos dará disciplina e regras, que nos guardará dentro de um espaço fechado que irá contrariar toda nossa espontaneidade. A escola dá a criança o quadro negro enquanto ela quer e precisa pisar na terra, subir na árvore e atravessar montanhas.

Como se percebe, a autonomia do indivíduo já é afetada desde pequeno. Tenha-se presente que alguns pensadores já lutaram e se posicionaram contra os métodos de ensino. Francisco Ferrer instituiu conceitos de pedagogia libertária, contrariando concepções de sua época criou sua Escola Moderna, mas foi executado pelo governo espanhol em 1909. Tivemos no Brasil um grande intelectual atuante em educação, Paulo Freire embora não fosse contrário as escolas, criticava, como ele mesmo dizia, a pedagogia bancária, sendo aquela que evidencia a diferença entre educador e educando, este sendo um mero depositário dos conhecimento do educador, sem poder haver discussão. Mas sem dúvida o grande crítico de instituições que atacam a autonomia humana foi Ivan Illich, este austríaco de currículo admirável teve na década de 1970 a publicação de obras pertinentes no que confere a temas da modernidade. Destaca-se: Sociedade sem Escolas (1971), Energia e Equidade (1974) e Nêmesis da Medicina (1975). Nestas três obras ele reuniu críticas às principais formas de expropriação da autonomia do ser humano. Ao abordar a educação, atacava a instituição escola, e defendia a educação informal como instrumento para o indivíduo exercer sua autonomia. Apontava o excessivo uso de energia como avassalador da liberdade do indivíduo, e nessa esteira elaborou o conceito de contra-produtividade, que é visível a nós diante dos transportes cada vez mais rápidos que em vez de soluções trazem mais problemas, percebemos isso nos engarrafamentos e acidentes. No caso da medicina ele aponta principalmente para a perda de conhecimentos tradicionais dos povos, que agora são extremamente dependentes de profissionais que se dizem conhecedores da saúde, além de que os sistemas médicos são extremamente dependentes de soluções criadas por grandes corporações farmacêuticas.

Após essas breves assertivas sobre a autonomia não é difícil imaginar como nossas decisões estão ficando cada vez mais distantes de nós. Convém assinalar que nossa espécie está se contentando apenas em decidir entre uma marca e outra dentro de um supermercado, ou então ter o controle dos canais de TV a assistir. Vale dizer também que os hábitos de lazer estão sendo direcionados aos centros de compra, situação acarretada pelo fato de nos sentirmos inseguros ou desmotivados em visitar um local natural ou alguma amenidade oferecida pelo poder público. É de ressaltar também que as ações do poder público estão menos voltadas ao cidadão do que ao setor privado, vê-se empenho na assistência à shoppings e não a praças e parques, corte de IPI e poucos investimentos em transporte público. Cumpre observar que estamos nos esbaldando da pseudo-autotomia, gerada através de um falso processo desenvolvimento econômico que além de gerar exclusão, cria uma ilusão de liberdade àqueles que estão inseridos no sistema produtivo.

Quiçá um dia possamos realmente nos desenvolver, não apenas na razão-técnica como temos hoje, mas sim de modo sistemático, fluindo harmoniosamente o racional, emocional e espiritual. Assim então poderíamos escapar das paredes e valorizar a grande obra do Inefável, que nas coisas simples, as quais hoje desviamos o olhar, apresenta relações portentosas. Porém, vale dizer que para descobrir essas grandezas é preciso a liberdade para dialogar com a natureza. Essa habilidade que sempre foi cultivada sabiamente pelos autóctones, os povos nativos, que após noite de céu estrelado acordam com o sibilo dos pássaros e acompanham o despertar dos matizes reluzentes do nosso irmão sol. Infelizmente, nós, enquanto urbanos pós-modernos passamos a noite sob iluminação dissipativa e ineficiente que ofusca nossa visão para os corpos celestes, e nos faz enclausurarmos para na manha seguinte acordarmos com o eco dos pistões automotivos ou o atrito pneumático com o asfalto.

