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Foto: Roberto Custódio/Arquivo Jornal de Londrina

 

Até agora, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) não explicou para a comunidade científica do Paraná e à população de Londrina o motivo pelo qual diminuiu quase 30% da zona de amortecimento que protege o Parque Estadual da Mata dos Godoy (PEMG). O PEMG é a maior floresta nativa de Mata Atlântica existente por aqui e a mais biodiversa do Norte do Paraná. Por abrigar de onças a antas, de perobas a palmitos, é área federal prioritária para a conservação.

A zona de amortecimento (ZA) é um buffer – previsto em lei federal – que serve para diminuir impactos perto de Unidades de Conservação (UC). A existência da ZA serve para prevenir, por exemplo, que uma indústria poluente se instale ao lado de uma mata, o que significaria a morte do ecossistema, ainda se a floresta restasse em pé. Em três meses, sem consultar a comunidade científica paranaense dedicada à Mata dos Godoy (e que trabalha no assunto desde antes mesmo de tornar-se parque), o IAP revisou a zona de amortecimento – para menos. Na surdina, o IAP decidiu que era melhor que o buffer da Mata dos Godoy ficasse quase um terço menor.

Sem ouvir nem mesmo o Conselho do Parque, o órgão produziu e aprovou um documento de 13 páginas com um suposto embasamento técnico. Nele, o IAP afirma claramente que a medida foi motivada por pressões imobiliárias e ruralistas de Londrina. Frágil, o relatório do IAP comete impropriedades e exclui da ZA até mesmo um conjunto de nascentes do Ribeirão Apertados, que corta a Mata dos Godoy. Ninguém entendeu. O documento não explica.

A zona de amortecimento de um parque é sempre rural. Fazendas, pasto, restaurantes rurais, chácaras de lazer, hortas, pesque-pague – tudo que “combina” com a existência da floresta é permitido nela. Medida de inteligência que serve como escudo para fragmentos de Mata Atlântica como o PEMG. Além da própria Mata dos Godoy, a ZA, reduzida, envolve 62 pequenas e médias florestas conectadas em um ecossistema entre Londrina, Arapongas e Apucarana. É nosso maior ativo ambiental, inexistente em outras cidades brasileiras que optaram pelo concreto total.

Resta tão pouco de Mata Atlântica no Norte do Paraná – só 8% da original – que a única medida viável para alterar a zona de amortecimento, neste contexto, seria aumentar cuidados ambientais com a região da nossa floresta. Não é possível instalar parte da cidade em uma ZA; muito menos destiná-la a indústrias de alto risco, como deseja a prefeitura de Londrina, agora com a concordância do governo do Paraná.

Por princípio do Direito Ambiental, é incabível retroceder proteções. Antes de rediscutirmos qualquer proteção, há uma lição de casa pendente para a industrialização de Londrina. Por zelo pelo espaço urbano, Londrina ainda precisa reformular e encher as áreas industriais onde já existe infraestrutura precária, lotes abandonados e poucas ou nenhuma empresa, denúncia já feita pela própria Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil).

Proteger menos é não apenas ilegal como surpreendente. Uma ação de Estado curiosa, desencadeada pelo próprio órgão ambiental, como se tomado por amnésia da sua única razão de existir.

Estamos a postos com o que temos: a ciência, seriedade técnica, as leis ambientais do nosso país. Os responsáveis pela redução da proteção à mata – gestores do IAP em Londrina e Curitiba e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente – ainda devem explicações. Sempre é tempo de recuar de um erro. Quem comanda e trabalha no órgão precisa erguer-se do que é mais rasteiro e olhar-nos como sociedade, ao nível dos nossos olhos, para discutirmos a real importância da Mata dos Godoy para Londrina e o Norte do Paraná.

Inaceitável reduzir um ecossistema de tal importância a uma decisão movida pelo imediatismo, pela pressão econômica banal e falta de legitimidade. Não coloquem a história do IAP no mais pantanoso descrédito.

Gustavo Góes é gestor ambiental da ONG MAE. Alba Cavalheiro é bióloga na UEL. Marcelo Frazão é jornalista da ONG MAE.
*Artigo publicado originalmente na coluna opinião do jornal Gazeta do Povo em 22/10/2016.
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A tentativa de urbanizar o entorno do Parque Estadual Mata dos Godoy vem sendo motivo de inúmeras discussões em Londrina e região. Do boteco aos gabinetes e das redações aos tribunais, todos agora sabem da existência da tal da “zona de amortecimento”.