Gustavo Góes

Monoculturas da mente – Uma plataforma para a alienação

•Dezembro 1, 2009 • 1 Comentário

Salvador Dali - Premonicao

Defini-se monocultura como uma cultura agrícola de apenas um tipo de produto, sendo esta, uma prática muito danosa ao meio ambiente, se cultivada em grande escala, pois foge dos princípios básicos da ecologia. A natureza ensina-nos demasiadamente sobre como viver em harmonia, e para esta convivialidade em sociedade, dever-se-ia molda-las segundo os ecossistemas naturais. Não obstante, com a prática da monocultura em larga escala estamos rompendo o elo com a teia da vida, que visa o todo e não somente extrair o lucro da natureza.

 Com o avanço da globalização e a ascensão do livre comércio, gradativamente as empresas multinacionais avançam as fronteiras com suas franquias igualitárias em todos os aspectos, mesmas arquiteturas de arranha-céus, lojas de departamento, shopping center, emancipando-se através de todo o globo, há quem diga que num futuro próximo alcançará outros planetas. Entretanto, essa integração econômica resulta também no domínio cultural das sociedades, tendo vista que vivemos em sociedades heterogêneas existindo assim uma real divergência de valores a serem pensadas e estudadas, mas com a chegada dessas “redes de alienação” as cidades se tornam vitimas do monopólio transnacional.

Para criarmos um futuro, sendo o reflexo do que criamos em nossas mentes e aprendemos ao longo do tempo com nossos antepassados, somos dependentes de nossos legados culturais e assim construímos arquétipos, contraditoriamente, as denominadas “redes de alienação” manipulam toda a civilização, fazendo com que nós seres humanos sejamos seres pré-moldados, máquinas de consumir e produzir.

 Cumpre enfatizar que a mente humana pensa com idéias e não com informações, sendo assim, pode-se haver uma fuga deste alienamento, provinda de nossas escolhas pessoais, mudanças de paradigmas, revertendo esta desordem e voltando a essência de ser pensante. Somos seres dotados da auto-percepção, discernimento do certo e errado, é de nossa natureza viver em mútua cooperação entre todos os seres, sendo que a razão em sua forma mais abstrata, não transcede nossa natureza animal e sim faz uso dela, assim a razão não é uma essência que nos separa dos outros seres vivos, e sim coloca-nos no mesmo nível deles.

 Faz-se necessário uma visão holística nos dias atuais, devido a conjuntura descrita acima, tendo em mente toda nossa integridade com Gaia e com nossos co-habitantes, dando um fim nesta dicotomia onipresente, redefinindo nossos hábitos de lazer, consumo e convívio com a natureza.

Cabe a nós a escolha de retomarmos as formas de expressões culturais em busca de um bem-estar interior e exterior, direcionando nossas ações para longe da alienação.  

                                                                                                Gustavo G. Sanches

Ensaiando sobre a miopia

•Novembro 23, 2009 • Deixe um comentário

Salvador Dali - Árvore Livro

Muito se fala da era em que vivemos como a da sociedade da informação, momento que acompanhamos com grande alarde o lançamento de novos aparelhos tecnológicos com o slogan implícito de que irão “melhorar” nossas vidas. Contribuiu para se chegar nesse ponto o surgimento da TV, que comumente é chamada de meio de comunicação, mas não o é, pois não estabelece a troca de informações, mas apenas a emissão e transmissão da informação. Por outro enfoque, esse meio de informação avassala a capacidade crítica de quem o utiliza, pois o telespectador se torna apenas um sorvedor de mensagens, perdendo sua autonomia e se permitindo a passividade.

Tendo como exemplo o Brasil, suas políticas de concessão para os meios de informação permitiram à apenas poucos grupos privados a transmissão pela TV. Estes grupos se estabeleceram através da cooperação com o mercado e são hoje responsáveis pela tirania particular, termo que, conforme o célebre linguista Noam Chomsky, explica o domínio e influência da informação na posse de grupos elitizados, leiam-se grandes emissoras e grandes empresas.