Pois bem, o centro das atenções é uma região ao sul da cidade de Londrina, onde hoje existe menos concreto e mais verde. Por lá podemos encontrar uma imensa fábrica: o Complexo da Mata dos Godoy. Esse conjunto de florestas de Mata Atlântica, das últimas, é capaz de produzir água e ar puro para Londrina, Cambé, Rolândia, Apucarana e Arapongas. Também é um celeiro de pesquisas científicas, serviços ambientais e regulação do microclima local. A Mata ainda tem bichos raros, mas em risco de extinção – mais de 300 espécies de aves, 60 de mamíferos e 200 de árvores existem por lá. Quem pesquisa, considera essa região como o imenso “ar-condicionado verde” de Londrina e um patrimônio incomensurável.

Ocorre que a extensão protegida legalmente como parque soma menos de 1% do território do Município de Londrina. Isto é, toda a riqueza em biodiversidade que temos extravasa os limites estabelecidos como área protegida e dependem em muito do que está em toda a sua volta. Essa é a essência de se ter definida uma zona de amortecimento, como previsto no Sistema Nacional de Unidades de Conservação – Snuc (Lei 9.985/2000).

A importância da proteção efetiva das áreas no entorno de parques e reservas é ratificada por uma publicação da revista científica Nature de 2012, intitulada “Evitando colapso da biodiversidade nas áreas protegidas de floresta tropical”, de autoria de uma equipe de 166 pesquisadores liderada por Willian Laurence da Universidade James Cook, na Austrália.

Os pesquisadores analisaram diversos indicadores em 60 áreas protegidas nas principais regiões tropicais do mundo e chegaram ao resultado de que as mudanças ambientais no entorno desses locais contribuem de igual forma ao que acontece no interior dessas áreas para a qualidade e proteção da sua biodiversidade. Ou seja: se não houver atenção para com as atividades prejudiciais à natureza além da porteira dos parques, a tendência é que tais áreas protegidas sofram com a deterioração de seus ambientes e de suas espécies, acarretando no colapso dos ecossistemas.

Isso nos leva a crer que, para manter a conectividade entre as diversas florestas que temos por aqui, precisamos envolver a comunidade local e valorizar as atividades de baixo impacto já existentes nesse território. E mais que isso: que a prefeitura promova o crescimento dessa região, mas não em concreto e indústrias pesadas e sim em políticas públicas de incentivo à área rural. Assim teremos garantida a qualidade de vida e a riqueza ambiental que nossa terra vermelha sempre nos proporcionou.

Protegendo o entorno da Mata dos Godoy, vamos garantir não só a conservação de um punhado de espécies silvestres, mas também o bem estar de nós humanos para os tempos que virão.

Gustavo Góes é conselheiro do meio ambiente de Londrina e Diretor da ONG MAE, Edgard Menezes é consultor empresarial e professor.

*Artigo publicado originalmente na coluna Espaço Aberto da Folha de Londrina e na coluna Ponto de Vista do Jornal de Londrina.

Anta no Rio (2014) - Houto

Anta no Rio (2014) – Houto

Espaço Aberto – Folha de Londrina (09/10/2014)* Aposto que cada um de nós conhece uma anta, não é mesmo? Bastante esperta e sempre muito importante na sua comunidade, ela é cuidadosa com os filhos e mora em lugares com gigantes quintais. Pois é, estamos falando do maior mamífero terrestre de toda a América do Sul. Cientificamente chamada de “Tapirus terrestris”, a anta não habita áreas urbanas e é um animal dócil e nada abundante. Herbívora, a anta ingere uma infinidade de frutos diferentes e os dispersa por meio das suas fezes. Como tem o hábito de se deslocar por grandes distâncias, renova os ambientes por onde passa, “plantando” centenas de novas árvores e arbustos todos os dias. Por tais atributos, a anta é apontada por pesquisadores como uma engenheira de ecossistemas – ou, então, a jardineira da floresta. Estudos recentes indicam que a anta não tem absolutamente nada de tola ou obtusa. Pelo contrário, os resultados mostram que o bicho tem uma grande quantidade de neurônios e muito bem usados. Portanto, quando alguém gentilmente chama outra pessoa de anta deveria estar fazendo é um belo de um elogio! Buscando melhorar a imagem das antas diante dos brasileiros, a Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil (SZB) e o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE) se uniram na campanha “Minha Amiga é uma Anta”. O objetivo é desmistificar o conceito enganoso de que a anta seria um animal não muito inteligente, além, é claro, de disseminar informações sobre a importância da conservação da espécie. A campanha visa inicialmente alcançar o público infanto-juvenil por meio de cartilhas educativas, disponíveis na internet e em diversos zoológicos e aquários brasileiros. A anta é ameaçada de extinção em todo o Brasil e, principalmente, na Mata Atlântica, bioma com maior degradação de todo o País. A região de Londrina se destaca como um dos raros locais da Mata Atlântica onde as antas ainda sobrevivem, mesmo sob muitas ameaças. Correndo perigo de se extinguir nas próximas décadas, uma pequena população de antas permanece na paisagem agropecuária da região e é extremamente dependente dos parques, várzeas e reservas particulares ainda existentes. A fim de conhecer a fundo as condições ecológicas e traçar estratégias para a sobrevivência da anta no Norte do Paraná, a ONG Meio Ambiente Equilibrado (MAE) executa atualmente o projeto Caminho das Antas. Tal iniciativa tem respaldo científico da Universidade Estadual de Londrina, por meio do Laboratório de Biodiversidade e Restauração de Ecossistemas (Labre), além de parceria da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná (Sema-PR), Promotoria do Meio Ambiente e financiamento da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Pesquisadores do projeto percorrem uma área equivalente a mais de 100 mil campos de futebol para levantar dados importantes para a conservação da anta pelas nossas bandas. Se por um lado a caça, a poluição dos rios e a fragmentação das florestas oriunda do desmatamento de décadas sejam as causas do processo de extinção desses animais, por outro, a manutenção de florestas em sítios e fazendas, a prisão de caçadores e o alerta de motoristas para o risco dos atropelamentos podem contribuir muito para a sobrevivência das antas. Para ser amigo da anta podemos até ir ao zoológico e tirar foto perto dela, mas mais que isso, a anta precisa de floresta em pé e de rios limpos, de caçador nem pensar! O verdadeiro amigo da anta também só fala bem dela, afinal, anta é elogio! GUSTAVO GÓES é gestor ambiental em Londrina e participa do projeto Caminho das Antas *Artigo publicado originalmente na coluna Espaço Aberto da Folha de Londrina –
http://va.mu/AdYbZ

Mata Atlântica (2010) -  Márcia Valle

Mata Atlântica (2010) – Márcia Valle

O Dia da Árvore (21 de setembro) marca todos os anos a chegada da primavera no Brasil e é uma bela homenagem às representantes da nossa natureza. Mas as árvores não devem ser vistas como organismos estáticos, festejadas apenas pela beleza estética. Mais que isso, são a sustentação do ambiente de Mata Atlântica, onde vivemos.

Uma das florestas tropicais mais ameaçadas do planeta, a Mata Atlântica está presente em 17 estados brasileiros. No campo e nas cidades, a Mata Atlântica é moradia de mais de 60% da população brasileira. Ela não abrange apenas nossos litorais: no Paraná, por exemplo, está presente em 98% da área do estado, inclusive na região de Londrina.

As árvores da Mata Atlântica, somadas às outras espécies vegetais, passam de 20 mil espécies. Junto de nós, humanos, habitam por aqui 270 outras espécies de mamíferos, além de 992 espécies de aves, 197 de répteis, 372 tipos de anfíbios e 350 variedades de peixes. Convém ponderar que toda essa biodiversidade é refletida em inúmeros benefícios como controle do clima, fornecimento de água, alimentos e plantas medicinais. Gera renda, lazer, ecoturismo e qualidade de vida.

Pero Vaz de Caminha, ao se deparar com imensa e rica floresta em 1500, retratou em carta ao Rei D. Manoel que era “a terra em si de mui bons ares”. No entanto, o que se sucedeu após a chegada do homem branco foram os ciclos econômicos do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do café e do ouro, que avassalaram a Mata Atlântica. Em nossa região, a sobre-exploração de árvores como a peroba-rosa e a araucária as colocaram em risco de extinção.