É importante assinalar que os telespectadores dos canais abertos são os mais prejudicados, devido à baixa qualidade da programação, no entanto, não nos enganemos de que um pacote de TV paga vai nos libertar. A diferença é que em vez de se achar um participante na vida política ao ver o sisudo apresentador do telejornal divagar sobre acontecimentos políticos; se estará achando naturista ao ver o National Geografic ou um esportista ao ver a ESPN. Em todos os casos se será um mero espectador passivo, sujeito aos fantoches dentro daquela caixa preta que lhe fornece realidades distantes e não-dialogáveis.

Em virtude dessas considerações, retomo a diferença entre comunicação e informação. Esta última pode nos ser útil de muitas formas, mas saibamos filtrá-las para que não nos tornemos míopes em relação ao que realmente nos importa. O mundo que vivemos é criado através da linguagem, à medida que tecemos uma teia lingüística, nós coordenamos nossos comportamentos e juntos criamos nosso mundo, sendo este, um mundo de cooperação em suas formas mais simples (diálogo entre os familiares) até as mais complexas (participação democrática; trocas de energias e de recursos num ecossistema). Com a sublime emancipação da TV, estamos nos tornando seres individualistas, criando mundos individuais, se afastando cada vez mais de nossa essência como ser humano, que é a cooperação linguística, a interação entre os indivíduos; e também na relação com a natureza, que se esforça ao diálogo que na maioria das vezes não estamos dispostos.

A distância da TV* nos dará oportunidade para pensar, assim encontraremos a humanidade presente em cada um de nós, e que acionará as virtudes para a construção do bem-viver.

Gustavo Góes

*A música Teatro dos Vampiros (TV) da Legião Urbana teve sua letra escrita por Renato Russo possivelmente em alusão a TV, relacionando-a aos problemas da época.

Um grito de Liberdade

•Outubro 20, 2009 • Deixe um comentário
Claude Monet - soleil levant - 1872

Claude Monet - soleil levant - 1872

 

Perante a constituição da vida somos seres livres como os pássaros, voaríamos sem destino sendo beneficiados somente pelo vento que sopra demasiado.  Quão bom alimentar uma utopia desta nos dias de hoje, onde gradativamente a sociedade nos impõe barreiras tangíveis e intangíveis ao longo de nossos “vôos”.

 Cumpre enfatizar que muitas vezes essas barreiras não são perceptíveis, mas acabam nos manipulando, não nos dando direito de opinião, de escolha, até mesmo de opção, sendo que somos dominados pelo monopólio vigente. Fazendo uma analogia com os pássaros, que definitivamente são seres livres, pensemos o seguinte: Como podem os pássaros cantar, quando seus arvoredos estão sendo cortados? Como pode o homem ser livre sendo que a sociedade o reprime e o manipula perpetuamente?

 No começo de nossa existência éramos limitados somente pela Terra, pelo Oceano e pelo Céu, não havia guardas de fronteira, nem funcionários de alfândegas, éramos atraídos pela curiosidade de explorar novos horizontes. De fato no mundo contemporâneo os temidos exploradores já se aposentaram há algum tempo.

 A sociedade contemporânea não aprendeu muito com nossos antepassados que tinham tanto para nos ensinar sobre seus conhecimentos telúricos, preferimos usar a tecnologia como um fim, visitando lugares pela internet, se apaixonando pela internet, usando somente a razão, deixando de lado o “pathos” do ser humano, que é o sentimento, a capacidade de simpatia, dedicação, quando na realidade deveríamos usá-la como um meio, nos ajudando a interagir para o bem e futuro comum. Não sentimos mais a grama molhada de orvalho pela manhã, e sim o asfalto cinzento refletindo a vida que nós levamos. As barreiras que muitas vezes não percebemos é que nos distancia da natureza, levando em conta que o ser humano é parte e parcela da natureza, nós devemos co-existir com ela, interagindo com uma visão holística de mundo e não nos fechando em nossos mundos dissipados.

 Esta nova ótica para a sociedade se define na mudança de ética, tanto política, educacional, quanto econômica, deve-se mudar o pensamento de que tudo na natureza vira produto, e de que este produto deve ser linearmente descartado, devemos aprender que estamos na Terra com o mesmo propósito, independentemente de credo religioso, nacionalidade, etnia, etc. O mundo que habitamos não é nada alem de um ponto no espaço e ainda assim fomos privilegiados com a Vida, devemos desfrutá-la intensamente, mas não somente de maneira racional e sim emocional, temos que aprender a contemplar as coisas simples da vida, de contemplar nosso papel na Terra, olhar para uma cachoeira e naquele momento sentir que numa intricada rede de relações nós somos parte dela, e nos sentir livre, fora de qualquer pensamento na escala lógica.

 A liberdade nos será concedida no momento em que aprendermos onde é nosso lugar na Terra, co-existindo com a natureza como um todo, deixando de lado nosso individualismo e assim talvez conseguiremos ser livres como os pássaros.

 

                                                                                  Gustavo G. Sanches

Déficit de recursos naturais em Gaia – ”blog action day”

•Outubro 15, 2009 • Deixe um comentário
Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

Candido Portinari - Os Retirantes (1944)

A vida inteligente em nosso planeta conseguiu recentemente mais um feito, alcançamos já em 25 de setembro o uso dos recursos naturais necessários para o ano todo. Essa marca é contabilizada pela Global Footprint Network levando em conta os recursos para atender as demandas humanas, não só alimentação como também todo tipo de produto e serviços com suas respectivas energias utilizadas. É de se ressaltar a importância desse dado já que estamos extraindo mais do que Gaia nos fornece.

 Para entendermos melhor essa conta negativa, basta olharmos os desequilíbrios diários que a natureza sofre. O grande exemplo é o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera, este gás é essencial para a vida na Terra, no entanto após a Revolução Industrial vem sendo emitido de forma exponencial pelas atividades humanas, sendo um dos principais gases que acarreta no aumento do efeito estufa, consequentemente o que conhecemos por mudanças climáticas. Tal desequilíbrio é o mais alarmante e por isso mais presente na mídia comum, entretanto convém ressaltar que pagamos a conta do uso superior dos recursos também com a poluição hídrica, desertificação, perda da biodiversidade, entre outros. Cumpre observar que toda essa conjuntura deverá refletir em inúmeros desastres ambientais num futuro não muito distante.

 Vale dizer que dias atrás a ONU apontou que em 2050 dever-se-á produzir 70% mais alimento que hoje para atender a população mundial naquele ano. Mesmo sabendo de tais previsões e já com mais de um bilhão de indivíduos passando fome pelo mundo nossos lideres ainda insistem no ‘’crescimento’’ econômico, num modelo excludente e que trata a miséria e a degradação ambiental como externalidade. Talvez a humanidade esteja corrompida pelo pensamento positivo pregado nos atuais livros de auto-ajuda, podemos estar imaginando que a tecnologia evoluirá ao ponto de produzir alimento para o mundo com condições cada vez piores, ou ate mesmo colocamos esperança de encontrar outro planeta habitável no universo para nos transportar. Tomemos cuidado com a crença de que o pensamento positivo sozinho possa nos trazer o bem, lembro a filosofia estóica que coloca como mister a preparação para os males, convém assinalar que ela aborda essa questão diferenciando os males inevitáveis dos que estão ao nosso alcance. Os primeiros, segundo os estóicos, sem duvida não devemos tê-los em preocupação devido à falta de autonomia diante de tais acontecimentos, é o caso da morte, por exemplo, pensamentos amargos a respeito só nos trará infortúnios. Entretanto outros males podemos levar em consideração e nos prepararmos melhor para enfrentá-los, isto é, aqueles quais podemos ter controle.