Se por um lado o uso e ocupação do solo na Mata Atlântica proporcionaram crescimento econômico do Brasil, por outro resultaram na devastação desse ambiente – hoje, restam apenas 8,5% do que havia originalmente em remanescentes florestais, se considerados os com mais de 100 hectares.

O isolamento dos poucos fragmentos de florestas existentes é uma das principais causas para extinção de espécies e a perda de qualidade ambiental. Dados do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção apontam que 383 espécies de animais ameaçados se encontram na Mata Atlântica – um sinal vermelho já aceso.

De forma vazia, discute-se se o ser humano deve ou não ser considerado como a espécie mais importante da natureza. Talvez a defesa dessa presunção antropocêntrica leve em consideração a capacidade de reconhecermos as belezas naturais e até de colocarmos um dia especial para as árvores no calendário. O ideal, no entanto, seria admitir que a importância humana deve-se ao fato de termos conseguido destruir grande parte da Mata Atlântica, antes íntegra. E que aceitar tal realidade nos daria a responsabilidade de conservar tudo aquilo que resta com afinco e tentar restaurar o que já perdemos.

Gustavo Góes

Artigo publicado originalmente na coluna Ponto de Vista do Jornal de Londrina de 22 de setembro de 2013.

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Artigo publicado originalmente na coluna Espaço Aberto do jornal Folha de Londrina em 22/03/2013.

Em todo o mundo se comemora hoje o Dia da Água. No Brasil, sempre citado como o detentor de um dos maiores estoques de água doce do planeta, o que se vê é a poluição e o desperdício como regra. Quais são, então, as questões para se tratar nesta data?

O cenário não é pacífico. Dados das Nações Unidas indicam que 80% dos habitantes do planeta habitam regiões com altos níveis de ameaça à segurança da água. Para piorar, saneamento básico é artigo de luxo para cerca de 2,5 bilhões de pessoas. Outros 783 milhões não tem acesso à água potável. O resultado é a morte de 1,5 milhão de crianças ano a ano afetadas por doenças diarreicas, com um assustador saldo de 5 mil mortes por dia.

Infelizmente, o Brasil não fica distante. O IBGE aponta que perto de 40% dos domicílios brasileiros não estão providos da rede coletora de esgotamento sanitário. E por mais bizarro que se possa parecer, grande parte do esgoto coletado não recebe tratamento adequado: diariamente, 15 bilhões de litros de esgoto são lançados direto da latrina aos corpos hídricos país afora.

Se por um lado, o país do futebol injeta bilhões para a Copa do Mundo da Fifa, por outro, amarga 2,5 mil crianças mortas anualmente por doenças de veiculação hídrica.

Vale ressaltar que investimentos em saneamento salvariam muitas vidas ou mesmo esvaziariam os leitos de hospitais, já que nos países em desenvolvimento – inclua-se o Brasil – 80% das doenças são causadas por problemas relacionados à água.

A água também pune. A estupidez humana da tentativa de subjugar a natureza, devastando sistemas ecológicos ou mesmo a ocupação de áreas de preservação permanentes, aliada aos efeitos das mudanças climáticas, tendem a tornar comuns os fenômenos climáticos extremos, como enchentes e secas, com desastres aterrorizantes, a exemplo dos já vistos por aqui.

Com toda essa conjuntura, e após a Assembleia Geral da ONU reconhecer a água e o saneamento como direitos humanos, 2013 foi declarado o ano internacional pela cooperação da água.

Os desafios são grandes para manter a “castidade da água”, conforme apontou Francisco de Assis, ou para manter a sustentabilidade dela, de acordo com o conceito pós-moderno. O certo é que tal recurso natural, elementar para a manutenção da vida, também deve sustentar o desenvolvimento socioeconômico.

A despeito do panorama exposto, e muito além das ações de empresas de saneamento, ações de conservação da água estão se tornando práticas comuns no cotidiano.

Nas áreas urbanas, o cidadão já começa a associar que o desperdício na torneira pode afetar a vazão dos rios captados. Está ciente de que lavar calçada é um disparate, e de que o lixo da sarjeta, se não entupir o bueiro e alagar a rua na próxima chuva, vai poluir o lago tempos atrás abundante em peixes.