O que pretendo elucidar com as considerações acima é que levemos a serio o uso de nossas fontes da vida, esse estresse que estamos causando no ambiente reflete na miséria atual dos países pobres e com o passar dos tempos cada vez mais pessoas serão atingidas pelas mutações de Gaia. É importante que estejamos preparados para esses males, assim como se faz indispensável saber que os famintos do mundo são um problema evitável, ao pararmos de consumir mais que o necessário estaremos contribuindo para que mais pessoas tenham acesso a alimento.

Gustavo Góes

Bilateralidade universal

•Outubro 6, 2009 • 1 Comentário

vicent van gogh - noite estrelada 1889

Imagem: Vicent Van Gogh – Noite Estrelada 1889

 

Rumo à cúpula da ONU que será realizada em Copenhagen, o tão noticiado COP 15, conferência sobre mudanças climáticas que ocorrerá em dezembro, sendo que governos do mundo todo decidirão um futuro para as mudanças climáticas, onde os líderes de todas as partes se encontram em uma bifurcação, tendo um só caminho como destino certo. Esta bilateralidade acompanha a humanidade desde o seu surgimento, criando-se sempre os “dois lados da moeda” a fusão da matéria com a não conhecida anti-matéria criou-se o universo, e se estendendo por toda a estória planetária nos deparamos com os dois opostos.

Por um lado a tarefa dos representantes da conferência pode-se basear no mesmo do mesmo, mantendo um modelo de capitalismo insustentável para com a existência da vida na Terra, e por outro, transcender para um modo-de-ser-cuidado, cuidando da casa comum, buscando uma dimensão ontológica do ser humano, replanejando nossas políticas atuais, tendo como base para uma sustentabilidade planetária, os ecossistemas, que em seu modo-de-ser vivem em ciclos, o que é resíduos para uns, é alimento para outros, outro ponto importante de citar é a dependência do Sol, sendo que nós podemos e temos oportunidades obviamente discutidas de usarmos energia solar, abandonando a queima de combustíveis fósseis.

 

Poucos são os que estão visando seguir um caminho diferente, entretanto, a situação não lhes deixa muitas opções, sendo que as recentes pesquisas sobre o impacto humano a Terra tem trazido dor de cabeça a muitos que almejam deixar de herança para seus filhos e netos o mundo com as mesmas oportunidades com a qual lhes foi entregue. O aquecimento global é uma ameaça visível, principalmente no Ártico, onde o degelo está em um acelerado processo contínuo, não obstante a isso, urge citar muitos outros problemas que o aquecimento global causa a Terra, a acidificação dos oceanos, a desertificação levando a fome a milhares de pessoas, o aumento do nível do mar trazendo milhares de migrações climáticas, entre inúmeros outros, colocando em risco toda a fauna aquática, terrestre e nós seres humanos. Não faltam sinais de alerta, e para trilhar o rumo certo se deve também integrar uma sinergia ecológica, somando esforços para suprir nossas reais necessidades.

 

O ser humano como ser pensante, homo sapiens, na definição homem sábio, tem a capacidade de auto-percepção, o saber do saber, sendo assim, espera-se que o caminho certo seja colocado em pauta, criando uma convivialidade harmônica entre homem-Terra, investindo em energias limpas, híbridas, deixando de lado a dependência dos combustíveis fósseis e resgatando os arquétipos dos seres humanos que foram esquecidos no inconsciente. Conforme dizia Thoreau “Falais do céu, vós que degradais a Terra”, pondera-se dizer que para voltarmos nossos pensamentos ao céu, devemos primeiramente ter o cuidado necessário a Terra.

 

                                                                                                           Gustavo Sanches

A estação dos sentidos

•Setembro 29, 2009 • 1 Comentário
Claude Monet - A Primavera (1886)

Claude Monet - A Primavera (1886)

 

É chegada a primavera, época do ano em que floresce a esperança, depois de vencido o inverno. Quão formosa esta conjuntura que dignifica as flores, onde até mesmo em nossas cidades cinzentas a visão humana consegue perceber uma centelha da estação, que através de vigorosas plantas que enfrentam o betume e a fumaça, ainda consagram a chegada do calor oferecendo-lhe as cores. Oh seja bem vinda primavera! Que possamos no seu ímpeto redescobrir nossos sentidos que tanto deixamos de usar.