O homem do campo sabe que a riqueza e a abundância da água só continuam se mantida a cobertura florestal, a proteção das nascentes, das beiras de rios e áreas de recargas de aquíferos. A recuperação dessas áreas já é fato nas pequenas propriedades, inclusive aqui, com o projeto Londrina Verde.

Apoiado pelo poder público e terceiro setor, ou mesmo de forma voluntária, o agricultor tem se esforçado para corrigir erros de toda a sociedade, restabelecendo os serviços ambientais.

O setor industrial começa a implementar técnicas para otimização da água virtual – aquela não vista mas utilizada na geração de bens e serviços. O sempre crescente consumo pressiona os estoques de água, que diferentemente do aumento da população mundial, continua o mesmo.

Crescer em consciência no uso e no cuidado da água, recurso que ainda é abundante no Brasil, é o preceito que deve nortear a presente geração.

GUSTAVO GÓES é gestor ambiental da ONG Meio Ambiente Equilibrado (MAE) em Londrina

Entrada para floresta

Entrada para Floresta (1942) – Cândido Portinari

 

ESPAÇO ABERTO – Folha de Londrina (10/08/2012)*

A proposta de construção de um complexo logístico sobre uma região de grande importância ambiental nem saiu do papel e já gera polêmicas na sociedade norte-paranaense. Seria mesmo aceitável, nos dias de hoje, a definição do local para um empreendimento sem antes mesmo estudar sua viabilidade? Como ficaria a comunidade local, a biodiversidade e todo o ambiente se esse projeto fosse viabilizado na área proposta?

Geralmente, empreendedores desavisados não se preocupam com todas essas questões. Por outro lado, após tantos desastres ambientais passados, a sociedade criou mecanismos para manter um maior equilíbrio entre as forças econômicas e as questões socioambientais. Atualmente, existem legislações pertinentes que orientam as atividades humanas a não repetir erros do passado. Nessa esteira, surgiu um novo campo de estudo: a Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), que agrega profissionais de várias áreas com o objetivo da viabilidade de projetos ambientalmente menos agressivos.

Com o vislumbre de um licenciamento ambiental para o projeto Arco Norte, cumpre examinarmos a Resolução Conama 1/86 que, no artigo 5º, destaca que um Estudo de Impacto Ambiental (instrumento necessário para empreendimentos de tal porte) deve ”contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização de projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do projeto”. Como se observa, a ideia do Arco Norte nasce errada. E para não ficarmos na dicotomia do ”faz ou não faz” a obra, antes de tudo deve-se conceber alternativas locacionais. Afinal, se o objetivo é o desenvolvimento regional, não devem faltar em todo o Norte do Paraná áreas sem parques e mananciais de abastecimento por perto, características da Zona Sul de Londrina.

A área apontada para o Arco Norte é rica em serviços ambientais para nossa região. Além de celeiro de alimentos, lá existem não só bacias hidrográficas responsáveis por abastecimento público de água regional como também fragmentos de floresta bem conservados que abrigam várias espécies em extinção. Toda essa rede de serviços ambientais tem como núcleo o Parque Estadual Mata dos Godoy, uma das unidades de conservação mais estudadas em todo o Paraná – e também um dos últimos remanescentes que preserva a rica floresta encontrada pelos pioneiros.

Vale dizer que aumentar a área do parque, como aventam os proponentes do Arco Norte, é uma ação importante. Entretanto, trata-se de uma realização que já deveria estar em curso pela própria importância do local, independente do Arco Norte, haja vista que o entorno do parque em 2007 já foi declarado, pelo Ministério do Meio Ambiente, como uma área de ”muito alta” prioridade para conservação.

Concordo com a preocupação da Associação Comercial e Industrial de Londrina, da Sociedade Rural do Paraná e do governo do Paraná com Londrina e o desejado desenvolvimento da região do Arco Norte. Há anos nosso pedaço de Paraná aqui no Norte carece de desenvolvimento substancial e, de fato, merece todo o investimento possível. Mas no lugar de aeroporto e complexo logístico, que se dê aporte a atividades de baixo impacto ambiental na região rural Sul de Londrina. Que se invista em outras atividades, como turismo rural e ecoturismo, bem como produção sustentável de alimentos e água. Não há radicalismo nenhum em planejar tal vocação para o local – e é justamente o amplo conhecimento técnico já disponível e produzido sobre a área que permite, sem medo, essas afirmações. Arco Norte sim e sempre! Mas ali, não!

GUSTAVO GÓES é gestor ambiental em Londrina

 

Artigo publicado originalmente na Coluna Espaço Aberto do Jornal Folha de Londrina.
(trata do discutido projeto de desenvolvimento para a cidade de Londrina, e o seu local precipitadamente apontado)

exploração de recursos

A Fábrica (2009) – Will Ferreira

Após sediar a Rio+20, o Brasil não tem muito a comemorar no que tange a questão ambiental. Questões muito polêmicas junto à sociedade, como a alteração do Código Florestal e a construção de Belo Monte, permearam e antecederam por aqui o debate da conferência da ONU. Mas não é só isso, a pressão de grandes obras públicas pressiona órgãos ambientais para aprovação de licenças, havendo até diminuição de áreas protegidas. Fatos estes que apontam para a fragilidade que a temática ambiental vem sofrendo em nível nacional.

Nessa linha de análise, em recentemente levantamento1 foi apurado que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem 27% do seu orçamento alocado no que é conhecido como reserva de contingência,  uma estratagema da União para se obter superávit primário2, ou seja, estão ali para fazer volume.  Dos R$4,1 bi previstos para 2012, R$1,1 bi está contingenciado, e tal restrição já acontece no MMA desde 2006. As restrição orçamentária, pode ter atingido três programas importantes do MMA, que estão quase paralisados. São os programas Mudanças Climáticas, Biodiversidade, além do Programa de Conservação e Gestão de Recursos Hídricos.

Enquanto a arrecadação federal bateu recorde no ano passado3, tendo aumento de 10%, a receita do MMA cresceu apenas de R$4 para R$4,1 bi. E quando verificado a representatividade do orçamento da pasta, teve-se em 2011 que 0,15% do Orçamento Geral da União foi destinado ao MMA.

De igual forma, as áreas protegidas também são alvo do modelo de desenvolvimento adotado. A despeito da criação, em 2007, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Natureza (ICMBio) e seus avanços na gestão dessas áreas, foi aprovada em maio na Câmara, e segue ao Senado, a Medida Provisória que altera os limites de sete Unidades de Conservação (UC) federais4. Milhares de hectares serão excluídos a fim de facilitar a construção de várias usinas hidrelétricas (UHE), todas no bioma amazônico.

Como se observa, toda controvérsia gerada por Belo Monte, projeto antiquado da época da ditadura, não incomoda os tomadores de decisão lá de cima. Mais e mais, o que parece importar é gerar energia5 a base dos rios amazônicos que antes eram “imaculados”. É importante destacar a pífia valoração do patrimônio socioambiental quando se trata de obras de interesse público, constata-se que os danos aos povos tradicionais e aos bens naturais são subjugados para a viabilização de grandes obras.

Paradoxalmente ao discurso na Rio+20, as ações do governo federal para com o Meio Ambiente são dignas de atenção da sociedade brasileira. Paralelo à conferência da ONU, a sociedade civil apresentou avanços em iniciativas locais, fato que motiva a possibilidade de melhorias surgindo de baixo para cima. Por outro lado, é imprescindível a responsabilidade do setor público na execução de sua política ambiental.

Gustavo Góes

1 http://www.contasabertas.com.br/WebSite/Noticias/DetalheNoticias.aspx?Id=933

2 Saldo positivo, quando, ao final de um período, verifica-se que os gastos do governo foram menores do que a receita.

3 http://www.brasileconomico.ig.com.br/noticias/arrecadacao-federal-deve-continuar-alta-em-2012_112380.html

4 http://www.ecodesenvolvimento.org.br/posts/2012/maio/aprovada-na-camara-a-reducao-de-sete-unidades-de

5 Vale lembrar que nesse blog já foi falado sobre o mito da energia limpa gerada em UHE de ambientes tropicais, confira: https://penseverde.wordpress.com/2009/06/11/energia-eletrica-em-expansao/