Admirável estação, que o vento que traz o pólen e leva os pássaros nos empurre para fora de nossas ‘grades’, para que saibamos laborar apenas o necessário e desfrutar inteiramente o significado do adjetivo ‘caloroso’ que fizeste surgir. “Bendito aqueles que nunca leem jornais”, diz Thoreau, “pois verão a natureza e, através dela, Deus.” Que sandice alguns docentes estimularem o culto desenfreado à informação, mal sabem onde está o conhecimento que leva à sabedoria. Sejamos gratos às manhãs e tardes primaveris, e às noites convidativas ao luar. “Não somos como aqueles que chegam a formar pensamentos senão no meio de livros,” conforme Nietzsche “o nosso hábito é pensar ao ar livre, andando, saltando, escalando, dançando (…).”

Oh! Eternidade que se faz presente, como são belas as pessoas que fazem desse mundo o seu céu, consagrando o bem viver; colocam o trabalho no seu devido lugar, podendo regozijarem com suas famílias e amigos o que a natureza os oferece. Possamos nesta primavera encontrar essa virtude.

Gustavo Góes

Ordem a partir do Caos

•Setembro 22, 2009 • Deixe um comentário

'' O Expressionismo de Edvard Munch - (1863 - 1944)''

Imagem: O Grito  - Edvard Munch (1863-1944)

 

Na mitologia grega entende-se Caos (do grego Χάος) como a primeira divindade a surgir no universo, sendo o mais velho dos deuses, atribuindo em seu conjunto desordem e confusão. Corrobora o fato de ser de complexo o entendimento mitologico. Avançando na linha do tempo, desde o surgimento do universo até os dias atuais, o caos se mostra muito presente, associado com algo que não está caminhando conforme deveria, como algo malévolo.

 Com a atual situaçao planetaria um bom aprendizado é reaprender com nossos ancestrais, analisarmos suas açoes perante a Terra (Tellus). No período Paleolítico (Idade da Pedra Lascada) da história, nossos ancestrais veneravam sua Mae Terra (Tellus) com imensa exaltação, à admiravam como uma flor que esperou uma longa jornada até chegada hora de florescer, existia um profundo sentimento de compaixão e convivio homem-natureza. Passando este período, a evolução nos trouxe para o Neolítico (Idade da Pedra Polida) onde o Caos novamente haveria de ressurgir das entranhas do obscuro. Este periodo da historia foi marcado pela razão analítica-instrumentalista onde o homem começou a desenvolver instrumentos, ora para auto-sobrevivência, ora facilitar a vida com para cada outro e para com o planeta, formando um bem-estar planetário. Mas o que ocorreu fora o oposto escravizando ainda mais os seres humanos, visando a produção em massa. Urge citar que com este avanço, cada vez mais os seres humanos se desentretiam da natureza, fugindo do ciclo natural de todos os seres vivos que são formados por comunidades, aí cria-se as sociedades.  Com este breve resumo da evolução racional dos seres humanos, pode-se notar que a inteligência nos difere de qualquer outro ser vivo, basta olhar ao seu redor e notará que somente a evolução jamais construiria edificios, colocaria refrigeradores dentro de nossas casas e outras demais provas da inteligência do ser humano.

 Não nos distanciando dos outros organismos vivos existentes, estamos numa busca perene pelo equilibrio, em constante flutuação de um ciclo planetário, passando por eras do fogo, da água e  glacial. Exemplificando as fases da Terra, estamos nós nos dias atuais acelerando um processo natural, adiando ciclos naturais. Com a industrialização crescente devemos ser simbiontes*, trabalhar em cooperação natureza-homem-máquina, não se submetendo as máquinas, mas sim trabalhando em harmonia para uma vida melhor. Devemos cada vez mais alimentar utopias, acreditar em um mundo melhor, caso contrario, nos tornamos vitimas da massa governante que usam o poder para seus próprios interesses, devemos sim almejar uma sociedade melhor. Devemos aprender com nossos ancestrais, com as ciências empíricas, usar um tempo de caos para uma nova ordem, onde a harmonia reinará, onde não haverá muralhas intangíveis ao longo dos caminhos, onde a convivialidade contemporânea emergerá com seu real significado visando combinar o valor técnico de produçao material com o valor etico da produção social-espiritual.

 * simbiontes, ser que faz simbiose, beneficiando-se mutuamente, referindo-se no texto a fim de fazer simbiose com a máquina, mas não para se submeter a ela, e sim trabalhar em harmonia com ela, melhorando a qualidade de vida planetária.

É possível um mundo melhor?

•Setembro 14, 2009 • 1 Comentário
Henri Matisse -  A Dança (1910)

Henri Matisse - A Dança (1910)

Dias atrás pessoas debatiam próximo a mim sobre a possibilidade de um mundo melhor, um era fundamentalista religioso que vive na sua comunidade tranquila respeitando seus irmãos e as coisas da terra, era cético em relação a um mundo melhor fora das suas crenças; o outro era um jovem cheio de vitalidade para fazer que suas atividades tenham o propósito do bem comum. Ouvi dizer numa certa vez que as duas coisas que apequenam a humanidade são a dúvida e o complexo de inferioridade, teria o segundo rapaz sucesso em sua peleja no mundo cheio de insensatez, a buscar dias melhores?

Como se há de verificar, o pessimismo do religioso talvez possa ser explicado por vivermos num mundo cheio de oprimidos e vilipendiados, e para personificar essa situação não se pode deixar de citar a economia como grande responsável pelas mazelas atuais. Essa ciência surgiu para suprir as necessidades humanas através do fluxo de mercadorias, no entanto é só ligar o noticiário ou ler o jornal que se percebe que quase tudo é quantificado economicamente. Em vez de uma ciência que se atenta na sua principal função, ela encontrou no modelo capitalista a oportunidade da construção de pirâmides, isto é, sociedades hierarquizadas que com a orientação organizacional cartesiana de Taylor*, potencializou a exploração da terra e dos povos da terra, estabelecendo como abissal a distância do cume da pirâmide, onde estão os que detêm a tecnologia, conhecimento e capital, até a base que fornece os recursos e o suor para a geração do material econômico. Saliente-se que em toda essa conjuntura, disfarçada e conhecida como crescimento, ainda há espaço para a ilusão da filantropia barata na qual, salve raras exceções, esposas de altos executivos se gabam com suas fundações que fornecem os restos de sua classe, ou talvez alguns % dos seus contracheques, resultando na missão cumprida do seu ego, publicidade do seu sobrenome e no rebaixamento de quem os recebe, pois o sistema continua a “todo vapor”, ricos mais ricos e pobres buscando seu lugar ao sol, criminalizados na mídia por invadirem terras ou excluídos da mídia os milhares de escravos existentes.

Ufa… Esse é o mundo, será possível melhorá-lo? Essa dúvida já não cabe, é tarde para ser pessimista, é PRECISO melhorar o mundo! Alguns acham utopia, quiçá um sonho, muitos melhorarão o mundo pelo medo das previsões da pobreza, dos refugiados climáticos e da insegurança, outros pela esperança da salvação numa outra vida, a questão é que o mundo melhor só se pode melhorando a nós mesmos, a chamada revolução molecular, fazendo o bem com gratuidade, não o reduzindo a atos isolados de fim de semana, mas sendo o bem, eterno ao ponto de se expressar na forma involuntária.

O mundo é uma grande rede, tudo está interligado e o bem nunca será solitário. A única coisa construída de cima para baixo é o poço, o mundo melhor surge nas atitudes de cada um, através da nossa alegria que se contagia, respeito, gratidão, consumo consciente, enfim, da humanidade. Por tais razões surge a pergunta: Você está melhorando o mundo?

*Criador da administração científica, caracterizada pela especialização das tarefas.

Gustavo Góes

Consciência Planetária

•Setembro 8, 2009 • Deixe um comentário

 

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Muito se fala sobre a consciência no período em que vivemos, seja ela em todas as formas, abrangendo um todo. O fato é de que estamos vivenciando um caos de consciência começando em nossos governos, avançando para os cidadãos comuns e levando este caos para consciência da natureza, que ultimamente tem-se demonstrado um tanto quanto inconsciente. Esta como principal abordagem do tema que leva a sociedade para uma inflexão perene de seus atos sobre o planeta Terra.

 Como já se pode ter uma noção da idade do planeta Terra que estima-se em 4 bilhões e meio de anos, este planeta presenciou momentos cataclísmicos extinguindo varias formas de vida e sendo que nós, seres humanos, estamos apenas fazendo parte de mais uma era das muitas que estão por vir de uma serie de organismos que passaram por aqui. Nenhuma espécie avançou tanto como nós, avanço este marcado pela ciência, tecnologia, uma serie de demonstrações da imensa inteligência dos seres humanos como totalidades auto-reguladores, auto-organizadores, auto-reprodutores vivendo um para cada outro no sentido de reproduzir, ao contrario das maquinas que vivem uma para outra. Paradoxalmente emergindo uma inconsciência planetária de divisionismo, marcada pela hierarquia sobreposta por nós. Em todas as outras formas de vida não existe hierarquia, segue um exemplo, imagine uma sequóia com seus oitenta metros de comprimento, sendo observada por nós, e a comparamos com um carvalho, muito menor proporcionalmente que a sequóia, imaginemos que a sequóia com seus status de grandiosidade tem-se o domínio sobre o carvalho, entretanto o carvalho é muito mais avançado na escala evolutiva, devemos observar que na teia da vida cada espécie desenvolve seu papel, sendo que não existe hierarquia entre os organismos vivos.  Em sociedade e ecologia de Murray Bookchin ele demonstra claramente como estamos em uma sociedade que se opõe a natureza, causando conflitos a Gaia com o pensamento obsoleto de domínio, como um objeto. Pondera-se também que a inconsciência parte de algumas premissas religiosas, as pessoas cada vez mais crêem num futuro definido, não há mudança de hábitos, mudança de pensamentos, porque com a crença religiosa tudo esta definido, devemos fazer parte desta mudança de paradigma para que conciliamos esta maravilhosa criação com seu criador.

 Dever-se-ia mais preocupação dos educadores em trabalhar este tema com seus educandos, como dizia Pitágoras “Educai as crianças, assim não serás necessário julgar os adultos”. Todos nascemos com uma boa consciência, aprimorado-a quando crianças é possível que nos tornamos adultos de dignidade e respeito. Deve-se esclarecer que a entropia que se manifesta na educação em nossa sociedade encontra-se nos governos, dando prioridade para investimentos capitalistas onde o mundo se encontra em uma crise climática. Colocando em questão que os seres humanos são auto-determinantes e cada um escolhe seu caminho, não podemos deixar de citar que para alguns o caminho já esta definido, como citado acima, sendo assim, a escolha mais fácil seria o caminho da inconsciência.

 Devemos compreender onde é o espaço da humanidade no planeta terra, respeitando todas as formas de vida, exercitando propósitos conscientes, vivendo em harmonia, porque pode-se fugir de todos os problemas exteriores, mas da consciência não se pode escapar, traçaremos muitas batalhas para nos tornar autoconscientes. Segue abaixo trecho da carta do chefe indígena Seattle para reflexão.

 Isto sabemos, todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família….

Tudo o que acontece com a Terra, acontece com os filhos e filhas da Terra, O homem não tece a teia da vida; ele é apenas um fio. Tudo o que faz a teia, faz a si mesmo.  Chefe  Seattle

 

                                                                                 Gustavo G. Sanches